Os países, em particular os EUA, estão buscando mecanismos de controle da IA, assim como já o fizeram ao estabelecê-los para a Era Atômica. Estão tirando lições erradas. É o que tem sido dito por diversos personagens de expressão técnica e/ou econômica do setor, como se verá a seguir.
Essas comparações apontam paralelos reais. Assim como as armas nucleares, a IA de ponta é poderosa e difícil de controlar. Da mesma forma que a tecnologia nuclear, ela pode ser usada para o bem ou para o mal. E, tal como a corrida armamentista da Guerra Fria, a disputa por avanços na IA pode reconfigurar o equilíbrio global de poder. A analogia nuclear, portanto, parece oferecer um modelo de como governar de forma eficaz uma tecnologia promissora, porém potencialmente perigosa, como a IA.
No entanto, embora os esforços para controlar a bomba possam servir de inspiração, eles não constituem um modelo pronto para a governança da IA. A analogia pinta um quadro excessivamente otimista da governança de armas nucleares, atribuindo-lhe sucessos que ainda hoje são objeto de debate e cuja legitimidade pode ser questionável. Ela também obscurece diferenças fundamentais entre a IA e a tecnologia nuclear, revelando o quanto a governança da IA será muito mais complexa. Materiais nucleares podem ser rastreados e contabilizados com muito mais facilidade do que os componentes da IA. As armas nucleares foram projetadas e construídas — e permanecem até hoje — sob rigoroso controle governamental; já a IA é desenvolvida principalmente por empresas privadas movidas por fortes interesses lucrativos, que avançam mais rápido do que a capacidade de regulamentação dos Estados. Enquanto os casos de uso da tecnologia nuclear são restritos, os da IA abrangem praticamente todos os setores e domínios de segurança.
A governança da IA enfrenta ainda um desafio adicional: os formuladores de políticas precisam mobilizar apoio para ações concretas mesmo quando a dimensão da ameaça permanece abstrata. Revelações recentes da OpenAI, Anthropic, Google e Meta — indicando que seus modelos avançados escaparam de ambientes de teste e obtiveram acesso não autorizado à Internet — geraram preocupação em Washington quanto aos riscos associados à IA de ponta. No entanto, as implicações desses incidentes permanecem ambíguas. Eles estão distantes da experiência cotidiana da maioria das pessoas e ainda não causaram danos em larga escala; portanto, é pouco provável que, por si sós, gerem a pressão política sustentada necessária para criar e manter um regime de supervisão duradouro. Apesar dos muitos alertas de pesquisadores e formuladores de políticas sobre os inúmeros riscos da IA, a tecnologia ainda não vivenciou um momento decisivo — como o uso de armas nucleares no final da Segunda Guerra Mundial — capaz de transformar o medo em ação. Mas o mundo não pode esperar por tal momento para agir. Olhar para a história pode ser um ponto de partida produtivo, mas ela não oferece um modelo pronto para o problema que a IA apresenta. A inteligência artificial é diferente de qualquer tecnologia do passado, e a ordem que a rege também deve sê-lo.
Nesse sentido, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a criação de uma "Força de IA" e o plano de nomear um novo "czar da Inteligência Artificial" para coordenar a estratégia tecnológica do governo
As visões internacionais mais ambiciosas para a regulamentação da IA inspiram-se na governança nuclear, partindo da premissa de que tal estrutura pode ajudar a minimizar os danos potenciais da IA e, ao mesmo tempo, fortalecer a capacidade de liderança dos Estados Unidos. Haydn Belfield, pesquisador da Google DeepMind, propôs um arranjo baseado no Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) que permitiria a posse de chips potentes apenas a certos Estados que possuíssem regulamentação interna adequada — um regime de não proliferação para a IA. Outros, incluindo Altman, defendem a criação de um órgão independente de especialistas com amplos poderes de inspeção e verificação sobre a IA, semelhante à AIEA. Um terceiro grupo busca recriar as práticas de controle de armas e a vulnerabilidade mútua da Guerra Fria para estabilizar a corrida pela IA entre os Estados Unidos e a China.
O apelo desses precedentes é compreensível. A ordem nuclear figura entre os poucos casos de sucesso da governança global do pós-guerra. Em um discurso nas Nações Unidas em 1953, o então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, apresentou um plano — que ficou conhecido como "Átomos para a Paz" — destinado a conter os riscos da tecnologia e, simultaneamente, promover seus benefícios: os países poderiam ter acesso à tecnologia nuclear desde que se comprometessem a não utilizá-la para fins bélicos.
O problema da proliferação não foi resolvido de imediato. Em 1963, o presidente John F. Kennedy previu que, na década seguinte, de 15 a 25 Estados se tornariam potências nucleares, e muitos líderes norte-americanos de alto escalão acreditavam que uma guerra nuclear era inevitável. No entanto, na década de 1970, o TNP — tratado que constituía a pedra angular da ordem nuclear — entrou em vigor, e o regime de inspeções e verificação da AIEA, conduzido por especialistas e apoiado por Washington e Moscou, passou a fiscalizá-lo. As duas superpotências negociaram proibições de testes, convocou cúpulas de controle de armas e estabeleceu uma linha direta para crises. Hoje, o TNP conta com a adesão internacional praticamente universal. Apenas nove Estados possuem armas nucleares, e nenhuma guerra nuclear ocorreu. Muitos interpretam isso como um sinal de que a humanidade encontrou o equilíbrio correto entre prevenir danos e promover o uso pacífico. E, se esse equilíbrio pôde ser alcançado para as armas nucleares, talvez funcione também para a IA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário