Translate

25 junho 2026

TERREMOTOS NA VENEZUELA: ENTENDA A CAUSA

Os terremotos registrados na Venezuela estão relacionados à intensa atividade tectônica da região, onde ocorre o encontro entre a Placa Sul-Americana e a Placa do Caribe. Essas duas placas se movimentam constantemente uma em relação à outra, acumulando tensões ao longo de falhas geológicas que atravessam o norte do país.

Quando essa energia acumulada é liberada de forma repentina, ocorrem os terremotos. Por isso, a Venezuela faz parte de uma área com histórico de atividade sísmica frequente, especialmente em sua faixa costeira e regiões próximas ao Caribe.

 

O evento mais recente chamou atenção pela sua forte magnitude. As estimativas variaram entre diferentes instituições sismológicas: o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou magnitudes entre 7,2 e 7,5, enquanto pesquisadores do instituto geofísico de Potsdam, na Alemanha, estimaram valores entre 7,3 e 7,4. Pequenas diferenças nas medições são comuns devido aos métodos e modelos utilizados por cada órgão.

​Pânico na capital e danos estruturais

​Em Caracas, o tremor prolongado fez prédios oscilarem, forçando milhares de moradores e funcionários de escritórios a evacuarem as estruturas às pressas. Relatos de testemunhas coletados por agências de notícias indicam que o abalo causou pânico generalizado:
​Rachaduras profundas surgiram em fachadas e paredes internas de edifícios residenciais. Janelas e objetos de vidro se estilhaçaram em diversos apartamentos da capital.

​Imagens em redes sociais começam a mostrar desabamentos parciais e danos severos em estruturas mais antigas próximas ao epicentro.

A criptografia que promete esconder dados até da nuvem exige poder computacional além do que os data centers atuais podem oferecer

Toda vez que você envia um prompt ao ChatGPT, suas palavras são transformadas em um código indecifrável antes de atravessar fibras ópticas e cabos submarinos rumo aos data centers da OpenAI no estado do Texas, nos Estados Unidos – ou em algum outro lugar do mundo. É assim que boa parte da informação do planeta trafega: criptografada. Mas proteger dados em trânsito não resolve tudo. Em algum momento, o servidor precisa decifrar a informação para processá-la — e é justamente aí que surgem as brechas.

Em 1995, o pioneiro da segurança digital Gene Spafford resumiu o problema dizendo que “criptografia sem um sistema íntegro equivale a investir em um carro-forte para levar dinheiro de alguém que mora em uma caixa de papelão para outra pessoa fazendo negócios em um banco de parque”. Ou seja, proteger os dados no caminho não adianta se emissor e destinatário continuam vulneráveis.

Nos últimos quinze anos, passamos a terceirizar cada vez mais funções à nuvem, do streaming ao armazenamento de arquivos e e-mails. A banda larga permite delegar nossas demandas computacionais a esses servidores remotos, mas isso exige enviar muitos dados para empresas com termos e condições de uso intermináveis.

O número do cartão de crédito é apenas a ponta de um iceberg de informações sensíveis que não devem estar na nuvem. Imagine, por exemplo, uma IA da área médica que analisa o prontuário dos pacientes e sugere diagnósticos: uma seguradora de saúde poderia usar esses dados para investigar o histórico de quem tenta contratar o plano — e, assim, negar clientes com doenças crônicas.

Por isso, um dos grandes objetivos da criptografia contemporânea é desenvolver um tipo de cifra que permita a um data center processar dados cifrados “às cegas” e dar o resultado correto sem precisar bisbilhotar o conteúdo. O nome dessa ideia é criptografia completamente homomórfica (fully homomorphic encryption, ou FHE, na sigla em inglês). Ela já é possível na prática — mas, no estágio atual de desenvolvimento, ainda é uma opção milhares a milhões de vezes mais lenta do que processar a mesma informação abertamente.

Transformar a FHE em realidade envolve dois desafios. O primeiro é que pressionar grandes empresas por avanços em segurança digital não depende apenas de legislação ou de agências reguladoras. Porém, é necessário também um grau de conscientização coletivo que ainda não existe. Quando alguém aponta uma arma para você, o perigo está na sua frente. Diferente de falar para as pessoas que empresas coletam dados da população e os usam para manipular eleições. Isso ainda soa abstrato. 


O segundo é que fazer a FHE funcionar está longe de ser trivial. Do ponto de vista do computador, lidar com uma cifra completamente homomórfica equivale a resolver um cubo mágico de olhos vendados. Para entender como é possível uma máquina processar dados sem enxergá-los (e até que ponto é possível tornar esse processo mais rápido), precisamos voltar algumas casas na história da criptografia — e começar na época em que o homomorfismo ainda era entendido como uma propriedade indesejável pelos criptógrafos.

A brecha que virou solução

A criptografia moderna se apoia em operações matemáticas simples de executar, mas extremamente difíceis de desfazer — como fatorar números gigantescos gerados pela multiplicação de dois números primos (lembrar do algoritmo denominado Crivo de Eratóstenes para encontrar todos os números primos até um limite específico). Esse é o princípio por trás do RSA, um dos métodos de criptografia mais influentes, criado em 1977. A sigla representa os sobrenomes dos criptógrafos que inventaram a técnica: Rivest, Shamir e Adleman.

Os números gigantescos da RSA são inquebráveis na prática. Mas a estrutura matemática dessa cifra é frágil de outra forma: ela permite manipular os criptogramas sem que percam seu significado no processo, ou seja, a equivalência matemática com o conteúdo que deu origem a eles. 

Uma metáfora ajuda a entender. Imagine duas palavras. Uma é “pão”, a outra é “manteiga”. Em RSA, cada uma é representada por um criptograma gigante e difícil de fatorar. Porém, se um servidor multiplicar “pão” e “manteiga”, ele vai obter um criptograma que significa “pão com manteiga”. O servidor não consegue ler o conteúdo, mas a operação continua fazendo sentido. Isso é o homomorfismo: o comportamento das multiplicações realizadas em texto claro (ou plaintext, em inglês) se mantém ao ser mapeado para o conjunto de dados cifrados (ciphertext).

No caso da RSA, apenas uma operação matemática é homomórfica: a multiplicação. Por isso, a RSA é classificada como uma cifra parcialmente homomórfica. Para computar às cegas, porém, era preciso ir além e construir uma cifra completamente homomórfica — que, além das multiplicações, permitisse também fazer somas sem mudar o conteúdo. 

Nas décadas seguintes à invenção da RSA, pesquisadores tentaram ampliar esse princípio para permitir múltiplas operações matemáticas sobre dados cifrados. Em 2005, o criptógrafo israelense Dan Boneh chegou perto: criou uma cifra homomórfica para as duas operações, mas que permitia apenas uma multiplicação, embora suportasse infinitas adições. O avanço decisivo veio em 2009, quando o americano Craig Gentry, então funcionário da IBM, publicou sua tese de doutorado orientada pelo próprio Boneh, apresentando a primeira cifra completamente homomórfica funcional. 

Os limites físicos e teóricos da FHE

O problema é que as cifras homomórficas acumulam “ruído” matemático a cada operação realizada. Depois de muitas contas, esse ruído cresce tanto que pode corromper o resultado. É como a poluição por mercúrio nos oceanos: cada peixe pequeno tem um pouco desse elemento tóxico no organismo. Mas quando um tubarão come todos eles, acaba concentrando uma quantidade muito maior do metal (processo chamado de bioacumulação).

O que Gentry fez foi encontrar um jeito de limpar o ruído a cada ciclo de processamento de dados, técnica que batizou de bootstrapping. O nome vem da expressão inglesa “puxar a si mesmo pelas alças das próprias botas”, usada para descrever um procedimento recursivo. 

Neste caso, o criptograma ruidoso é processado pelas próprias técnicas de FHE para produzir um criptograma equivalente, mas com ruído menor. “Isso abre portas para um número ilimitado de operações. Esse foi o grande problema que Gentry resolveu há pouco mais de 15 anos”, diz Diego Aranha, professor brasileiro que trabalha na Universidade de Aarhus, na Dinamarca. O bootstrapping é, ao mesmo tempo, o segredo da FHE e sua limitação: limpar o ruído das cifras é uma tarefa pesada, e é a razão desse tipo de criptografia demorar tanto. 

Foi apenas em meados de 2016 que as coisas começaram a parecer “razoavelmente praticáveis”, nas palavras de Hilder Pereira, professor da Unicamp. O GPS é um exemplo ilustrativo do tipo de coisa que a FHE ainda não consegue fazer. O aplicativo precisa recalcular a rota em segundos quando você entra em uma rua errada, e realizar essa computação com uma cifra homomórfica poderia levar dias. 

Ao problema computacional se soma um problema econômico. O mundo vive uma crise de disponibilidade de chips de silício causada pela construção acelerada de data centers para inteligência artificial (IA). Grande parte do poder computacional previsto para ser instalado em 2026 já está comprometida com as big techs. 

“A parte infeliz é que, do ponto de vista de hardware, acelerar a FHE ou usá-la para delegação segura de computação compete pelo mesmo hardware que a IA”, diz Aranha. “Empresas de internet que operam infraestrutura de nuvem — Amazon, Google, Microsoft — têm seu ganha-pão exatamente nisso: rodar seu código nos servidores delas. Do ponto de vista do cliente, seria muito melhor ter uma garantia matemática do que assinar um papel em que a Amazon promete não bisbilhotar.”

Uma possibilidade é reaproveitar gerações antigas de GPUs (microprocessadores) descartadas pela corrida da IA. O hardware que deixa de ser competitivo para treinar modelos de fronteira pode ajudar a acelerar pesquisas em FHE. Há também startups produzindo chips dedicados à FHE — por exemplo, a KU Leuven, um dos grupos de hardware para criptografia mais respeitados do mundo, onde Pereira fez pós-doutorado, tem um projeto financiado pela União Europeia nessa direção.

Da teoria à indústria

Toda cifra é construída sobre a premissa de que um problema matemático é difícil de resolver. A RSA, por exemplo, aposta que fatorar o produto de dois números primos enormes é computacionalmente inviável. Contudo, essa dificuldade não é necessariamente eterna. “Talvez alguém encontre um novo algoritmo de fatoração muito mais eficiente e rápido, que reduza o tempo de fatoração”, explica Hilder Pereira. Um de seus objetivos no projeto apoiado pela FAPESP é justamente investigar se é possível construir FHE com menos pressupostos matemáticos. Apoiar a segurança num conjunto menor de suposições reduz a vulnerabilidade da cifra caso alguma delas se revele falsa.

Para a academia, essa é a diferença entre um prédio com fundações construídas para o grau exato de estabilidade do solo e um prédio com precauções extras, que permanece em pé mesmo que o solo se mostre menos firme do que se pensava. Os acadêmicos estão sempre se antecipando, como na criptografia pós-quântica. “Estamos nos preparando para que, se um dia existir o computador quântico, essas novas cifras pós-quânticas já sejam seguras”, explica Pereira.

A FHE é um campo de estudo bem estabelecido no mundo acadêmico. Do lado da indústria, o movimento é mais fragmentado, mas já perceptível. A startup francesa Zama, por exemplo, trabalha em aplicações de machine learning e blockchain com FHE, tentando ocultar não apenas a identidade dos usuários, mas também os próprios fluxos financeiros.

A Zama quer cifrar essas transações com FHE, de modo que nem mesmo quem opera a infraestrutura saiba quem mandou quanto para quem. Para Nigel Smart, professor da KU Leuven que também ocupa o cargo de chief academic officer da empresa, esse é um momento equivalente à passagem do protocolo HTTP para o HTTPS na internet, em 1994 — uma camada de privacidade que reconfigura o que é possível fazer online. Foi o ‘S’ de ‘seguro’ que permitiu o uso de cartões de crédito na internet.

Smart, porém, faz questão de desfazer uma ilusão comum sobre as possibilidades da FHE. Esse tipo de cifra não é “uma poeira mágica que se polvilha sobre sistemas existentes para torná-los privados. Elas devem ser vistas como tecnologias que habilitam novos modelos de negócio e novas oportunidades que antes simplesmente não existiam”, diz ele. Um exemplo concreto é o combate à lavagem de dinheiro: bancos precisam cruzar dados de clientes para identificar fluxos suspeitos, mas não querem — e muitas vezes não podem, legalmente — entregar esses dados a concorrentes. Com FHE, a colaboração se torna possível.

Já existem outras aplicações de cifras homomórficas saindo do papel. O Microsoft Edge emprega FHE para verificar se senhas foram comprometidas em vazamentos sem revelar as senhas ao servidor. Craig Gentry, criador da primeira FHE viável, hoje trabalha na startup Cornami, com foco no gargalo mais relevante para a IA: tornar a multiplicação de matrizes mais rápida sob cifra homomórfica, já que essa operação é importantíssima para Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs, do inglês) como o GPT.

Não existe milagre: é pouco provável que a FHE se torne uma tecnologia amplamente disseminada ainda nas próximas décadas. Mas chegar mais perto desse grau platônico de segurança não é apenas uma questão de avanço científico-tecnológico: é algo que exige uma mudança de mentalidade que também está distante. “As pessoas não estão acostumadas a se preocupar com isso”, resume Pereira. À medida que a vida contemporânea passa a depender cada vez mais de computação delegada, é urgente que o trabalho de pesquisadores como Pereira se traduza em aplicações práticas.

24 junho 2026

O Brasil é um regime socialista de autoritarismo crescente

 

Gramsci deve estar sorrindo no inferno. O teórico comunista estava certo. A forma mais eficiente de impor o socialismo não é na ponta do fuzil, como fizeram os bolcheviques, mas pela conquista da cultura, em que as pessoas vão abandonando valores tradicionais e adotando o pensamento esquerdista sem nem perceber. Esse é o ponto que poucos entenderam. O socialismo do século XXI abandonou a estatização das fábricas e adotou a captura das instituições. Não precisa mais confiscar a propriedade quando consegue esvaziá-la por dentro. Na verdade, o confisco continua existindo, só que de forma implícita. Se um empresário não pode mais administrar a própria empresa como julga melhor, ele já não a possui de verdade. O título de propriedade permanece no papel. O conteúdo do direito é que foi expropriado. É o mesmo projeto de sempre, com outra roupagem. E é exatamente essa mutação que Gramsci anteviu. A estratégia foi amplamente adotada pela esquerda brasileira, pela ocupação de espaços no meio artístico, nas universidades, na imprensa, nas religiões organizadas e em outras instituições, dentro e fora do Estado, inclusive os próprios órgãos de Justiça. O resultado começa a aparecer como uma avalanche. Vai muito além da censura e da perseguição à direita dos últimos anos. Chega ao ponto de condenações que transformam a vida privada em campo de batalha ideológico. Algumas decisões judiciais recentes expõem o nível de arbitrariedade alcançado: 1. A Ortobom, fabricante de colchões, foi condenada a pagar R$ 300 mil por danos morais coletivos porque todas as suas 24 chefias eram ocupadas por homens. Em nenhum momento o processo provou um único caso concreto de discriminação contra uma mulher. O TST entendeu que a ausência de mulheres, por si só, inverte o ônus da prova: cabia à empresa demonstrar que seus critérios de promoção eram neutros. Na prática, a estatística virou acusação. Vale lembrar que NÃO existe lei alguma que obrigue uma empresa a contratar mulheres, e que, pela Constituição, ninguém pode ser punido sem que a lei defina o crime. Mas, como a ideologia socialista EXIGE igualdade de resultados, e não igualdade de oportunidades, a empresa foi condenada. 2. Um casal do interior de São Paulo foi condenado por educar as filhas em casa, o chamado homeschooling, mesmo demonstrando que as meninas têm nível cultural muito superior à média brasileira. Detalhe que diz tudo: o próprio Ministério Público pediu a absolvição, e o juiz condenou assim mesmo, contrariando entendimentos do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo, do STJ e do Supremo. O magistrado se incomodou até com o fato de uma das filhas não gostar de funk e sertanejo, o que ele leu como "discriminação e preconceito". Numa lógica que trata o Estado como dono das crianças, é primordial que elas sejam educadas pelo time de professores militantes, que transforma os inocentes em soldados da revolução. 3. Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, foi condenada por omissão diante das agressões que mataram o próprio filho. Depois de o júri desclassificar o homicídio para a forma culposa, a juíza concedeu o perdão judicial. O motivo: a sociedade teria agido de forma "misógina" e "patriarcal" ao cobrar dela, como mãe, a proteção da criança. Na prática, o gênero da ré valeu mais do que a vida de um menino de quatro anos. São três exemplos entre uma série crescente de decisões, todas movidas pelo mesmo princípio. A lei deixou de ser igual para todos e passou a depender do grupo a que pertence o réu. Empresa privada, pune-se. Pais cristãos que educam, pune-se. Mãe omissa diante da morte do filho, perdoa-se. É a revogação da Constituição e das leis em nome da ideologia. E nada disso acontece num vácuo. Esses casos se somam a um quadro de censura e perseguição política em que a própria oposição ao regime foi criminalizada. O principal líder da direita está preso e inelegível, condenado num verdadeiro show trial. Milhares de pessoas foram censuradas, e centenas, presas. Há brasileiros no exílio por razões políticas. Não está satisfeito com a corrupção endêmica, com o crime organizado tomando conta do país? Fique quieto, ou seja preso. Essa é a realidade desde 2019. Onde o adversário do regime perde a liberdade, não há oposição livre. E onde não há oposição livre, a eleição vira fachada, assim como a própria "democracia". A outra ferramenta de tomada do patrimônio é a tributação. Aqui o confisco é literal, e ganhou tração inédita no último governo. Em pouco mais de três anos, foram dezenas de aumentos de impostos, num ritmo que chegou a quase um novo tributo a cada 27 dias. A carga tributária bateu o recorde histórico, superando 32% do PIB, e a arrecadação federal alcançou R$ 2,9 trilhões em 2025, a maior da série. A partir de 2026, voltam a ser tributados os dividendos, rompendo uma isenção que vigorava desde 1995. E vêm aí os efeitos da reforma tributária, que elevarão sensivelmente a carga sobre o setor de serviços, justamente o grande motor da economia. E mesmo arrecadando como nunca, o governo gasta ainda mais. A conta não fecha pela receita, fecha pela dívida. O endividamento público explodiu: a dívida bruta saltou para perto de 79% do PIB, uma alta de quase sete pontos em três anos, e caminha para mais de 83% já em 2026. Só de juros, o Estado torrou cerca de R$ 1 trilhão num único ano, quase 8% de tudo o que o país produz. É esse rio de gasto público e crédito subsidiado que mantém a economia aparentemente aquecida. Na prática, o regime financia a própria popularidade no cartão de crédito, empurrando a fatura para frente. E essa fatura tem nome: inflação, que corrói silenciosamente o poder de compra do trabalhador, e juros nas alturas, que sufocam quem quer produzir. Sufoca-se a livre iniciativa por dentro, sangrando quem produz, enquanto o Estado se endivida para sustentar a ilusão de prosperidade. A marca central do socialismo é a negação dos direitos individuais fundamentais. A liberdade de expressão, de culto, o direito à propriedade, à livre iniciativa. É a guerra contra a livre iniciativa em todas as suas matizes, supostamente em favor do coletivo, mas, na prática, concentrando poder nas mãos daqueles que se apresentam como líderes das massas "oprimidas". E o socialismo não confisca apenas a liberdade econômica. Confisca também a liberdade política. Em qualquer sociedade minimamente saudável, cada um desses casos bastaria para provocar uma revolta de grandes proporções. Mas numa sociedade em que boa parte da população já foi inoculada com o vírus mental socialista, a oposição não é suficiente para mudar a trajetória rumo à consolidação de um autoritarismo sem precedentes.


Por Leandro Ruschel - 24/06/2026.

22 junho 2026

Colômbia adere à guinada à direita na América Latina

Abelardo de la Espriella

No domingo, os colombianos se uniram à revolta da América Latina contra o socialismo, elegendo o empresário Abelardo de la Espriella, de 47 anos, no segundo turno das eleições presidenciais, contra o senador Iván Cepeda, de 63 anos, do partido do presidente Gustavo Petro.

A margem de 245.624 votos de de la Espriella foi muito menor do que a projetada pelas pesquisas, com áreas do país controladas pelo crime organizado votando fortemente em Cepeda. Petro imediatamente levantou dúvidas sobre o resultado, citando irregularidades não especificadas. As autoridades eleitorais irão analisar os resultados como devem, embora veículos de mídia independentes já tenham declarado a vitória de de la Espriella.

Isso eleva para sete o número de nações latino-americanas que, desde novembro de 2023, derrubaram governos socialistas. Argentina, Equador, Bolívia, Honduras e Chile também têm agora presidentes conservadores e defensores do livre mercado. O Peru seguiu o mesmo caminho este mês, embora a vitória de Keiko Fujimori ainda não seja oficial. Panamá e Costa Rica reelegeram governos conservadores.

Oportunidades econômicas e segurança pública dominaram essas eleições, mas a ameaça às instituições democráticas representada por extremistas de esquerda também teve grande peso. O trágico exemplo da Venezuela tem sido uma poderosa demonstração do fracasso do socialismo, especialmente para os colombianos, país vizinho.

Recém-chegado à política, Espriella conduziu uma campanha anti-establishment contra a corrupção, a violência do narcotráfico e a falta de mobilidade econômica. Seus detratores tentaram minar sua credibilidade citando seu trabalho como advogado de defesa de acusados ​​de tráfico de drogas, incluindo Alex Saab, que posteriormente atuou como advogado de Nicolás Maduro, da Venezuela.

Mas ele prometeu reduzir o tamanho do governo em 40%, cortar impostos e restaurar a liberdade econômica para os produtores de combustíveis fósseis. Ele também prometeu romper com a política de Petro de apaziguamento de gangues criminosas, jurando construir megaprisões para tirar seus recrutas das ruas.

Cepeda ficou magoado com o fraco desempenho econômico de Gustavo Petro, as políticas verdes que aumentaram os preços da energia e o crescente déficit fiscal. A produção de coca disparou durante os anos de Petro e grupos armados ilegais prosperaram. Cepeda defendeu um papel maior do Estado na economia e mais concessões aos grupos guerrilheiros sob a bandeira da “paz total”.

Ele também prometeu convocar uma assembleia constituinte para reescrever a constituição, como Petro havia tentado fazer. Isso levou até mesmo os céticos em relação ao Espriella a se juntarem ao seu lado.

Espriella morou em Miami por mais de uma década, possui passaporte americano e é favorável à cooperação com os EUA. Isso reverterá a postura anti-EUA e pró-Cuba de Petro.

O partido de Petro tem maioria no Congresso e Espriella herdará finanças públicas deploráveis. Mas será difícil encontrar um destino pior do que o dePetro, e Espriella se beneficiará da rejeição eleitoral ao fracasso socialista.

17 junho 2026

O hacker enviado pela Anthropic para tranquilizar o governo americano sobre a segurança da IA

    Nas últimas semanas, Nicholas Carlini, o pesquisador e hacker enviado pela Anthropic para tranquilizar o governo americano sobre a segurança da IA foi a manchete principal em diversos meios de comunicação.

    Isso ocorreu recentemente após o pesquisador ter soado o alarme sobre os perigos da IA ​​— e agora faz parte de uma equipe que defende a liberação dos modelos mais recentes.

    Autoridades do governo Trump passaram os últimos dias preocupadas com o poder do software de IA de última geração da Anthropic, que pode causar estragos na segurança cibernética global. Para um grupo de 700 pesquisadores de segurança cibernética, essa constatação alarmante ocorreu em março.

Carlini presenting his findings at a cybersecurity
event in March.
 [UN]PROMPTED
    Foi quando Nicholas Carlini, mostrou como se tornou fácil usar os novos modelos para invadir sistemas. O jovem de 35 anos, alto e magro, é um hacker respeitado, considerado o "cético profissional" do setor em relação às alegações de segurança cibernética da IA. Mas, recentemente, ele mudou de ideia.

    No início daquele mês, apenas algumas semanas depois de ter acesso ao Mythos, Carlini fez um alerta contundente a uma plateia lotada de especialistas em cibersegurança no suntuoso edifício em estilo Beaux-Arts que outrora abrigara o Hibernia Bank de São Francisco.

Carlini presenting his findings at a cybersecurity event in March. 
[UN]PROMPTED

    Primeiro, ele mostrou como havia usado a IA da Anthropic para encontrar e explorar uma falha crítica em um software de publicação na web chamado Ghost. Em seguida, demonstrou outra no sistema operacional Linux — um dos softwares mais testados em combate, presente em bilhões de dispositivos.

    Carlini nunca havia encontrado uma falha no Linux, nem no Ghost. Agora, ele havia descoberto várias. O que ele estava vendo representava uma nova ordem mundial para a cibersegurança. O equilíbrio que existiu entre atacantes e defensores nas últimas duas décadas “parece estar chegando ao fim”, disse ele. “Para mim, está bem claro que esses modelos atuais são pesquisadores de vulnerabilidades melhores do que eu.”

    Dois dias após sua apresentação, ele enviou uma mensagem aos seus colegas da Anthropic. “Acho que ainda não devemos lançar o Mythos”, escreveu ele.

    Assim começou o "Bugmageddon", uma constatação entre profissionais de segurança e uma comunidade de hackers como Carlini de que encontrar bugs e escrever softwares para explorá-los se tornou perigosamente fácil com a IA.

    Na semana passada, a Anthropic lançou uma atualização para o Mythos, chamada Mythos 5, e um produto chamado Fable 5, uma versão do Mythos com medidas de segurança aprimoradas. Agora, era a vez da Casa Branca soar o alarme. Na sexta-feira, o governo proibiu governos, empresas e indivíduos estrangeiros de usar o Fable 5 e o Mythos 5. A Anthropic bloqueou o acesso de todos para cumprir a proibição.

    De repente, Carlini — o cético que se tornou crente e que havia soado o alarme — se viu trabalhando para acalmar os ânimos do governo. A Anthropic o enviou à capital do país para explicar as medidas de segurança, como parte de uma equipe que tentava convencer a Casa Branca de que, embora não houvesse segurança garantida em IA, era melhor para o mundo lançar Fable do que mantê-lo em segredo.

    O episódio também agrava uma briga de meses entre o governo e a Anthropic. O Chefe do Executivo, Dario Amodei, e o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, entraram em confronto no início deste ano sobre as tentativas da empresa de controlar a utilização dos seus produtos pelos militares, pressionando o Pentágono a parar de usar os seus modelos e desencadeando vários processos judiciais. Os dois lados entraram em conflito anteriormente sobre diferentes abordagens à política de IA, a decisão da administração de exportar chips de IA para a China e os laços da Antrópica com organizações sem fins lucrativos que são grandes doadores para causas liberais.

    Nos últimos dias, funcionários da administração e executivos e líderes técnicos da Anthropic, incluindo Carlini, realizaram horas de reuniões e ligações para discutir uma solução potencial. Alguns funcionários do governo disseram que uma resolução deveria incluir um reconhecimento por parte da Anthropic de que o lançamento do Fable e a comunicação com a Casa Branca poderiam ter sido melhorados.

    Apanhados no meio estão outras empresas e consumidores que tentam descobrir como a tecnologia os afetará. As empresas estão se perguntando como irão testar e instalar a grande quantidade de patches que estão sendo lançados, antes que os hackers os explorem. Mythos já encontrou mais de 10.000 bugs.


PS.: A ciência da computação corre nas veias de Carlini. Seu pai era programador e sua mãe também trabalhava no setor de tecnologia. Ele cresceu no Vale do Silício programando computadores e era obcecado por criptografia. Um trabalho que escreveu no ensino médio tinha o título: “Criptoanálise Diferencial de Redes de Substituição Simples”.

Na Universidade da Califórnia, Berkeley, ele publicou artigos com o professor de ciência da computação David Wagner, mostrando diversas maneiras pelas quais sistemas de inteligência artificial poderiam ser mal utilizados. Eles enganaram sistemas de reconhecimento de imagem, fazendo-os confundir fotos de gatos com guacamole, e encontraram novas maneiras de inserir comandos inaudíveis da Alexa em trechos de cinco segundos de música clássica.

15 junho 2026

Ditadura disfarçada de democracia

    O Poder Judiciário brasileiro foi colocado à margem e com este, o Brasil, do rol das nações livres e justas do planeta, ou seja, um país marginal, que não bastasse tudo o que ocorre em termos políticos e de grassa corrupção agora, também, declarado um país que já não tinha ordem, não tendo mais lei.

    Agora, oficialmente, o ministro do STF Alexandre de Moraes foi declarado, e isto por uma das cortes constitucionais mais tradicionais do mundo, em uma terra, Itália, que é berço das escolas e instituições de direito ocidentais, pelo Direito Romano, um pária jurisdicional.

 

A Corte declarou que o magistrado faltou e violou o princípio do juiz natural e do devido processo legal, por ele se colocar no papel de vítima, acusador e juiz, tendo o poder estatal de punir de forma calibrada e vingativa.

    Ao anular o processo, a Corte italiana atesta que a Corte Suprema brasileira está a serviço de uma ditadura disfarçada de democracia, a serviço de um regime tirânico, e que seus juízes não podem mais julgar, porque lhes faltam todos os atributos basilares da magistratura, sendo o primeiro deles, a imparcialidade.

    Portanto, os ministros do STF que participaram e votaram pela condenação de Zambelli, assim como dos réus no processo do 8/1/2023, condenando Jair Bolsonaro, oficiais das Forças Armadas, da Polícia Rodoviária Federal, Alexandre Ramagem e Felipe Martins, por exemplo, devem ser todos denunciados na Corte Internacional de Direitos Humanos e no Tribunal Penal Internacional como criminosos, arguindo a nulidade de todos os processos que passaram por suas mãos parciais e interessadas.



    

12 junho 2026

Justiça italiana diz que STF foi parcial sobre Zambelli

Por Karina Michelin

A Suprema Corte de Cassação da Itália acaba de impor uma das mais duras derrotas internacionais já sofridas pela Justiça brasileira.

Em uma sentença histórica, a mais alta corte criminal do país anulou a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli e determinou sua libertação imediata, concluindo que havia elementos concretos capazes de comprometer a imparcialidade do processo que levou à sua condenação no Brasil.

Os magistrados italianos concluíram que Alexandre de Moraes acumulou funções incompatíveis com as garantias fundamentais exigidas em um Estado de Direito. A decisão descreve uma situação em que o mesmo magistrado aparece simultaneamente como pessoa atingida pelos fatos investigados, responsável por medidas cautelares, participante das decisões de mérito, emissor de ordens de prisão e agente envolvido em etapas posteriores da execução processual.

Para a Corte italiana, essa sobreposição de funções é suficiente para gerar dúvidas objetivamente justificadas sobre a imparcialidade do julgador.

Os juízes afirmam que houve uma “macroscópica violação do direito de defesa” e que a ausência das garantias de imparcialidade comprometeu o núcleo essencial do devido processo legal. Em outro trecho contundente, a Corte conclui que ocorreu a violação de uma garantia constitucional fundamental e irrenunciável, tornando inviável a entrega de Carla Zambelli ao Estado brasileiro.

A Corte não analisou a inocência ou a culpa da ex-deputada nem revisou o mérito das acusações. O que decidiu foi algo igualmente grave - o processo apresentado pelo Brasil não oferecia garantias suficientes para justificar uma extradição internacional.

O significado histórico da decisão é inequívoco. Uma Suprema Corte europeia rejeitou formalmente uma extradição ao Brasil por entender que garantias fundamentais de imparcialidade judicial foram comprometidas.

A discussão sobre os limites do poder exercido por Alexandre de Moraes acaba de deixar de ser um debate exclusivamente brasileiro. Agora, tornou-se também uma questão examinada por uma das mais importantes cortes de justiça da Europa, graças ao trabalho dos advogados italianos Pieremilio Sammarco e Angelo Alessandro Sammarco.

09 junho 2026

Território Livre de Princesa



    Em um dia como hoje, em 9 de junho de 1930, foi assinado o decreto que formalizou a criação do Território Livre de Princesa, durante a chamada Revolta de Princesa. Liderado pelo coronel José Pereira, o movimento rompeu com a autoridade do governo paraibano de João Pessoa e declarou o município de Princesa como território autônomo, subordinado diretamente ao governo federal.
    O episódio ocorreu em meio às intensas disputas políticas da República Velha e tornou-se um dos acontecimentos mais marcantes da história da Paraíba no século XX. O território manteve administração própria por alguns meses, até ser reincorporado ao estado em agosto de 1930.

    O ato intensificou o conflito armado entre as milícias coronelistas locais e o governo estadual de João Pessoa.
O Contexto do Levante:
  • O estopim: O presidente (governador) da Paraíba, João Pessoa, havia iniciado uma política de desarmamento dos coronéis que faziam oposição ao seu governo, o que desagradou a elite agrária da região.
  • Liderança: O movimento rebelde foi liderado pelo coronel José Pereira Lima, que estabeleceu leis, bandeira e exército próprio no município.
  • Divisão política: A rebelião se insere na crise da República Velha e no acirramento das tensões entre a Aliança Liberal (oposição) e o governo federal de Washington Luís.
  • Desfecho: O "Território Livre de Princesa" manteve-se autônomo e em guerra civil com o Estado até agosto de 1930, quando as forças governistas intervieram para retomar a região. Pouco depois, em 26 de julho de 1930, o assassinato de João Pessoa no Recife serviria como catalisador final para a Revolução de 1930.


ANTECEDENTES


    O episódio de Princesa teve sua origem na posse de João Pessoa na presidência da Paraíba, em 22 de outubro de 1928. Pretendendo reformar a estrutura político-administrativa e reerguer as finanças do estado, o novo presidente decidiu deslocar para o litoral a hegemonia do comércio estadual. Até então, na ausência de qualquer barreira tributária, as cidades do interior comerciavam diretamente com os estados vizinhos, especialmente Pernambuco.


    Indiferente ao poder dos “coronéis” — chefes políticos do sertão — e de suas famílias, João Pessoa deu sequência a seu projeto implantando um rigoroso sistema de arrecadação tributária que distinguia entre as mercadorias importadas pelo litoral, através do porto de Cabedelo, e aquelas que entravam na Paraíba pelas fronteiras terrestres. Essas medidas, consubstanciadas na Lei nº 673, de 17 de novembro de 1928, tornaram praticamente impossível o comércio sertanejo com os estados vizinhos.


    Em Recife, cujo comércio foi atingido pela nova política do governo paraibano, os irmãos Pessoa de Queirós, primos de João Pessoa, passaram a liderar uma ferrenha campanha contra essa “guerra tributária” através de seu periódico, o Jornal do Comércio. Por sua vez, A União, jornal oficial da Paraíba, defendia a administração e o presidente do estado dos ataques e denúncias que lhes dirigia o jornal pernambucano.


    A discussão travada através da imprensa aguçou o descontentamento dos chefes políticos do interior, que vinham sendo sistematicamente desprestigiados pelo governo. De fato, João Pessoa chegara a ordenar a apreensão de armas, “do caboclo ao coronel”, além de promulgar leis que restringiam o domínio até então incontestável destes últimos.


    As atitudes inovadoras de João Pessoa valeram-lhe também atritos com velhos correligionários do Partido Republicano da Paraíba (PRP), ligados por laços de fidelidade partidária a seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente da República (1919-1922) e líder supremo da política paraibana.


    Entre os chefes políticos atingidos por João Pessoa destacava-se José Pereira, considerado um dos maiores “coronéis” do Nordeste e o mais poderoso da Paraíba. Membro da comissão executiva do PRP, seu prestígio transcendia os limites municipais, alcançando as esferas estadual e federal. Seu reduto político era o município de Princesa, a 428km da capital, perto da fronteira com Pernambuco. Essas condições faziam com que a economia de Princesa fosse totalmente voltada para o estado vizinho.


A ALIANÇA LIBERAL


    Com a aproximação das eleições presidenciais de 1930, as unidades da Federação passaram a ser consultadas a respeito de seu apoio à chapa Júlio Prestes-Vital Soares, apresentada pelo presidente da República Washington Luís. Em 29 de julho de 1929, após reunir o diretório do PRP, do qual era presidente, João Pessoa declarou que decidira não apoiar a chapa oficial. Essa atitude ficou conhecida como o “Nego”, termo que mais tarde seria incorporado à bandeira do estado.


    A resistência de João Pessoa à política do Catete resultou na escolha de seu nome para participar da chapa da Aliança Liberal ao lado de Getúlio Vargas. Sua candidatura, lançada em 30 de julho de 1929, unificou por algum tempo o PRP, desgastado por brigas internas. Mais que isso, com exceção de uma facção do partido oposicionista, o Republicano Conservador (PRC) da Paraíba, liderada por Heráclito Cavalcanti, toda a Paraíba se solidarizou com seu presidente.


    Por outro lado, a adesão do estado à Aliança Liberal resultou numa série de medidas de represália do governo central. Essa hostilidade reforçou internamente os ganhos políticos de João Pessoa, que empreendeu uma excursão por vários municípios a fim de obter o apoio eleitoral dos “coronéis” que vinha combatendo desde o início de seu mandato. João Pessoa visitou assim os municípios de Princesa e de Teixeira, este último dominado pela família Dantas, em cujo apoio político nem mesmo Epitácio Pessoa confiava.


O ROMPIMENTO DE JOSÉ PEREIRA


    Paralelamente às eleições presidenciais, em 1º de março de 1930 seriam realizadas eleições para a Câmara dos Deputados e para a renovação de 1/3 do Senado. Ao ser preparada a chapa situacionista paraibana, João Pessoa defendeu o princípio da não reeleição e propôs o revezamento dos candidatos. Reunindo-se a comissão executiva do PRP, a idéia da renovação total da bancada não conseguiu unanimidade de votos. Dos cinco membros efetivos da comissão, um — João Espínola — não compareceu, dois — Júlio Lira e Inácio Evaristo — votaram pela reeleição da bancada, e os dois restantes — o próprio João Pessoa e Demócrito de Almeida — votaram pela substituição. Valendo-se então da prerrogativa do “voto de qualidade”, João Pessoa desempatou o resultado em favor da proposta de revezamento, mantendo no entanto a candidatura do já deputado Carlos Pessoa, seu primo.


    A atitude de João Pessoa visava sobretudo a afastar João Suassuna, ex-presidente do estado, deputado federal em duas legislaturas e aliado de famílias poderosas do interior como a dos Pereira Lima e a dos Dantas. Após ter comunicado a seus correligionários, às vésperas das eleições, a chapa oficial composta à revelia da comissão executiva do PRP, João Pessoa recebeu um telegrama de José Pereira, datado de 24 de fevereiro, anunciando seu rompimento com o governo estadual. José Pereira deixava as fileiras do PRP para ingressar no PRC, que defendia a candidatura Júlio Prestes-Vital Soares. Acompanhavam-no vários líderes da política paraibana, como João Suassuna, Oscar Soares, Pedro Firmino, o padre Manuel Otaviano, Inácio Evaristo, Cícero Parente, Nilo Feitosa, Duarte Dantas e outros. Dias depois, a imprensa oposicionista divulgou as modificações sofridas pela chapa do PRC, que passou a incluir alguns dos dissidentes do PRP. O dia 24 de fevereiro de 1930, data da cisão no PRP, é considerado o início do movimento rebelde de Princesa.


A LUTA ARMADA


    Alguns dias após o rompimento de José Pereira, os fatos se revestiram de uma feição francamente guerreira. Para evitar que as eleições em Princesa viessem alterar seus planos, João Pessoa ordenou o esvaziamento da máquina burocrático-administrativa do município, deixando-o “fora da lei”. Enviou também para lá contingentes da polícia estadual, sob o pretexto de garantir o pleito. Por outro lado, desde o rompimento, José Pereira vinha armando sua gente, tendo conseguido reunir em pouco tempo cerca de dois mil homens entre agregados seus e de outros chefes políticos. A polícia estadual contava com apenas 850 homens.


    Logo após as eleições de 1º de março, iniciou-se no sertão paraibano a luta armada. Os rebeldes contavam com o auxílio em dinheiro e em munições dos Pessoa de Queirós, de Pernambuco, e ainda com o assentimento do governo federal, que, interessado na derrota política de João Pessoa, impedia Minas e Rio Grande do Sul de lhe enviar reforços. O objetivo dos sublevados era aliás forçar o governo federal a intervir na Paraíba, o que precipitaria a queda de João Pessoa. Por sua vez, João Pessoa defendia vigorosamente a autonomia estadual, tentando demonstrar que o levante de Princesa não significava o caos político em sua administração e que a situação estava sob controle.


    Em 3 de maio de 1930, o presidente da República Washington Luís sugeriu ao Congresso que este lhe apresentasse um pedido formal de intervenção na Paraíba. A sugestão não foi aceita por ferir a Constituição. Para que a intervenção fosse legal, seria necessário que o próprio João Pessoa a solicitasse. Por essa época, os combates limitavam-se a pequenos avanços e recuos das partes conflitantes. A polícia estadual não tinha condições de tomar Princesa, e nenhuma vitória significativa era alcançada. Por sua vez, os revoltosos encontravam-se também em dificuldade, pois se esgotavam os recursos de que dispunham para se alimentar e se manter em armas.


    No início de junho, em vista da relutância do Congresso na questão da intervenção, Washington Luís enviou à Paraíba cinco batalhões de caçadores do Exército e um vaso de guerra. Enquanto isso, os Pessoa de Queirós e outros líderes da revolta arquitetavam um plano para forçar a intervenção: propunham proclamar Princesa “território livre” através da promulgação de um “decreto” assinado por José Pereira. Seria ainda editado um jornal e composto um livro. O “decreto” foi assinado no dia 9 de junho de 1930 por uma “junta governativa” integrada por José Pereira, José Frazão Medeiros Lima e Manuel Rodrigues Sinhô. Seu texto, lido na Câmara no dia 13, causou grande polêmica, abrindo a primeira discussão formal sobre o chamado “caso da Paraíba”. Em 21 de junho, saiu o primeiro eúnico número do Jornal de Princesa.


    Diante desses acontecimentos, um avião do governo do estado sobrevoou Princesa e lançou um boletim intimando os revoltosos a se renderem sob pena de o município ser bombardeado. Em resposta, José Pereira enviou um telegrama a João Pessoa ameaçando “invadir o estado e implantar o terror”. Na verdade, nenhuma das partes teria condições de cumprir tais ameaças.


O ASSASSINATO DE JOÃO PESSOA


    Em 26 de julho de 1930, ocorreu o fato culminante de todo esse processo político: João Pessoa foi assassinado em Recife por João Duarte Dantas. Aliado de José Pereira e de João Suassuna, João Dantas alimentara durante muito tempo um intenso rancor contra João Pessoa, acusando-o de cometer arbitrariedades contra membros de sua família. Os dois haviam mesmo travado um debate através da imprensa, dando vazão a seu ódio pessoal. A divulgação pelo jornal A União de documentos íntimos apreendidos pela polícia paraibana no apartamento de João Dantas precipitou os acontecimentos.


    Com a morte de João Pessoa, o governo federal resolveu pôr termo à Revolta de Princesa. O general Lavenère Wanderley, comandante da 7ª Região Militar, sediada em Recife, foi incumbido de restabelecer a paz na Paraíba. Seu primeiro ato foi telegrafar a José Pereira informando-o de que seria necessário que “as forças do Exército ocupassem Princesa”.


    Em 11 de agosto de 1930, um contingente do Exército com seiscentos homens comandados por João Facó chegou a Princesa. Ao mesmo tempo, vários batalhões passaram a guarnecer as fronteiras do estado. Diante de providências tão concretas, José Pereira entregou ao Exército os armamentos de sua gente. No dia 19 de agosto, o general Lavenère Wanderley participou a Álvaro de Carvalho, sucessor de João Pessoa no governo do estado, a pacificação da Paraíba. Os “propósitos apaziguadores” do governo federal foram entretanto criticados pelos aliancistas, que denunciaram a permanência de tropas no estado como uma forma de intervenção.


    Por outro lado, causando indignação e pesar em todo o país, o assassinato de João Pessoa constituiu um fator decisivo para a articulação do movimento revolucionário que eclodiria em 3 de outubro de 1930.

08 junho 2026

Os 37 anos do Massacre da Praça Celestial

 


    Nos dias 3 e 4 de junho de 1989, milhares de Chineses reunidos na Praça da Paz Celestial protestavam contra a corrupção, a repressão política, a inflação e o desemprego sob o regime do Partido Comunista Chinês, o PCC.

    O movimento estudantil foi influenciado pelas reformas promovidas por Mikhail Gorbachev na União Soviética a partir de 1986. A perestroika introduziu medidas de liberalização econômica, enquanto a glasnost ampliou a abertura política e as liberdades civis, especialmente a liberdade de expressão. Essas transformações repercutiram em diversos países do bloco comunista, influenciando movimentos em nações como Polônia de Hungria.

    O líder soviético chegou à China em plena onda de protestos estudantis que, desde 15 de abril, tomava diariamente as ruas de Pequim e já contava com o apoio de diversos setores da população, incluindotrabalhadores. As manifestações eram marcadas por atos pacíficos e reivindicavam reformas políticas, maior liberdade de expressão e ampliação das liberdades civis.

    Em 17 de maio, os protestos forçaram o governo chinês a cancelar parte da agenda da visita de Gorbachev, gerando constrangimento para o regime. Dois dias depois, o secretário geral do PCC, Zhao Ziyang, tentou dissuadir os estudantes de continuarem as manifestações, mas fracassou. Em 20 de maio, o Primeiro Ministro Li Peng convoca o exército para limpar a praça e soldados e tanques são mandados às ruas. Os manifestantes erguem barricadas e bloquearam o avanço dos soldados e tanques.

    Na noite de 3 de junho, tanques e veículos blindados transportando soldados armados avançam sobre Pequim e abriram fogo contra a multidão. O confronto deixou mortos entre civis e soldados. Por volta da meia-noite de 4 de junho, as tropas chegaram à Praça Tiananmen, então ocupada por cerca de 5 mil estudantes. Novos confrontos ocorreram durante a madrugada.

    Após as negociações, os manifestantes concordaram em deixar a praça, sob ameaça de serem fuzilados caso permanecessem. A violência, porém, continuou pela cidade nos dias seguintes, com tropas utilizando armas de fogo para dispersar os últimos focos de resistência.

    O exército chinês disparou indiscriminadamente contra uma multidão que ocupava a praça e ruas próximas. As estimativas das mortes variam entre 400 a 800 até 2600 mortos além de cerca de 7000 feridos.

    O mundo inteiro viu. Um símbolo de coragem contra um Estado que prefere esmagar seus cidadãos a ouví-los. Esse homem sumiu. O massacre, até hoje, é negado. “Foi só manutenção da ordem”, dizem.


Foto simbólica: homem bloqueia passagem de tanques 
nos arredores da Praça Celestial 
(Tiananmen) de Pequim, em 1989.

    Não é exagero dizer: a estrada que começa com a criminalização da fala termina com tanques nas ruas. A liberdade de expressão não é um luxo ocidental. É uma trincheira contra a tirania.

    Lutar pela segurança jurídica e institucional é fundamental, principalmente neste momento em que o Brasil deixou e ser o país do futuro para se tornar mundialmente conhecido por estar dando os mesmo passos da ditadura já mencionada.  É nossa obrigação, é nosso dever lutar por dignidade, por um país que garanta a cada um, no pilar da Separação dos Poderes, o respeito às individualidades, às opiniões e aos direitos fundamentais.