Leve sempre isto em conta: as ferramentas mudam, mas o desejo humano de pensar, criar e compreender o mundo por conta própria é permanente e muito mais difícil de automatizar. Os registros históricos, desde os tempos paleolíticos, há cerca de 2,5 milhões de anos, atestam isto.
Por que imaginar que a IA seria tão diferente de outras tecnologias às quais o cérebro humano já se adaptou? "A ferramenta, por si só, não é boa nem ruim."
Como ocorre com qualquer tecnologia, os efeitos da IA dependem do modo como ela é usada. Ainda assim, as preocupações são sérias o suficiente para levar usuários a repensar a forma como utilizam essas ferramentas, antes que seja tarde.
Estudos sugerem que pessoas que dependem excessivamente de IA podem enfrentar prejuízos em áreas como criatividade, capacidade de atenção, pensamento crítico e memória.
Muitos pesquisadores levantam a preocupação de que o uso da IA esteja reduzindo o esforço mental necessário para desenvolver pensamento crítico, e de que, como sociedade, possamos passar a produzir menos ideias originais. Ainda assim, essa linha de pesquisa é muito recente, e as respostas continuam incertas. Devemos nos preocupar?
Há cerca de 20 anos, surgiu a ideia de que a dependência excessiva da tecnologia poderia provocar uma espécie de "demência digital", marcada pela deterioração da memória de curto prazo e de outros processos cognitivos. Em outras palavras, o cérebro tende a perder habilidade em tarefas que delegamos a ferramentas externas. E a IA pode ser o instrumento de terceirização cognitiva mais poderoso já criado.
"O que a IA está fazendo é nos oferecer, pela primeira vez, uma maneira fácil de trocar o processo pelo resultado", afirmam estudiosos do tema. O texto pode ficar melhor escrito. A apresentação pode parecer mais sofisticada. Mas o esforço mental, a dificuldade, as tentativas frustradas e o momento em que algo finalmente faz sentido são justamente o que o cérebro precisa.
Então, como usar IA sem deixar de exercitar o cérebro?
a) Não passem a confiar mais na IA do que no seu próprio julgamento, Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, chamam esse fenômeno de "rendição cognitiva".
b) Um estudo da Microsoft Research concluiu que o risco aumenta justamente em áreas nas quais a pessoa tem menos familiaridade. "Se o usuário não tem conhecimento suficiente para avaliar se a resposta é boa ou não, aí está o perigo".
c) A solução começa antes mesmo de abrir o aplicativo. Se você não confia automaticamente na resposta de um desconhecido, também não deveria confiar cegamente na IA. São justamente esses temas que exigem julgamento próprio.
d) Uma alternativa é formular antes uma visão inicial sobre o assunto e usar a IA para testar ou confrontar esse raciocínio, em vez de simplesmente aceitar a resposta da ferramenta. Assim, a IA funciona como um instrumento para colocar o pensamento à prova, e não para substituí-lo.
e) Um estudo de 2024 ainda não publicado, por exemplo, sugere que resolver pequenos problemas antes de usar um chatbot de IA pode melhorar o aprendizado obtido com a ferramenta.
f) Ao recorrer à IA para buscar informações importantes, especialistas recomendam desacelerar e se envolver mais ativamente com o conteúdo. Fazer anotações, de preferência à mão, embora digitá-las também ajuda, pode contribuir para a retenção.
g) O que importa, segundo pesquisadores, é que o cérebro faça suas próprias conexões, recorrendo a experiências, memórias e conhecimentos pessoais para produzir algo singular. É aí que acontece o exercício mental. Só depois disso a IA deveria entrar em cena, para desenvolver, questionar ou aprimorar as ideias já formuladas.
E, como já se disse no primeiro parágrafo, essa não é a primeira vez que a humanidade passa por uma transformação tecnológica desse tipo. Os pesquisadores estudiosos desses assunto reiteram:
"O cérebro humano sempre se adaptou à tecnologia. Nós nos adaptamos o tempo todo. Essa é uma das forças da nossa espécie".
"Perdemos a capacidade de correr maratonas porque existem carros? Não. Isso apenas passou a ser uma atividade que as pessoas escolhem praticar."
PS.: Com uso de IA, o pesquisador brasileiro, Marcelo de Oliveria Souza, da Universidade Estadual Norte Fluminense, criou modelo de viagem rápida a Marte que chamou atenção internacional. Depois e anos realizando cálculos manualmente, o físico passou a utilizar sistemas de IA para simular cenários orbitais e validade combinações matemáticas que seriam praticamente inviáveis de analisar de forma tradicional. Em vez e viagens que podem durar de dois a três anos, como ocorre nos modelos convencionais, o estudo aponta trajetos entre 153 e 226 dias - cerca de sete meses entre ida e volta, incluindo permanência temporária em Marte.



