O mais baixo nível desde a redemocratização de 1988. Recorde de besteirol, de mentiras, de demagogia, de ignorância.
O espetáculo frequentemente vence o argumento. Uma declaração absurda repercute mais do que uma proposta econômica consistente. Uma provocação rende mais compartilhamentos do que um programa educacional. Uma acusação lançada sem provas pode circular milhões de vezes antes que qualquer esclarecimento consiga alcançá-la. E uma promessa impossível pode produzir muito mais entusiasmo do que a explicação responsável de que governar significa fazer escolhas, estabelecer prioridades e reconhecer limites.
Criou-se, assim, uma espécie de indústria eleitoral da indignação. Quanto mais extravagante a declaração, maior a possibilidade de viralização. Quanto mais agressivo o discurso, maior a mobilização das próprias torcidas. O candidato deixa de falar prioritariamente ao cidadão que deseja ser convencido e passa a produzir conteúdo para seguidores que já estão convencidos.
É nesse ambiente que prosperam as mentiras e meias-verdades. Dados são escolhidos seletivamente, fatos são retirados do contexto e versões convenientes da realidade são apresentadas como verdades incontestáveis. O problema não pertence exclusivamente a uma corrente ideológica. A degradação do debate público deve ser criticada onde quer que apareça, seja à direita, à esquerda ou ao centro.
A demagogia completa o cenário. Distribuir promessas custa pouco durante uma campanha. Difícil é responder às perguntas elementares: quanto custará? Quem pagará? De onde virão os recursos? Quais serão as consequências daqui a cinco, dez ou vinte anos?
São justamente essas perguntas incômodas que deveriam dominar uma eleição presidencial.
O Brasil enfrenta questões gigantescas. A dívida pública e o equilíbrio das contas governamentais exigem atenção permanente. A Previdência terá de enfrentar os efeitos do envelhecimento populacional. A educação básica continua apresentando enormes desafios. O crime organizado adquiriu poder econômico e territorial preocupante. A infraestrutura permanece insuficiente. A produtividade brasileira cresce pouco. A inteligência artificial ameaça eliminar determinadas ocupações enquanto cria outras. E as transformações geopolíticas obrigam o Brasil a definir com maior clareza seus interesses no mundo.
Diante dessa agenda monumental, é constrangedor observar quanto espaço do debate eleitoral é consumido por provocações, insultos, frases cuidadosamente fabricadas para viralizar, discussões irrelevantes e controvérsias que desaparecerão das manchetes poucos dias depois.
A política vai se transformando em entretenimento.
E o eleitor, em torcedor.
Esse talvez seja o aspecto mais perigoso. O torcedor não exige coerência do próprio time; exige vitória. Perdoa no seu candidato aquilo que considera imperdoável no adversário. A mentira deixa de ser julgada pela sua falsidade e passa a ser avaliada pela conveniência: se prejudica o adversário, compartilha-se; se prejudica o aliado, relativiza-se.
Nesse momento, a democracia começa a perder uma de suas funções essenciais: permitir que cidadãos escolham entre projetos diferentes depois de confrontarem ideias, propostas e resultados.
Há ainda uma responsabilidade que não pode ser atribuída apenas aos candidatos. Nós, eleitores, também ajudamos a produzir o nível da política que consumimos. Cada vez que compartilhamos uma informação sem verificá-la, premiamos a desinformação. Cada vez que preferimos o insulto ao argumento, estimulamos políticos a insultar. Cada vez que transformamos candidatos em ídolos incapazes de errar, renunciamos ao dever democrático de fiscalizá-los.
As redes sociais potencializaram esse comportamento porque descobriram algo extremamente lucrativo: a indignação prende a atenção. E atenção tornou-se moeda. O algoritmo não precisa distinguir o verdadeiro do falso, o inteligente do absurdo ou o relevante do insignificante. Basta descobrir aquilo que nos mantém olhando para a tela.
Talvez seja essa uma das grandes tragédias da eleição de 2026: o Brasil possui problemas extraordinariamente complexos, enquanto parte de seu debate político se torna extraordinariamente simplista.
Não precisamos de candidatos que prometam milagres. Precisamos saber quais prioridades escolherão, quais reformas defenderão, quanto custarão suas propostas e quais sacrifícios eventualmente exigirão da sociedade. Precisamos conhecer equipes, projetos, números e estratégias. Presidência da República não deveria ser concurso de popularidade, campeonato de lacração nem competição de vídeos virais.
Governar o Brasil significa administrar uma das maiores economias e uma das sociedades mais complexas do planeta.
É responsabilidade grande demais para ser reduzida a memes.
A eleição de 2026 ainda pode oferecer ao país um debate à altura de seus desafios. Mas isso dependerá não apenas dos candidatos. Dependerá também da imprensa, das instituições e, sobretudo, dos cidadãos.
Porque existe uma verdade incômoda que nenhuma campanha eleitoral gosta de admitir: políticos aprendem rapidamente aquilo que seus eleitores recompensam.
Se premiarmos o insulto, receberemos mais insultos. Se premiarmos a mentira conveniente, teremos mais mentiras. Se premiarmos a demagogia, teremos mais promessas impossíveis. Se premiarmos o besteirol, o besteirol se transformará em método de campanha.
Mas, se começarmos a exigir conhecimento, responsabilidade, coerência, civilidade e propostas concretas, talvez os candidatos descubram que precisam elevar o nível.
No fim das contas, a pobreza de uma campanha presidencial não é apenas um retrato dos candidatos que disputam nossos votos.
É também um espelho daquilo que nós, como sociedade, decidimos tolerar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário