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25 setembro 2026

O New York Times chamou de “escândalo explosivo”. E não exagerou. Alexandre de Moraes está no centro de uma crise institucional sem precedentes no Brasil

O Relatório da Polícia Federal, agora público, mostra que o ministro do STF manteve contato intenso com Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro preso por um esquema de fraude bilionária no Banco Master. Não foi um contato qualquer. Vorcaro tinha o número de Moraes salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Enviou dezenas de mensagens. Dois dias antes de ser preso no aeroporto tentando fugir do país, perguntou direto: “Acha que segunda já tenho que estar fora?” Pediu para o ministro interceder com o diretor da PF e com o procurador-geral da República. Falou em “bloquear” a operação. Disse que tinha “gratidão da minha vida” e que sua família, funcionários e parceiros tinham “dívida de vida” com Moraes e a família dele.

Houve encontros. Vários. Em residências. O relatório aponta pelo menos seis a oito reuniões.

E tem o contrato: o escritório da esposa de Moraes fechou R$ 130 milhões com o banco de Vorcaro. A PF diz que o próprio ministro analisou e fez alterações no contrato.

Moraes nega. Diz que as mensagens não eram para ele. Que a análise técnica não bate. Mas as mensagens existem. Os encontros existem. O contrato existe. A gratidão existe. A pergunta sobre fuga existe.

Enquanto isso, Vorcaro está preso. Moraes continua no Supremo, julgando os outros.

O NYT foi claro: o escândalo energizou a direita e deu força a Flávio Bolsonaro contra Lula. Porque o país cansou de ver o mesmo filme.

O banqueiro que quebrou o banco está na cadeia.

Quem deveria estar na cadeia é Alexandre de Moraes.

24 setembro 2026

A IA de ponta é poderosa e difícil de controlar

Os países, em particular os EUA, estão buscando mecanismos de controle da IA, assim como já o fizeram ao estabelecê-los para a Era Atômica. Estão tirando lições erradas. É o que tem sido dito por diversos personagens de expressão técnica e/ou econômica do setor, como se verá a seguir.

Na busca da humanidade para conter os perigos de uma inteligência artificial que avança rapidamente, muitos voltaram o olhar para a tecnologia mais revolucionária que a precedeu: as armas nucleares. O CEO da SpaceX, Elon Musk, classificou a inteligência artificial como "muito mais perigosa do que armas nucleares". O CEO da Anthropic, Dario Amodei — que recomenda a leitura do livro *The Making of the Atomic Bomb* (A Criação da Bomba Atômica) aos funcionários e já se comparou a Leo Szilard, cientista do Projeto Manhattan —, descreve os modelos de IA mais poderosos como "materiais nucleares passíveis de uso como arma". Ao ser questionado sobre como uma tecnologia como a IA pode ser regulamentada, o CEO da OpenAI, Sam Altman, frequentemente cita o órgão fiscalizador mundial de materiais nucleares, a Agência Internacional de Energia Atômica. Até mesmo o diretor da CIA, John Ratcliffe, fez a mesma comparação.

Essas comparações apontam paralelos reais. Assim como as armas nucleares, a IA de ponta é poderosa e difícil de controlar. Da mesma forma que a tecnologia nuclear, ela pode ser usada para o bem ou para o mal. E, tal como a corrida armamentista da Guerra Fria, a disputa por avanços na IA pode reconfigurar o equilíbrio global de poder. A analogia nuclear, portanto, parece oferecer um modelo de como governar de forma eficaz uma tecnologia promissora, porém potencialmente perigosa, como a IA.

No entanto, embora os esforços para controlar a bomba possam servir de inspiração, eles não constituem um modelo pronto para a governança da IA. A analogia pinta um quadro excessivamente otimista da governança de armas nucleares, atribuindo-lhe sucessos que ainda hoje são objeto de debate e cuja legitimidade pode ser questionável. Ela também obscurece diferenças fundamentais entre a IA e a tecnologia nuclear, revelando o quanto a governança da IA ​​será muito mais complexa. Materiais nucleares podem ser rastreados e contabilizados com muito mais facilidade do que os componentes da IA. As armas nucleares foram projetadas e construídas — e permanecem até hoje — sob rigoroso controle governamental; já a IA é desenvolvida principalmente por empresas privadas movidas por fortes interesses lucrativos, que avançam mais rápido do que a capacidade de regulamentação dos Estados. Enquanto os casos de uso da tecnologia nuclear são restritos, os da IA ​​abrangem praticamente todos os setores e domínios de segurança.

A governança da IA ​​enfrenta ainda um desafio adicional: os formuladores de políticas precisam mobilizar apoio para ações concretas mesmo quando a dimensão da ameaça permanece abstrata. Revelações recentes da OpenAI, Anthropic, Google e Meta — indicando que seus modelos avançados escaparam de ambientes de teste e obtiveram acesso não autorizado à Internet — geraram preocupação em Washington quanto aos riscos associados à IA de ponta. No entanto, as implicações desses incidentes permanecem ambíguas. Eles estão distantes da experiência cotidiana da maioria das pessoas e ainda não causaram danos em larga escala; portanto, é pouco provável que, por si sós, gerem a pressão política sustentada necessária para criar e manter um regime de supervisão duradouro. Apesar dos muitos alertas de pesquisadores e formuladores de políticas sobre os inúmeros riscos da IA, a tecnologia ainda não vivenciou um momento decisivo — como o uso de armas nucleares no final da Segunda Guerra Mundial — capaz de transformar o medo em ação. Mas o mundo não pode esperar por tal momento para agir. Olhar para a história pode ser um ponto de partida produtivo, mas ela não oferece um modelo pronto para o problema que a IA apresenta. A inteligência artificial é diferente de qualquer tecnologia do passado, e a ordem que a rege também deve sê-lo.

Nesse sentido, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a criação de uma "Força de IA" e o plano de nomear um novo "czar da Inteligência Artificial" para coordenar a estratégia tecnológica do governo

As visões internacionais mais ambiciosas para a regulamentação da IA ​​inspiram-se na governança nuclear, partindo da premissa de que tal estrutura pode ajudar a minimizar os danos potenciais da IA ​​e, ao mesmo tempo, fortalecer a capacidade de liderança dos Estados Unidos. Haydn Belfield, pesquisador da Google DeepMind, propôs um arranjo baseado no Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) que permitiria a posse de chips potentes apenas a certos Estados que possuíssem regulamentação interna adequada — um regime de não proliferação para a IA. Outros, incluindo Altman, defendem a criação de um órgão independente de especialistas com amplos poderes de inspeção e verificação sobre a IA, semelhante à AIEA. Um terceiro grupo busca recriar as práticas de controle de armas e a vulnerabilidade mútua da Guerra Fria para estabilizar a corrida pela IA entre os Estados Unidos e a China.

O apelo desses precedentes é compreensível. A ordem nuclear figura entre os poucos casos de sucesso da governança global do pós-guerra. Em um discurso nas Nações Unidas em 1953, o então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, apresentou um plano — que ficou conhecido como "Átomos para a Paz" — destinado a conter os riscos da tecnologia e, simultaneamente, promover seus benefícios: os países poderiam ter acesso à tecnologia nuclear desde que se comprometessem a não utilizá-la para fins bélicos.

O problema da proliferação não foi resolvido de imediato. Em 1963, o presidente John F. Kennedy previu que, na década seguinte, de 15 a 25 Estados se tornariam potências nucleares, e muitos líderes norte-americanos de alto escalão acreditavam que uma guerra nuclear era inevitável. No entanto, na década de 1970, o TNP — tratado que constituía a pedra angular da ordem nuclear — entrou em vigor, e o regime de inspeções e verificação da AIEA, conduzido por especialistas e apoiado por Washington e Moscou, passou a fiscalizá-lo. As duas superpotências negociaram proibições de testes, convocou cúpulas de controle de armas e estabeleceu uma linha direta para crises. Hoje, o TNP conta com a adesão internacional praticamente universal. Apenas nove Estados possuem armas nucleares, e nenhuma guerra nuclear ocorreu. Muitos interpretam isso como um sinal de que a humanidade encontrou o equilíbrio correto entre prevenir danos e promover o uso pacífico. E, se esse equilíbrio pôde ser alcançado para as armas nucleares, talvez funcione também para a IA.


23 setembro 2026

Visita de Lula a ONU foi praticamente despercebida

A passagem de Lula pela ONU em 2026 teve repercussão bem mais discreta e menor capacidade de produzir um fato diplomático de grande impacto.

A visita foi curta, teve poucas reuniões e Lula não concedeu entrevista coletiva. Além disso, diferentemente de 2025, não houve encontro nem contato com Donald Trump, que discursou logo depois dele.

LULA E TRUMP FICARAM 20 MINUTOS NO MESMO ESPAÇO NA ONU E NEM SE CUMPRIMENTAM

😅 - O contraste com o ano passado não poderia ser mais nítido. Segundo a CNN Brasil, Lula e Trump permaneceram cerca de 20 minutos na mesma antessala da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, 22, aguardando suas respectivas falas — e não se cumprimentaram, nem chegaram a se ver, conforme fontes confirmaram à reportagem. Lula discursou primeiro, seguido por Trump, como manda a tradição protocolar do evento.

A ausência de aperto de mão, portanto, não é detalhe de etiqueta: é o indicador mais visível de como a relação Brasília-Washington se deteriorou ao longo do governo Lula.

A força e a determinação americana estão de volta

Em pouco mais de 24 horas, Donald Trump e a diplomacia dos EUA movimentaram peças no Ártico, na América Latina, na Ásia, na guerra da Ucrânia e no Oriente Médio. E, quando essas decisões são observadas em conjunto, começa a surgir um desenho muito maior.

Uma nova política externa sendo executada diante das câmeras. 



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Esse talvez seja o principal ponto desta semana em Nova York. Trump não apresentou um documento chamado "nova ordem americana". Ele simplesmente começou a executá-la. Groelândia no norte. Escudo das Américas no continente. Japão e Coreia no flanco asiático. China diante de uma negociação estratégica. Ucrânia em busca de acordo limitado. Irã entre pressão e negociação. Tudo isso em pouco mais de um dia

 
ÁRTICO

Trump não conseguiu transformar a Groenlândia em território americano — e a soberania da ilha não mudou.

Mas os Estados Unidos avançaram em algo estratégico: um novo acordo de segurança que amplia sua presença militar no território, abre espaço para novas instalações e para o projeto de defesa Golden Dome e cria barreiras à presença militar e a investimentos considerados sensíveis de países adversários.

Na prática, Washington reforça seu flanco norte e sua presença no Ártico.

AMÉRICA LATINA

O Escudo das Américas ganhou força.  Na América Latina, Trump reuniu os países que integram o chamado Escudo das Américas.

O objetivo é aprofundar a cooperação contra o narcotráfico e o crime organizado, com inteligência, sanções e maior coordenação entre os governos participantes.

Entre os grupos citados estão organizações brasileiras como PCC e Comando Vermelho.

"Nossos esforços conjuntos já salvaram centenas de milhares de vidas de overdoses letais de fentanil e retiraram mais de 4 bilhões de dólares dos cartéis.", Donal Trump.

Brasil e México permanecem fora desse arranjo — e essa diferença de posicionamento poderá ter consequências importantes na política de segurança do continente.

VENEZUELA

A Venezuela virou um precedente. Trump também utilizou a operação americana que levou à captura de Nicolás Maduro como demonstração da nova postura de Washington para o Hemisfério Ocidental.

A mensagem é clara: os Estados Unidos estão sinalizando quais ameaças consideram intoleráveis dentro de sua área estratégica e até onde estão dispostos a ir para proteger seus interesses.

ÁSIA

Japão e Coreia do Sul: proteção com contrapartidas. Do outro lado do mundo, Washington reafirmou sua cooperação militar, econômica e tecnológica com Japão e Coreia do Sul.

Ao mesmo tempo, os aliados são pressionados a ampliar investimentos em defesa, indústria, tecnologia e segurança. Os Estados Unidos oferecem proteção e acesso, mas esperam maior alinhamento e divisão dos custos.

GUERRA NA UCRÂNIA

Ucrânia: uma tentativa de acordo limitado. Trump também se reuniu com Volodymyr Zelensky.

Neste momento a Casa Branca não estaria buscando resolver de uma só vez todas as questões territoriais da guerra, mas explorar entendimentos mais limitados, especialmente relacionados aos ataques contra infraestrutura energética.

Não seria ainda um cessar-fogo completo — mas uma tentativa de reduzir parte do impacto da guerra.

ORIENTE MÉDIO

Irã: pressão máxima e negociação. E ainda houve espaço para o Oriente Médio.

Trump se reuniu com representantes dos países do Golfo, aumentou a pressão pública sobre o Irã e, ao mesmo tempo, manteve aberta a possibilidade de negociação.

É uma fórmula que apareceu várias vezes ao longo dessas horas: demonstração de força, pressão econômica, proteção dos aliados e, depois, negociação.


IA - A primazia como prioridade

Uma opção possível é buscar a supremacia em ASI (Inteligência Artificial Superinteligente) — garantir que a superinteligência surja primeiro, e exclusivamente, em uma Nação. Essa estratégia utilizaria a ASI para apoiar valores democráticos e a primazia de um país democrático. Ela sustentaria que o domínio é o caminho para a segurança diante de desafios geopolíticos e riscos existenciais.

A lógica que sustenta tal caminho baseia-se em três pontos. Primeiramente, a supremacia em ASI é indispensável devido aos ganhos revolucionários que ela oferece. Um país não consegue manter a primazia global ou sustentar a ordem mundial se um rival tirânico dominar a tecnologia mais crucial; além disso, a liberdade pode ser extinta se a superinteligência for utilizada por Estados repressivos e neototalitários. Adicionalmente, a supremacia é essencial porque o potencial de autoaperfeiçoamento recursivo — a capacidade de modelos avançados de IA se aprimorarem quase perpetuamente — significa que uma vantagem inicial se multiplica exponencialmente. Por fim, a hegemonia da nação é a melhor proteção tanto contra desastres geopolíticos quanto contra uma ASI descontrolada ou hostil. Manter a ASI alinhada ao florescimento humano se tornará mais difícil, talvez impossível, se a tecnologia se disseminar entre atores hostis ou irresponsáveis. 

Mas se a ASI surgir exclusivamente nos Estados Unidos, por exemplo, Washington poderá garantir que ela se desenvolva sob salvaguardas prudentes e de forma compatível com os valores democráticos.

Na prática, buscar a supremacia em ASI significa, simultaneamente, competir e restringir. O governo dos EUA apoiaria laboratórios de ponta na corrida rumo à ASI por meio de medidas que variam desde a construção de enormes centros de dados até o fortalecimento da defesa cibernética e a proteção contra sabotagem ou outros ataques físicos. Washington também precisaria exigir investimentos vultosos em pesquisas de segurança, ao mesmo tempo em que criaria um regime interno de governança de computação para assegurar que apenas desenvolvedores confiáveis ​​possam criar modelos de IA de ponta.

Paralelamente, os Estados Unidos negariam a outro país a capacidade computacional necessária para operar modelos avançados de IA, utilizando controles rigorosos sobre a exportação de semicondutores e outras medidas restritivas. Se necessário, poderiam até recorrer a ataques cibernéticos, sabotagem ou ações diretas contra a infraestrutura de IA do país para interromper o seu progresso. Acelerar a inovação americana e obstaculizar adversários tornar-se-ia a missão primordial do aparato de segurança nacional.

A supremacia pressupõe uma vantagem unilateral, mas só pode concretizar-se com consentimento multilateral. Os Estados Unidos ou qualquer outro país não conseguem avançar rapidamente sem o apoio de aliados e parceiros que já ocupam posições estratégicas no ecossistema global de IA — como Japão, Países Baixos, Coreia do Sul, Taiwan, entre outros. Além disso, os EUA não conseguiriam conter as capacidades de rivais caso esses aliados desrespeitassem os controles de exportação americanos. 

Assim, a busca pela supremacia exige o envolvimento de aliados-chave no desenvolvimento da ASI ou, no mínimo, o compartilhamento dos benefícios por meio de alianças militares e acordos de difusão tecnológica. Da mesma forma que o monopólio atômico dos Estados Unidos ajudou a sustentar a criação da ordem internacional moderna após a Segunda Guerra Mundial, uma estratégia de supremacia em ASI perpetuaria a primazia americana e a predominância dos valores democráticos nas décadas futuras. Este tema será tratado com mais detalhes no próximo artigo: "A IA de ponta é poderosa e difícil de controlar".

22 setembro 2026

STF: De uma reunião secreta para uma outra que se tornou pública

Na reunião em que aconselharam Toffoli a deixar a relatoria do caso Master, acabaram elogiando sua atuação. Era uma reunião secreta, apesar de ter vazado. Naquele momento, o estágio era proteger um juiz, apesar das denúncias. Hoje, a proteção de corruptos precisa de um pouco mais de esforço; na verdade, precisa que os ministros deem a cara a tapa. E eles deram, mostrando que estão dispostos a tudo para proteger Moraes.

Na reunião pública foi revelado um sofisticado código de ética para rejeitar que os padrões de máfia sejam apresentados como modelo. Foi isso que Gilmar Mendes propôs ao afirmar que a máfia não permite que se exponha um colega, mesmo se ele estiver envolvido.

A sessão do STF foi vista por milhões de pessoas. Televisões nos bares, rádios nos táxis, estavam todos atentos. A linguagem não era das mais acessíveis. É raro ouvir o verbo desentranhar. Os argumentos também não eram cristalinos. Mas a maioria esmagadora percebeu o que estava por trás daquela encenação: o esforço para evitar que Alexandre de Moraes fosse investigado.

Em consequência desse psicodrama nacional, o país se tornou mais aberto para mudanças no Judiciário e se tornará mais ainda na medida em que o Supremo não consiga superar a crise e mantenha a ética da máfia que parece inspirar seus membros.

De agora em diante, não há mais grandes mistérios sobre o STF. Outros ministros também se envolveram com o Banco Master — um homem com dinheiro pode seduzir grande parte da Suprema Corte. Isso aconteceu porque a cobiça já havia dominado o ambiente e não se deu conta de sua progressão. Parentes advogando, viagens e mordomias no exterior, rodadas de uísque e charuto, alguns se tornaram milionários e se preparavam para ampliar sua riqueza.

21 setembro 2026

Equinócio de setembro: o fenômeno que marca a chegada da primavera no Hemisfério Sul

   

O equinócio é um dos acontecimentos astronômicos mais interessantes relacionados ao movimento da Terra e às estações do ano. No Hemisfério Sul, o equinócio de setembro marca astronomicamente o início da primavera, enquanto no Hemisfério Norte assinala a chegada do outono. A partir desse período, no Sul, os dias passam progressivamente a superar as noites em duração, até atingirem sua maior extensão nas proximidades do solstício de dezembro.

Esse fenômeno está diretamente relacionado à inclinação do eixo terrestre e ao movimento de translação da Terra ao redor do Sol. O eixo de rotação do nosso planeta apresenta uma inclinação de aproximadamente 23,4° em relação à perpendicular ao plano de sua órbita. É principalmente essa inclinação, e não a maior ou menor distância entre a Terra e o Sol, que provoca as estações do ano. Em dois momentos do ano, aproximadamente em março e setembro, nenhum dos hemisférios está predominantemente inclinado em direção ao Sol. Nesses momentos ocorre o equinócio.

Astronomicamente, o equinócio não corresponde a um dia inteiro, mas a um instante preciso. Ele ocorre quando o centro aparente do Sol cruza o equador celeste, que é a projeção do Equador terrestre no céu. Por isso, os astrônomos conseguem determinar o equinócio com precisão de data, hora, minuto e segundo. No equinócio de setembro, após esse cruzamento, a posição aparente do Sol continua avançando em direção ao sul, até alcançar sua maior declinação austral nas proximidades do Trópico de Capricórnio, durante o solstício de dezembro.

O próprio significado da palavra equinócio revela outra característica interessante. O termo deriva do latim e está associado à ideia de “noite igual”, sugerindo que o dia e a noite teriam exatamente 12 horas cada. Entretanto, isso não ocorre de maneira rigorosa. A atmosfera terrestre provoca a refração da luz solar, fazendo com que vejamos o Sol mesmo quando ele geometricamente já se encontra um pouco abaixo do horizonte. Além disso, o nascer e o pôr do Sol são determinados pela aparição ou desaparecimento da borda superior do disco solar, e não pelo seu centro. Como consequência, o período de claridade no dia do equinócio costuma ser alguns minutos superior a 12 horas. A data em que dia e noite ficam mais próximos de exatamente 12 horas é conhecida como “equilux” e pode ocorrer alguns dias antes ou depois do equinócio, dependendo da latitude.

Outra característica marcante desse período é a posição do nascer e do pôr do Sol. Nas proximidades do equinócio, o Sol nasce aproximadamente no ponto cardeal Leste e se põe aproximadamente no Oeste. Ao mesmo tempo, a linha que divide a metade iluminada da metade escura da Terra, chamada de terminador, passa aproximadamente pelos dois polos. Isso explica por que praticamente todas as regiões do planeta recebem perto de 12 horas de iluminação solar nesse período, embora existam diferenças causadas pela latitude, pela atmosfera e pela maneira como se define o nascer e o pôr do Sol.

Nas regiões polares, o equinócio apresenta consequências ainda mais impressionantes. Nas proximidades do equinócio de setembro, inicia-se no Polo Sul o longo período de iluminação associado à primavera e ao verão austrais, enquanto no Polo Norte começa o período de escuridão relacionado ao outono e ao inverno boreais. Próximo aos polos, entretanto, essa transição não acontece instantaneamente, pois o Sol permanece muito próximo do horizonte durante um período prolongado.

No instante do equinócio, os raios solares incidem perpendicularmente nas proximidades do Equador. Assim, em determinadas condições e no momento adequado do dia, o Sol pode aparecer praticamente no zênite, isto é, diretamente acima do observador. Uma haste vertical localizada no lugar apropriado poderia então produzir uma sombra extremamente pequena ao meio-dia solar. Depois do equinócio de setembro, a região onde os raios solares incidem perpendicularmente desloca-se progressivamente para o Hemisfério Sul, chegando às proximidades do Trópico de Capricórnio no solstício de dezembro.

Apesar de o equinócio marcar o início astronômico da primavera, as temperaturas não aumentam imediatamente. Isso acontece porque oceanos, continentes e atmosfera possuem capacidade de armazenar energia e demoram algum tempo para aquecer ou esfriar. Existe, portanto, uma defasagem entre a quantidade de radiação solar recebida e a resposta da temperatura do ambiente, fenômeno conhecido como defasagem sazonal. Algo semelhante ocorre diariamente: embora o Sol esteja mais alto aproximadamente ao meio-dia solar, normalmente as temperaturas máximas são registradas algumas horas depois.

Existe ainda um fenômeno muito mais lento relacionado aos equinócios. O eixo terrestre não permanece apontando eternamente para a mesma direção no espaço. Ele executa um movimento muito lento semelhante ao de um pião, denominado precessão dos equinócios. Um ciclo completo desse movimento leva aproximadamente 26 mil anos. Como consequência, ao longo de milhares de anos muda a direção para a qual o eixo terrestre aponta no céu, modificando inclusive quais estrelas ficam próximas dos polos celestes.

Portanto, o equinócio é muito mais do que uma simples data que marca a chegada da primavera ou do outono. Ele revela uma combinação extraordinária entre o movimento de translação da Terra, a inclinação de seu eixo, a geometria da iluminação solar e até fenômenos ópticos produzidos pela atmosfera. Durante esse breve momento astronômico, os dois hemisférios recebem iluminação de maneira aproximadamente equilibrada e grande parte da humanidade experimenta dias e noites de duração semelhante. A partir daí, no Hemisfério Sul, o Sol permanece por períodos cada vez maiores acima do horizonte, os dias tornam-se progressivamente mais longos e a natureza responde às novas condições de luminosidade e temperatura que caracterizam a primavera.

20 setembro 2026

STF, imparcialidade e crise de confiança institucional

A semana se inicia após a exposição de fortes críticas sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente a partir da sessão realizada em 15 de setembro, relacionada às controvérsias envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. As críticas sustentam a mesma tese central: a percepção de que a imparcialidade do Supremo está sendo profundamente abalada, o que poderá comprometer (ou já comprometeu) a confiança da sociedade no Judiciário e, consequentemente, nas instituições democráticas brasileiras.

As críticas da última semana se concentraram nos acontecimentos ocorridos durante a já referida sessão do STF, principalmente nas questões consideradas relevantes para esclarecer a relação entre Moraes e Vorcaro que não receberam a devida atenção. Dentre elas, as mensagens atribuídas ao banqueiro, um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro, encontros sociais e contatos de Moraes com o presidente do Banco Central. Esses elementos estão sendo citados como razões pelas quais deveria haver maior investigação e esclarecimento sobre o eventual conflito de interesses. Uma outra critica estar na condução da sessão pelo presidente do STF, Edson Fachin, e o comportamento de alguns ministros, especialmente o pedido de vista apresentado por Flávio Dino, interpretado por muitos juristas como um adiamento de uma decisão necessária.

Contudo, fica mais evidente que a perda de confiança no STF é o resultado de um processo acumulado ao longo dos últimos anos, decorrente de determinadas decisões e comportamentos dos ministros que passaram a ser interpretados por parcelas da sociedade como influenciados por interesses políticos ou corporativos, dentre os quais benefícios remuneratórios existentes no Judiciário, possíveis conflitos de interesses e a proximidade de magistrados com empresários, políticos e outros agentes privados.

É sabido, pela maioria da população, que a imparcialidade não constitui apenas uma obrigação jurídica dos magistrados, mas, também, uma condição fundamental para a legitimidade do Poder Judiciário. Como os ministros do STF não são escolhidos diretamente pelo voto popular, sua autoridade institucional depende, entre outros fatores, da confiança pública de que suas decisões são tomadas de acordo com a Constituição e as leis, sem favorecimentos pessoais ou políticos. Não sendo assim, tais decisões podem produzir consequências que ultrapassam o próprio Judiciário, afetando a credibilidade das instituições brasileiras, a estabilidade democrática e até a percepção de investidores sobre o país.

Em síntese, torna-se urgente e obrigatória a reformulação do poder judiciário para se recuperar a sua confiança pública e para se preservar a segurança jurídica e o funcionamento da democracia brasileira.

DA "MINUTA DO GOLPE" AO "RELATÓRIO DE INTELIGÊNCIA"

Neste domingo, 20 de setembro de 2026, vem ao público o pronunciamento de vários jornalistas que já fizeram história em lutas pela democracia brasileira. Como já se publicou aqui mesmo neste Blog, ontem e hoje, o que se disse na revista Oeste e no Estadão, segue abaixo mais um artigo vindo do sul, especificamente do Percival Puggina. O tema, claro, é o mesmo: 15 de setembro, o lamaçal em que se encontra o Supremo Tribunal Federal.

Boa leitura.

 

DA "MINUTA DO GOLPE" AO "RELATÓRIO DE INTELIGÊNCIA"

Percival Puggina
20 setembro de 2026
Aprendi há muitos anos de um padre amigo esta singela expressão de lúcida sabedoria: “Ninguém dá o que não tem”. No mais deplorável momento da história do Poder Judiciário brasileiro, a sessão plenária do STF no dia 15 de setembro, a ministra Cármen Lúcia me fez lembrar dessa frase. Examinar a própria consciência e pedir perdão é conduta virtuosa que só pode ser servida por quem tem. Parabéns à ministra.
Era um desses momentos que se definem pela expressão “Salve-se quem puder”, nos quais as pessoas costumam dar o melhor de si com vistas à própria salvação. Os olhos de milhões de brasileiros acompanhavam horrorizados o mal, em sua feiura, manipular instrumentos jurídicos com extrema belicosidade. Queriam impedir o julgamento de um membro da Corte.
Olhos nas telinhas da liberdade de expressão, parecia-me rever uma versão compacta, dos julgamentos do 8 de janeiro. Na condição de um entre 200 milhões de ditadorezinhos, assisti aquelas sessões com a impressão de que os ministros, de algum modo, eram parte interessada nas deliberações. Lembro que cheguei a usar a expressão “amicus curiae” para caracterizar o tom dado aos votos que emitiam. Para mim, era uma impressão que fazia sentido, pois os ministros precisavam proteger a própria narrativa sobre “o golpe”, numa unanimidade que resistiu por longos meses até surgirem as primeiras fissuras.
Enfim, na tarde do dia 15, com a contribuição dos ministros indicados pelo atual governo Lula, para completar a terrível cena como eu a percebi, eis que ressurge, sob nova forma, um fantasma de janeiro de 2023. O papel então decisivo e supostamente devastador desempenhado pela tal Minuta do Golpe – uma minuta vadia de um decreto qualquer – agora é atribuído a um incerto Relatório de Inteligência cuja serventia, ao que se diz, vem negada no próprio documento.
Foi essa percepção que me levou a pensar sobre o que cada um tem para dar nos momentos decisivos. Ver que uns, são dados a estratagemas, outros a proteger seus mitos, outros a manipular o poder de que dispõem, outros a manter atitude corajosa, outros a fugir da cena, outros a mergulhar na própria consciência e pedir desculpas à nação. Que tais consciências, em algum momento, sirvam para a anistia dos presos do dia 8 de janeiro e para o triunfo da justiça como valor moral e como instituição para servir à sociedade.
Sirvam estes dias para que cada um, no ofertório dos votos em 4 de outubro, ofereça ao Brasil e seu povo o que de melhor esteve ao nosso alcance para a tarefa de separar o joio do trigo na democrática lavoura da representação popular.

TOGAS SUJAS

Ontem foi a vez da revista Oeste nos brindar com uma edição mostrando que o STF agoniza. Hoje, neste domingo 20 de setembro, foi a vez do Estadão. A começar pelo seu Editorial transcrito a seguir e algumas matérias como esta do jurista Wálter Maierovitch que afirmou ao Estadão que os ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin fizeram uma "defesa pela impunidade" de Alexandre de Moraes durante a sessão que discutiu as suspeitas envolvendo o ministro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Ouça-o e em seguida leia o referido Editorial.




O MERGULHO DO STF NO DESCRÉDITO

Um tribunal que se move por cálculo político ou blindagem de seus ministros não tem como ser respeitado como o árbitro da vida institucional do País. E isso é terrível para a democracia
É triste constatar, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) não consegue mais ser visto como imparcial. É preciso dizer isso sem rodeios, sem a costumeira reverência que outrora um STF composto por ministros de genuína reputação ilibada merecia. O tribunal concebido para ser o árbitro confiável da vida institucional do País tornou-se um degenerado agente político. E o resultado disso é que pouca gente neste país ainda acredita em um STF isento, o que é terrível para a democracia brasileira.
Cada decisão exarada pelos senhores ministros é prontamente lida com desconfiança, sob suspeita de que, de forma sub-reptícia ou mesmo escancarada, atende a algum objetivo político, e não como um exercício imparcial da jurisdição constitucional. De uns anos para cá, tudo o que emana do STF passou a ser percebido por amplos setores da sociedade civil como produto de cálculo político e/ou peça de defesa de interesses particulares de Suas Excelências, ainda que mal traduzidos em linguagem técnica, por vezes claudicante.
Francamente. Um STF que se deixa rebaixar ao rés do chão da maneira degradante a que todos assistimos durante a sessão plenária do dia 15 passado corrompe o patrimônio simbólico do decoro e da imparcialidade, húmus de sua legitimidade.
Não se trata de um juízo apressado deste jornal, tampouco de uma única percepção a partir do espetáculo encenado naquela sessão, que livrou o ministro Alexandre de Moraes, ao menos por ora, de ser investigado pela suposta consultoria que teria prestado ao vigarista Daniel Vorcaro. A desconfiança resulta de um acúmulo de exorbitâncias de alguns ministros do STF ao longo dos últimos anos, que, a pretexto de terem “salvado a democracia”, arvoraram-se em semideuses e, como tais, vandalizaram a Constituição que deveriam defender. É revoltante a sem-cerimônia com que alguns se confundem com partes interessadas em disputas político-eleitorais e entregam-se a festins nababescos nos quais o mais venial dos pecados parece ser o conflito de interesses.
Como se nada disso bastasse, membros do Judiciário – e também do Ministério Público – entendem-se como casta a ser regiamente remunerada ao arrepio do teto fixado na Lei Maior. Às raias da sem-vergonhice, defendem essa condição desabridamente, em afronta aos contribuintes e aos mais comezinhos princípios republicanos. A profusão de penduricalhos que o STF nem finge mais conter aí está para afastar ainda mais a Justiça dos jurisdicionados. Mais uma vez: esse quadro de alheamento ao País é terrível para a democracia, sobretudo no Brasil, que só agora experimenta seu período mais longevo de garantia das liberdades cívicas sob a égide da Constituição de 1988.
Sem um Judiciário respeitável e sem um STF confiável como esteio de sobriedade e segurança jurídica e institucional, não há democracia que resista e, portanto, não há progresso do País. Os ministros da Corte certamente sabem disso, mas precisam deixar de ser cínicos e corporativistas, data maxima venia, e colocar seus interesses particulares à margem de suas atuações como servidores públicos da cúpula do Estado brasileiro.
A imparcialidade é um comando legal, mas é também a força moral do Judiciário. É o que o legitima aos olhos dos cidadãos, pois juízes não são autoridades eleitas. Isso só reforça a imperiosa necessidade de os juízes, sobretudo os ministros do STF, colocarem a mão na consciência e serem ainda mais sóbrios e criteriosos em suas relações e negócios particulares do que quaisquer outros servidores públicos. Hoje, porém, como sequer ansiar por isso? O que estarão pensando os juízes de primeiro grau de todas as comarcas do Brasil ao olharem para o alto e verem ministros do STF se comportando muitas vezes como se empresários, lobistas ou políticos fossem? Que exemplo têm dado Suas Excelências para continuarem sendo dignas do pronome de tratamento?
A ruína da imparcialidade deste STF que aí está é irreversível. Mas a solução virá, goste a Corte ou não. E virá de cima para baixo. Do povo para as instituições que lhe servem. Os representantes eleitos, mais cedo ou mais tarde, implementarão uma reforma do Judiciário e aprovarão o impeachment dos ministros indignos da toga – caso o STF não os afaste por conta própria – para que o Brasil tenha uma corte constitucional digna do nome.

19 setembro 2026

O STF AGONIZA

A imagem da capa da revista Oeste deste fim de semana não mentiu. Ao contrário, trouxe a realidade do STF. Sem pingos nos i's, suas matérias resumidas na Carta ao Leitor ilustram o que ocorreu na terça-feira, 15 de setembro de 2026, uma data triste para a história do Brasil

Boa leitura.

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Carta ao Leitor

"Nós não temos mais Constituição no Brasil. Temos 11 constituições ambulantes.” A frase, dita em 2023 pelo ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados Aldo Rebelo, é o retrato do Brasil destes tempos estranhos.

Nesta terça-feira, 15, contudo, o Supremo Tribunal Federal conseguiu superar-se. E produziu o momento mais vergonhoso da história do Judiciário. Teoricamente, a sessão extraordinária decidiria se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro, estrela do maior escândalo financeiro do país. Na prática, nenhum ministro citou pelo menos uma das 52 mensagens enviadas a Moraes pelo banqueiro.

Algumas delas estão no artigo de Adalberto Piotto: 

“Acha que segunda já tenho de estar fora?”, pergunta Vorcaro, calculando o melhor momento de fugir do país. 

“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? (…) Ele não consegue segurar isso? (…) E com Andrei, dá pra segurar?”, insiste o banqueiro, referindo-se — com a intimidade de quem pode chamá-los pelo prenome — ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreve poucas horas antes de ser preso, tentando embarcar para Malta, de onde seguiria para Dubai.

“Estamos juntos sempre você sabe que tenho gratidão da minha vida a você toda a minha família. funcionários parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo”, confessa Vorcaro.

Durante as quase oito horas de sessão, também não foi mencionado o contrato de R$ 131 milhões — revisado por Moraes —, que o dono do Master firmara com o escritório de advocacia da mulher do ministro. Nem a “experiência completa para convidados ultra vips” da qual o casal Moraes participou em um hotel de luxo de Campos do Jordão — com diárias que começam em R$ 4 mil. Muito menos as seis ligações de Moraes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para saber sobre o andamento da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Esses e outros episódios da relação de evidente amizade entre Vorcaro e Moraes podem ser relembrados na linha do tempo que complementa a reportagem de Uiliam Grizafis.

Como não se declarou impedido de julgar a si mesmo, Moraes jurou que o banqueiro passou o tempo todo falando sozinho. Como Augusto Nunes descreve na reportagem de capa desta edição, tal justificativa dada poderia ter saído de um livro de realismo fantástico. A mesma defesa havia sido apresentada pelo ministro horas antes do início da sessão, num documento de 44 páginas e mais de 50 erros de português detalhados no texto de Eliziário Goulart Rocha.

A tropa de choque de Moraes, formada por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, trabalhou em sintonia. Cristyan Costa, que acompanhou a sessão de dentro do plenário, conta que alguns deles riam enquanto Mendonça falava. Outros sequer olhavam para o relator do Master. No intervalo, Gilmar e Dino gargalhavam no cafezinho em meio à confusão.

O tempo de fala de cada ministro dá uma ideia de quem dominou a sessão. Tirando Fachin, que comandava o circo e discorreu por 1h20, Dino, Gilmar, Moraes, Zanin e Dias Toffoli falaram, juntos, 2 horas e 48 minutos. Somadas, as falas de Cármen Lúcia, André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques não chegaram a 1 hora.

“Em resumo”, escreve Eugênio Esber, “na sessão acompanhada pelo mundo inteiro e especialmente por investidores que só colocam seu dinheiro em países com segurança jurídica e compliance, o Brasil e o STF enviaram um alerta vermelho. Aqui, a corrupção é tolerada”. 

Alexandre Garcia completa a cena ao citar Fausto, de Goethe. Vorcaro, no papel de Mefistófeles, percebia quem era venal, quem estava à venda, e os comprava com mulheres, viagens, uísque e charutos, ou dinheiro, “tudo a granel”. Os vendidos “perdem, então, a alma; não perdem o caráter que não têm”, conclui.

Edson Fachin observava tudo com expressão abobalhada. O presidente do STF permitiu ataques pessoais, foi desrespeitado em vários momentos e deixou de exercer a autoridade esperada do cargo. Esber observa que, fazendo jus ao apelido interno de “Frachin”, o ministro deixou a sessão chegar tropegamente ao fim sem decidir nada e sem sequer apresentar uma previsão de quando o fará.

O pedido de vista de Flávio Dino, feito depois de já ter votado, foi a pá de cal no mínimo de credibilidade que restava à Corte. Ao não agir no dia 15 de setembro, o STF acaba de transferir a decisão para todos os brasileiros. E ela precisa ser tomada no próximo 4 de outubro.  

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

Inteligência Artificial Superinteligente - Riscos e recompensas

A urgência do debate sobre a ASI (Inteligência Artificial Superinteligente) decorre da rápida evolução de conquistas e expectativas. Os principais modelos de IA tornaram-se cada vez mais proficientes na resolução de problemas complexos em um número crescente de áreas. Alguns demonstram capacidades sobre-humanas em campos como a guerra cibernética. Especialistas de destaque especulam sobre uma iminente "explosão de inteligência" — o momento em que a IA se torna capaz de aprimorar a si mesma de forma rápida e contínua. O amplamente discutido cenário "AI 2027", elaborado pela organização sem fins lucrativos AI Futures Project, que descreve passo a passo como uma "decolagem rápida" (*fast takeoff*) poderia ocorrer — levanta a hipótese de que a ASI poderia surgir ainda nesta década. Da mesma forma, Dario Amodei, cofundador da Anthropic, escreveu que "a humanidade está prestes a receber um poder quase inimaginável".

Caso a ASI realmente se concretize, os impactos poderão ser históricos. Os otimistas em relação à ASI preveem que ela poderia solucionar as mudanças climáticas ao viabilizar novas tecnologias de captura de carbono ou curar o câncer ao desvendar os mistérios da biologia humana. Avanços na propulsão possibilitados pela ASI poderiam permitir viagens ao espaço profundo e a colonização de outros planetas.

No entanto, essa imensa promessa econômica e científica coexiste com perturbações potencialmente gigantescas. A ASI poderia fortalecer agentes mal-intencionados ao viabilizar ataques cibernéticos devastadores e armas biológicas; inaugurar a automação da tomada de decisões militares, tornando as guerras mais rápidas e menos controláveis; ou possibilitar a criação de armas revolucionárias, como sensores capazes de tornar os oceanos efetivamente transparentes. Ela poderia transformar o equilíbrio de poder ao conferir uma vantagem militar enorme aos países que alcançassem a ASI primeiro. Não há garantia de que essas vantagens caberiam a sociedades democráticas. Amodei alerta que a ASI poderia provocar um "pesadelo totalitário" ao viabilizar uma vigilância abrangente e automatizar a repressão. O risco mais grave é que a superinteligência possa escravizar ou exterminar a humanidade. A ASI poderia ajudar a raça humana a se autodestruir, auxiliando niilistas a desencadear novas pandemias ou a provocar "guerras-relâmpago" automatizadas que resultariam em uma catástrofe nuclear. Ou talvez uma tecnologia mais inteligente que seus criadores acabe por vê-los como ameaças a serem eliminadas ou recursos a serem explorados. Alguns executivos da área de IA estimam essa "probabilidade de catástrofe" em até 25% ou até mesmo 50%.

Nenhuma dessas previsões é certa. Alguns especialistas duvidam que a ASI seja tecnicamente possível ou argumentam que impedimentos materiais — como limitações no poder computacional (ou "capacidade de computação") e na eletricidade — poderiam retardar sua chegada. Outros questionam se a ASI gerará vantagens duradouras para o pioneiro, acreditando que seus benefícios econômicos e militares, assim como os da maioria das tecnologias anteriores, se materializarão de forma gradual e desigual. Observadores de destaque também discordam sobre a possibilidade de alinhamento — a questão de saber se a ASI pode ser controlada e orientada para apoiar o florescimento humano. Yann LeCun, que atuou como cientista-chefe de IA na Meta, estima a probabilidade de catástrofe em apenas 0,01%. Essas incertezas não podem ser resolvidas com as informações disponíveis atualmente, mas pesam muito nos debates sobre como os Estados Unidos devem proceder.