| Anayde Beiriz |
Por Sérgio Botelho (*)
Quando o advogado João Dantas matou o então presidente da Parahyba do Norte, João Pessoa, em 26 de julho de 1930, atingiu de morte ele próprio, sua noiva, Anayde Beiriz, seu primo, Augusto Caldas, e o ex-presidente paraibano João Suassuna.
De quebra, cavou a sepultura política do presidente da República, Washington Luiz, do eleito, Júlio Prestes, do coronel José Pereira, do perrepismo e da Primeira República. Enfim, propiciou a ascensão de Getúlio Vargas e da Aliança Liberal ao poder federal.
Não era nada disso que ele pretendia. Seu ato, de vingança pessoal e moral, focava apenas no líder assassinado, responsável, segundo seu entendimento, pela divulgação de cartas íntimas entre ele e a noiva Anayde (há quem jure que não foi João Pessoa o responsável).
Augusto Caldas, o primo, morreu porque era na casa dele, em Olinda, onde João Dantas estava hospedado. Para piorar, na hora do crime estava na companhia do assassino, com o qual foi preso e, poucos meses depois, morto (os dois) na cadeia.
Anayde, poeta e professora, porque namorava Dantas, lhe fez visitas na prisão, e não suportou a barra de ser, a partir dali, reduzida a amante do assassino em uma sociedade marcantemente patriarcal e misógina. Então, providenciou sua própria morte.
João Suassuna porque fazia parte do campo oposicionista a João Pessoa, onde militavam os Dantas, além de estar em Recife no dia do crime, sendo arrolado pelos aliancistas como possível inspirador. Foi morto pelas costas, no Rio de Janeiro.
Se a gente utilizar uma lente de maior profundidade sobre o episódio vai perceber como a realidade patriarcal, oligarca e misógina da época foi o que serviu de gatilho moral para toda aquela tragédia. Apropriada pela política, a manobra acabou mudando a história do Brasil e da Paraíba.
* Sérgio Botelho, jornalista, escritor e memorialista, escreve textos, de apelo histórico, sobre a Paraíba, com veiculação nas redes sociais.
PS.: Esta imagem histórica retrata a Rua Duque de Caxias em João Pessoa (anteriormente conhecida como Parahyba do Norte), datada de aproximadamente 1925. O destaque central é a antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, um importante símbolo religioso e cultural negro na cidade.
| Rua Duque de Caxias em João Pessoa |
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