10 janeiro 2026

América Latina rumo à direita

    Essa guinada à direita não parece ser apenas mais uma oscilação pendular cíclica ou passageira na política da região. Uma análise cuidadosa das pesquisas e de outras tendências subjacentes sugere que ideias e prioridades políticas conservadoras parecem estar ganhando terreno na América Latina. Uma pesquisa anual muito acompanhada, realizada pelo Latinobarómetro, um instituto de pesquisa regional com sede no Chile, com mais de 19.000 entrevistados em 18 países, revelou que, em 2024, o grau de identificação dos latino-americanos com a direita atingiu seu nível mais alto em mais de duas décadas. A mesma pesquisa apontou Bukele como o político mais popular em toda a região, com uma média de 7,7 em uma escala de dez pontos.

    A maioria das razões para a ascensão da direita não se origina de fatores externos, mas sim de mudanças na realidade da América Latina. Entre elas, destaca-se a crescente frustração da população com a criminalidade, um problema que, embora não seja novo na região, se agravou consideravelmente nos últimos anos, que se tornou tema central em todas as eleições ocorridas na Região. Segundo estimativas das Nações Unidas, a produção de cocaína na América Latina triplicou na última década, proporcionando às gangues e cartéis da região riqueza e poder sem precedentes e alimentando a violência relacionada ao narcotráfico. A América Latina representa 8% da população mundial, mas cerca de 30% dos homicídios. Em diversos países que realizarão eleições em 2026, incluindo Colômbia, Brasil, Haiti, Peru e Costa Rica, a criminalidade — um tema eleitoral que tradicionalmente favorece a direita — aparece nas pesquisas como a principal preocupação dos eleitores.

    Outros fatores-chave na ascensão da direita incluem a disseminação do cristianismo evangélico na América Latina, tradicionalmente católica, que transformou a política em vários países, principalmente no Brasil, ao colocar questões da guerra cultural, como o aborto e a “ideologia de gênero”, no centro do debate. Os dramáticos colapsos econômicos e sociais, que se prolongaram por anos, na Venezuela e em Cuba desacreditaram as políticas socialistas na mente de uma geração de eleitores em toda a América Latina, prejudicando a popularidade até mesmo de alguns candidatos de esquerda moderados, que, no entanto, são percebidos como parte da mesma corrente ideológica. O êxodo de pessoas desses dois países, e de outras nações em crise, como Haiti e Nicarágua, levou a uma migração sem precedentes dentro da própria América Latina, provocando uma reação negativa em países receptores como Chile, Colômbia e Peru, que alguns candidatos de direita procuraram explorar.

    Enquanto isso, a fama global de Milei e Bukele também desempenhou um papel fundamental. Mesmo que a maioria dos eleitores da América Latina não deseje eleger cópias exatas de Milei e Bukele, cujas políticas muitos consideram extremistas, vídeos virais dos dois presidentes recebendo recepções de estrelas do rock na Casa Branca e em encontros prestigiosos, como a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, despertaram curiosidade, alimentando a sensação de que líderes de direita estão em ascensão não apenas em seus países, mas também no exterior.



Nenhum comentário:

Postar um comentário