
P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?
R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
Aqui está uma síntese dos pontos principais da visão de Bauman
1. Comunidade vs. Rede
· Comunidade: É algo a que se pertence. Exige compromisso, diálogo e, muitas vezes, convívio com o diferente e o difícil. Na comunidade, não se escolhe tudo; há uma partilha de destino.
· Rede: É algo que "te pertence". O utilizador sente-se no controle. Nas redes sociais, as relações tornam-se mercadorias que podemos ligar ou desligar conforme a nossa conveniência.
2. A facilidade de "Eliminar" (A falta de competências sociais)
Para Bauman, a grande armadilha é a ilusão de companhia sem as exigências da amizade. Nas redes, se alguém nos contradiz ou nos aborrece, basta um clique para "eliminar" ou "bloquear".
Isso impede o desenvolvimento de competências sociais reais, que só se aprendem no "olho no olho", onde somos forçados a negociar, a ouvir o contraditório e a coexistir com quem pensa diferente.
3. A Zona de Conforto e o Narcisismo
Ele argumenta que a maioria das pessoas não usa as redes para expandir horizontes, mas para se fechar numa "zona de conforto".
Buscamos apenas o eco das nossas próprias vozes e o reflexo do nosso próprio rosto (o fenômeno das "bolhas").
· A rede serve para aliviar o medo da solidão e do abandono, mas de forma superficial, criando uma sensação de conexão que não preenche o vazio existencial.
4. A Troca de Liberdade por Segurança
Bauman toca num dilema clássico: para ter a "segurança" de nunca estar sozinho e de ter o controlo sobre quem nos rodeia, abdicamos da nossa liberdade de sermos surpreendidos pelo outro. As redes sociais oferecem um substituto barato para a verdadeira vida social, que é inerentemente conflituosa e imprevisível.Conclusão da Síntese: Para Bauman, as redes sociais são uma armadilha porque substituem as relações profundas por conexões frágeis. Elas prometem proximidade, mas entregam isolamento; prometem diálogo, mas facilitam o monólogo. No final, o indivíduo sente-se mais conectado do que nunca, mas continua profundamente só no mundo real.
PS.: (1) O texto acima foi objeto de discussão, neste ano, em sala de aula de Sociologia do 1o. ano do Ensino Médio do Colégio Marista de Brasília. Anteriormente, foi também questão abordada no PAS/UnB.


















