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19 setembro 2026

O STF AGONIZA

A imagem da capa da revista Oeste deste fim de semana não mentiu. Ao contrário, trouxe a realidade do STF. Sem pingos nos i's, suas matérias resumidas na Carta ao Leitor ilustram o que ocorreu na terça-feira, 15 de setembro de 2026, uma data triste para a história do Brasil

Boa leitura.

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Carta ao Leitor

"Nós não temos mais Constituição no Brasil. Temos 11 constituições ambulantes.” A frase, dita em 2023 pelo ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados Aldo Rebelo, é o retrato do Brasil destes tempos estranhos.

Nesta terça-feira, 15, contudo, o Supremo Tribunal Federal conseguiu superar-se. E produziu o momento mais vergonhoso da história do Judiciário. Teoricamente, a sessão extraordinária decidiria se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro, estrela do maior escândalo financeiro do país. Na prática, nenhum ministro citou pelo menos uma das 52 mensagens enviadas a Moraes pelo banqueiro.

Algumas delas estão no artigo de Adalberto Piotto

“Acha que segunda já tenho de estar fora?”, pergunta Vorcaro, calculando o melhor momento de fugir do país. 

“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? (…) Ele não consegue segurar isso? (…) E com Andrei, dá pra segurar?”, insiste o banqueiro, referindo-se — com a intimidade de quem pode chamá-los pelo prenome — ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreve poucas horas antes de ser preso, tentando embarcar para Malta, de onde seguiria para Dubai.

“Estamos juntos sempre você sabe que tenho gratidão da minha vida a você toda a minha família. funcionários parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo”, confessa Vorcaro.

Durante as quase oito horas de sessão, também não foi mencionado o contrato de R$ 131 milhões — revisado por Moraes —, que o dono do Master firmara com o escritório de advocacia da mulher do ministro. Nem a “experiência completa para convidados ultra vips” da qual o casal Moraes participou em um hotel de luxo de Campos do Jordão — com diárias que começam em R$ 4 mil. Muito menos as seis ligações de Moraes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para saber sobre o andamento da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Esses e outros episódios da relação de evidente amizade entre Vorcaro e Moraes podem ser relembrados na linha do tempo que complementa a reportagem de Uiliam Grizafis.

Como não se declarou impedido de julgar a si mesmo, Moraes jurou que o banqueiro passou o tempo todo falando sozinho. Como Augusto Nunes descreve na reportagem de capa desta edição, tal justificativa dada poderia ter saído de um livro de realismo fantástico. A mesma defesa havia sido apresentada pelo ministro horas antes do início da sessão, num documento de 44 páginas e mais de 50 erros de português detalhados no texto de Eliziário Goulart Rocha.

A tropa de choque de Moraes, formada por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, trabalhou em sintonia. Cristyan Costa, que acompanhou a sessão de dentro do plenário, conta que alguns deles riam enquanto Mendonça falava. Outros sequer olhavam para o relator do Master. No intervalo, Gilmar e Dino gargalhavam no cafezinho em meio à confusão.

O tempo de fala de cada ministro dá uma ideia de quem dominou a sessão. Tirando Fachin, que comandava o circo e discorreu por 1h20, Dino, Gilmar, Moraes, Zanin e Dias Toffoli falaram, juntos, 2 horas e 48 minutos. Somadas, as falas de Cármen Lúcia, André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques não chegaram a 1 hora.

Em resumo”, escreve Eugênio Esber, “na sessão acompanhada pelo mundo inteiro e especialmente por investidores que só colocam seu dinheiro em países com segurança jurídica e compliance, o Brasil e o STF enviaram um alerta vermelho. Aqui, a corrupção é tolerada”. 

Alexandre Garcia completa a cena ao citar Fausto, de Goethe. Vorcaro, no papel de Mefistófeles, percebia quem era venal, quem estava à venda, e os comprava com mulheres, viagens, uísque e charutos, ou dinheiro, “tudo a granel”. Os vendidos “perdem, então, a alma; não perdem o caráter que não têm”, conclui.

Edson Fachin observava tudo com expressão abobalhada. O presidente do STF permitiu ataques pessoais, foi desrespeitado em vários momentos e deixou de exercer a autoridade esperada do cargo. Esber observa que, fazendo jus ao apelido interno de “Frachin”, o ministro deixou a sessão chegar tropegamente ao fim sem decidir nada e sem sequer apresentar uma previsão de quando o fará.

O pedido de vista de Flávio Dino, feito depois de já ter votado, foi a pá de cal no mínimo de credibilidade que restava à Corte. Ao não agir no dia 15 de setembro, o STF acaba de transferir a decisão para todos os brasileiros. E ela precisa ser tomada no próximo 4 de outubro.  

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

Inteligência Artificial Superinteligente - Riscos e recompensas

A urgência do debate sobre a ASI (Inteligência Artificial Superinteligente) decorre da rápida evolução de conquistas e expectativas. Os principais modelos de IA tornaram-se cada vez mais proficientes na resolução de problemas complexos em um número crescente de áreas. Alguns demonstram capacidades sobre-humanas em campos como a guerra cibernética. Especialistas de destaque especulam sobre uma iminente "explosão de inteligência" — o momento em que a IA se torna capaz de aprimorar a si mesma de forma rápida e contínua. O amplamente discutido cenário "AI 2027", elaborado pela organização sem fins lucrativos AI Futures Project, que descreve passo a passo como uma "decolagem rápida" (*fast takeoff*) poderia ocorrer — levanta a hipótese de que a ASI poderia surgir ainda nesta década. Da mesma forma, Dario Amodei, cofundador da Anthropic, escreveu que "a humanidade está prestes a receber um poder quase inimaginável".

Caso a ASI realmente se concretize, os impactos poderão ser históricos. Os otimistas em relação à ASI preveem que ela poderia solucionar as mudanças climáticas ao viabilizar novas tecnologias de captura de carbono ou curar o câncer ao desvendar os mistérios da biologia humana. Avanços na propulsão possibilitados pela ASI poderiam permitir viagens ao espaço profundo e a colonização de outros planetas.

No entanto, essa imensa promessa econômica e científica coexiste com perturbações potencialmente gigantescas. A ASI poderia fortalecer agentes mal-intencionados ao viabilizar ataques cibernéticos devastadores e armas biológicas; inaugurar a automação da tomada de decisões militares, tornando as guerras mais rápidas e menos controláveis; ou possibilitar a criação de armas revolucionárias, como sensores capazes de tornar os oceanos efetivamente transparentes. Ela poderia transformar o equilíbrio de poder ao conferir uma vantagem militar enorme aos países que alcançassem a ASI primeiro. Não há garantia de que essas vantagens caberiam a sociedades democráticas. Amodei alerta que a ASI poderia provocar um "pesadelo totalitário" ao viabilizar uma vigilância abrangente e automatizar a repressão. O risco mais grave é que a superinteligência possa escravizar ou exterminar a humanidade. A ASI poderia ajudar a raça humana a se autodestruir, auxiliando niilistas a desencadear novas pandemias ou a provocar "guerras-relâmpago" automatizadas que resultariam em uma catástrofe nuclear. Ou talvez uma tecnologia mais inteligente que seus criadores acabe por vê-los como ameaças a serem eliminadas ou recursos a serem explorados. Alguns executivos da área de IA estimam essa "probabilidade de catástrofe" em até 25% ou até mesmo 50%.

Nenhuma dessas previsões é certa. Alguns especialistas duvidam que a ASI seja tecnicamente possível ou argumentam que impedimentos materiais — como limitações no poder computacional (ou "capacidade de computação") e na eletricidade — poderiam retardar sua chegada. Outros questionam se a ASI gerará vantagens duradouras para o pioneiro, acreditando que seus benefícios econômicos e militares, assim como os da maioria das tecnologias anteriores, se materializarão de forma gradual e desigual. Observadores de destaque também discordam sobre a possibilidade de alinhamento — a questão de saber se a ASI pode ser controlada e orientada para apoiar o florescimento humano. Yann LeCun, que atuou como cientista-chefe de IA na Meta, estima a probabilidade de catástrofe em apenas 0,01%. Essas incertezas não podem ser resolvidas com as informações disponíveis atualmente, mas pesam muito nos debates sobre como os Estados Unidos devem proceder.



18 setembro 2026

O Ponto de Não Retorno de Cuba. O país está entrando em colapso, mesmo com a sobrevivência do regime

Este artigo de Will Freeman, pesquisador de Estudos Latino-Americanos no Council on Foreign Relations, ilustra bem o percurso de Cuba ao longo de 67 anos da implantação do comunismo na ilha paradisíaca de outrora e as dificuldades para o seu eventual retorno ao regime capitalista.

Para os brasileiros e cidadãos de outros países, o artigo é uma importante lição. E por falar em lição, nunca é tarde se recordar que alguns brasileiros lá estiveram para aprenderem e aqui implantarem, inclusive através de guerrilha, o mesmo regime comunista. Pessoas como Lula, José Dirceu, Ricardo Noblat e outros, lá estiveram com Fidel Castro, conforme ilustram as imagens abaixo. Naquela época fomos salvos na undécima hora.


Vamos ao artigo de Will Freeman. Boa leitura.

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No centro de Havana, uma enorme pilha de escombros cor de areia ocupa um quarteirão inteiro. É tudo o que resta do Instituto Superior de Design Industrial — um edifício imponente que, ao longo de seus 166 anos, abrigou um clube de oficiais espanhóis, forças de ocupação dos EUA após 1898, o Ministério da Saúde de Cuba e, finalmente, a escola de design. Declarado inabitável anos atrás, o prédio sofreu dois desabamentos parciais em 2025. O Estado jamais enviou alguém para repará-lo. Em fevereiro passado, o que restava da estrutura desabou repentinamente, soterrando várias pessoas que ocupavam o local ilegalmente. 

Cuba, em sua trajetória atual, caminha para o mesmo destino da escola de design: o que se avizinha é um colapso acelerado do Estado e da economia. A menos que esse rumo seja revertido em breve, reconstruir a ilha como um lugar estável, próspero e democrático poderá tornar-se praticamente impossível.

Há alguns meses, um lento processo de desintegração não era o que a maioria dos observadores esperava. Devido à ameaça de tarifas — em vigor desde fevereiro contra países que forneciam petróleo a Cuba —, aos alertas do presidente Donald Trump sobre uma possível ação militar e aos relatos de negociações secretas entre Havana e Washington, muitos acreditavam que um acordo de partilha de poder ou uma operação militar nos moldes da realizada na Venezuela eram iminentes.

No final de maio, essa possibilidade parecia menos provável. Nessa altura, segundo o *Miami Herald*, as negociações de bastidores haviam fracassado em meio à oposição de republicanos da Flórida e à rejeição, por parte de Havana, da oferta de Washington: investimentos e petróleo dos EUA em troca da saída do presidente Miguel Díaz-Canel e da privatização da estatal petrolífera cubana. Havana implementou 176 reformas econômicas em junho, ampliando o espaço para o setor privado, mas isso não satisfez Washington. Embora tenha permitido a chegada de quantidades limitadas de combustível e alimentos dos EUA à ilha por meio de distribuidores privados, o governo Trump impôs novas sanções contra empresas estatais e autoridades do regime. Em agosto, o secretário de Estado Marco Rubio disse ao site Axios que o cronograma da política havia mudado, afirmando que seriam necessários "paciência e persistência" e que o regime poderia sobreviver até 2028 ou além.

Há algumas maneiras de interpretar os comentários de Rubio. Uma delas é que o governo está blefando. Ele ameaça manter a atual pressão de sanções extraordinárias, seja para retomar as negociações paralisadas ou para despistar o regime antes de uma operação militar. Outra possibilidade é que, com os Estados Unidos envolvidos com o Irã e ocupados em lidar com a Venezuela, Cuba tenha simplesmente deixado de ser uma prioridade. O governo mantém a ilha em suporte de vida, permitindo que apenas o suficiente de combustível e alimentos dos EUA chegue a empresas privadas para evitar um colapso social, mas, fora isso, não tem nenhum plano novo. A política em relação a Cuba entrou no piloto automático. Uma terceira hipótese é que o governo tenha concluído que esperar a implosão interna do sistema de partido único é o único caminho viável para uma mudança de regime, ainda que seja um processo longo, tortuoso e incerto.

Seja como for, o que não é amplamente compreendido fora de Cuba é como o colapso econômico e estatal — desencadeado pela recusa do regime em realizar reformas e acelerado pelas sanções dos EUA — já está transformando a ilha. O Estado, à exceção de sua capacidade de repressão política, está se enfraquecendo rapidamente. A economia encolhe e se torna mais desigual, deixando uma vasta classe marginalizada, pobre demais para participar de forma significativa do novo setor privado. A coesão social se esgarça e a criminalidade aumenta, enquanto a queda nas taxas de natalidade e a emigração distorcem a demografia cubana.

Todas essas tendências antecedem em anos, se não décadas, a interrupção do fornecimento de petróleo estrangeiro e as sanções mais recentes, mas agora parecem estar se acelerando. O perigo é que, quanto mais tempo durar o impasse, mais elas se consolidarão como as condições básicas para qualquer transição futura, reduzindo as chances de Cuba vir a ser um país bem governado — e aumentando, em contrapartida, a probabilidade de um futuro ainda mais disfuncional e caótico. Se nada mudar em breve, um governo de transição poderá, um dia, encontrar-se na mesma situação impossível dos homens sobre as ruínas do instituto de projetos: tentando construir algo seguro, habitável e duradouro a partir de escombros.

ANARQUIA AUTORITÁRIA

Em Havana, ouve-se uma piada: "Apenas duas coisas funcionam neste país: o aparato de segurança do Estado e os hospitais". A afirmação era generosa demais com os hospitais. Quanto à segurança do Estado, era verdade. A repressão é a única coisa que o Estado cubano ainda faz bem. Isso se deve menos a qualquer abundância aparente de recursos do que à unidade totalmente racional da liderança. A sede da Direção de Instituições Penais, que administra o sistema prisional do país, é tão decadente quanto qualquer edifício no centro de Havana, com papelão tapando janelas quebradas. Mas os generais e chefes de inteligência sabem o quanto perderiam com uma abertura política. Se o governo Trump tentou convencer alguns deles de que existem saídas alternativas, não parece ter tido sucesso. Por isso, eles permanecem unidos, e a capacidade de repressão do Estado permanece intacta.

Embora muitos cubanos estejam surpreendentemente dispostos a criticar o regime nas esquinas ou ao alcance da audição de vizinhos — e quase todos o fazem —, nenhum diz que participaria de um protesto público, um caminho quase certo para a detenção. Para que ninguém se esqueça, viaturas policiais permanecem estacionadas em frente às casas das famílias de líderes de protestos detidos, servindo como lembretes ameaçadores; dada a escassez de combustível, é revelador que o regime ainda consiga encontrar gasolina para deslocá-las.

Em todos os outros aspectos, no entanto, o Estado cubano é mais fraco do que a maioria dos observadores estrangeiros imagina — tanto os de direita, que concebem um Leviatã antiamericano, quanto os de esquerda, que se apegam à ficção de escolas e hospitais funcionais. Uma descrição mais precisa veio de um diplomata europeu em Havana: "anarquia autoritária" — um Estado que ainda consegue sufocar a expressão política, mas que é cada vez menos capaz de prestar serviços públicos ou de impedir a desordem.

Considere a saúde pública, há muito tempo uma das maiores fontes de orgulho do Estado cubano. O acesso às melhores clínicas sempre dependeu de conexões. No entanto, até o início da década de 2010, os indicadores de saúde da população cubana — sustentados por médicos bem treinados e generosos investimentos públicos — figuravam entre os melhores da América Latina. Hoje, a maioria dos hospitais carece de insumos e medicamentos essenciais, obrigando os pacientes a comprar de tudo, desde antibióticos até serras de amputação, no mercado negro. Embora muitos médicos façam o possível dadas as circunstâncias, salários públicos insuficientes para a subsistência tornaram a prática de receber propina cada vez mais comum. Recém-formados em medicina buscam trabalhos em outras áreas no setor privado emergente ou emigram. As consequências são drásticas: a mortalidade infantil, que já foi uma das mais baixas da região, mais do que dobrou desde 2018, e doenças transmitidas por mosquitos, anteriormente controladas pelo Estado, estão de volta. Só a chikungunya infectou até um terço da população em 2025; casos de dengue e Zika também dispararam.

A criminalidade violenta, antes praticamente inexistente na ilha, está em forte ascensão — mais um sinal do recuo desordenado do Estado. Embora a escassez de estatísticas oficiais confiáveis ​​dificulte a confirmação e Cuba ainda registre níveis de violência muito inferiores aos de vários de seus vizinhos, o medo de roubos e agressões alterou a rotina de muitos cubanos. Moradores de Cárdenas, uma pequena cidade a duas horas a leste de Havana, evitam sair às ruas à noite. Grupos de justiceiros estariam por trás de um número crescente de assassinatos de suspeitos de crimes na localidade e na cidade de Guantánamo (não confundir com a base militar americana de mesmo nome, situada nas proximidades).

Em Havana, tornaram-se comuns os relatos de invasões para roubo de painéis solares e caixas-d'água, e há uma percepção generalizada de que a polícia está cada vez mais ausente ou suscetível a subornos. Embora a criminalidade seja, por enquanto, desorganizada — impulsionada pela miséria extrema ou pelo vício no canabinoide sintético barato conhecido como *el químico*, presente em toda a ilha —, ela poderia facilmente evoluir para algo mais estruturado.

Usinas de energia em ruínas, ano letivo reduzido, buracos abertos por moradores de Havana nas vias públicas para desviar a escassa água da rede estatal — seja para revenda ou consumo próprio: o esvaziamento do Estado é visível em toda parte. Os efeitos de longo prazo do embargo são parcialmente responsáveis, assim como a interrupção do fornecimento de petróleo estrangeiro desde fevereiro. Mas ninguém forçou os líderes de Cuba a destinar, até 2024, 37 vezes mais investimentos públicos de capital para o turismo, o setor imobiliário e a hotelaria do que para a saúde e a educação. Essa foi uma aposta visando ao lucro feita por um pequeno grupo de integrantes da elite governante, e ela fracassou. A questão agora é se o Estado conseguirá fazer algo, inclusive manter a ordem pública, após mais alguns anos de colapso.

O CAMINHO MAIS LONGO

A segunda transformação que está remodelando Cuba — e criando dilemas para uma futura transição — é de natureza econômica. A economia está encolhendo: contraiu-se pelo menos 15% desde 2020, à medida que o turismo despencou e investidores estrangeiros fugiram por medo de novas sanções secundárias dos EUA. Em resposta, o regime abriu espaço, ainda que a contragosto, para a iniciativa privada — não porque a maioria das autoridades defenda o livre mercado, mas porque concluíram que alguma atividade de mercado é a única maneira de evitar que a ilha passe fome ou se rebele. Desde a legalização, em 2021, das micro, pequenas e médias empresas (conhecidas em espanhol como MIPYMEs), o número dessas firmas ultrapassou 10.000, respondendo por cerca de 65% de todas as vendas no varejo e 40% do emprego total. As reformas de junho ampliaram formalmente as atividades privadas permitidas, embora as sanções dos EUA, a falta de credibilidade do regime junto a investidores nacionais e estrangeiros e as divisões internas provavelmente limitem sua implementação.

O crescimento do setor privado tem sido positivo e necessário, mantendo pelo menos algumas prateleiras abastecidas em meio à crise e tornando parte da população menos dependente de salários públicos — uma fonte de controle do regime sobre as pessoas. A unificação cambial de 2021 foi outro passo necessário. Apesar de sua implementação desastrosa, que dizimou o poder de compra da maioria dos cubanos, ela pôs fim a um sistema de duas moedas que distorcia preços e mascarava o desempenho insatisfatório das empresas estatais.

No entanto, a maneira específica como os mercados estão se consolidando — com grande parte da população pobre demais para participar de forma significativa, sem Estado de Direito e com o abismo entre vencedores e perdedores aumentando constantemente — é prejudicial para o futuro do país. Vários cubanos dizem sentir como se estivessem vivendo a Rússia dos anos 1990: um período de negócios escusos e concorrência viciada que não levou a uma prosperidade ampla, mas sim ao surgimento de oligarcas e à miséria generalizada. A palavra que mais repetem é *reparto* — uma divisão do país entre poucos. Integrantes do regime estão em posição de obter os maiores ganhos, e os proprietários de MIPYMEs conseguiram colocar um pé na porta. Enquanto isso, jovens, idosos, servidores públicos e muitos afro-cubanos enfrentam dificuldades crescentes apenas para conseguir comer. Muitos cubanos dizem: "Nós percorremos o caminho mais longo e doloroso para o capitalismo latino-americano.”

Cuba está reproduzindo os piores defeitos de certas economias da América Central — diferenças de classe rígidas, clientelismo, dependência de remessas e baixa produtividade —, porém sem o crescimento comparativamente mais robusto que elas apresentam. A desigualdade crescente é evidente: mesmo agora, com apagões que frequentemente duram de dois a três dias, bairros mais abastados exibem novos restaurantes com geradores em pleno funcionamento, luzes acesas, DJs e mesas lotadas. Ao redor, casas permanecem às escuras e o lixo não recolhido se acumula nas ruas. Não precisava ser assim. A população cubana continua altamente qualificada, ainda que os salários oferecidos pelas MIPYMEs (pequenas e médias empresas) estejam atraindo profissionais qualificados para fora de suas áreas de atuação. Uma transição hoje ainda poderia tornar viável uma economia de mercado dinâmica e justa. Daqui a dois ou três anos, talvez isso já não seja possível.

AQUELES QUE FICAM

A última dimensão do colapso de Cuba é a mais difícil de mensurar, mas é também aquela que, segundo muitos cubanos é o que mais os preocupa: o que vários descreveram como “degradação social”. Os efeitos interligados da emigração em massa, do rápido envelhecimento populacional e de um fosso geracional crescente impõem desafios enormes ao futuro de Cuba.

Desde 2020, a população de Cuba caiu entre 13% e 24% (estimativa), impulsionada em grande parte por uma onda de emigração sem precedentes. Como as pessoas que partiram eram, em sua maioria, mulheres em idade reprodutiva, o processo de envelhecimento — que já era rápido — acelerou ainda mais. As autoridades preveem que, até 2050, um em cada três cubanos terá mais de 60 anos, em comparação com um em cada quatro atualmente. Esse seria um desafio significativo mesmo para um país com economia forte e um sistema previdenciário funcional. Para Cuba, pode tornar-se um obstáculo intransponível.

A emigração também esvaziou profissões inteiras, deixando hospitais sem profissionais de saúde, escolas sem professores e até igrejas sem padres e pastores, numa escala jamais vista pelos cubanos. Vários cubanos de meia-idade estabeleceram um contraste com o "Período Especial" da década de 1990, quando a perda da ajuda e do comércio com a União Soviética encolheu a economia em cerca de 35%, mas um número muito menor de médicos e professores deixou o país. A ilha estava quebrada naquela época, mas hospitais e escolas continuavam funcionando. Hoje, a realidade é outra. Também aumentou a disparidade entre os cubanos que têm família no exterior (e acesso a remessas para abrir negócios) e aqueles que não possuem tais conexões — grupo que inclui, de forma desproporcional, os afro-cubanos.

Viver sem alimentos, energia ou medicamentos suficientes também cobra um preço psicológico. Os jovens pagam o preço mais alto, especialmente aqueles cujos pais estão no exterior e que crescem enfrentando mais fome e exclusão do que as gerações anteriores. Mas o custo é generalizado. "Isso não é resiliência", disse um homem em Havana, referindo-se ao clichê de que os cubanos possuem uma capacidade única de suportar adversidades. "As pessoas conseguem se adaptar a qualquer coisa. Nós nos transformamos para conseguir sobreviver a esse processo, mas trata-se de uma degradação." O PREÇO DO ATRASO

Quando os vizinhos de Cuba no Caribe e na América Central iniciaram suas transições para a democracia, entre 40 e 50 anos atrás, poucos esperavam que tivessem sucesso. A maioria era muito mais pobre, economicamente mais disfuncional e mais desigual do que é hoje. E, no entanto, eles provaram que condições iniciais desfavoráveis ​​não são um destino imutável: a maioria democratizou-se e viu suas economias crescerem e se estabilizarem. Cuba também poderia fazer o mesmo.

Mas, quanto mais tempo dura o impasse atual, mais remota se torna essa perspectiva. Manter o nível atual de pressão pode levar o regime a implodir — ou não. O que certamente acontecerá, se a situação persistir por mais um ano ou mais, é que Cuba se tornará cada vez mais ingovernável — para qualquer pessoa.

É possível que o governo Trump não tenha ponderado esse risco ou o tenha considerado um custo aceitável para forçar uma abertura política. Surpreendentemente, alguns cidadãos cubanos comuns fizeram o mesmo cálculo. Muitos cubanos não acreditam que as sanções dos EUA fossem a principal causa da crise atual. Para eles, a manutenção ou a retirada das sanções importava muito menos do que a permanência ou não do regime, visto que, em sua opinião, este último tinha maior responsabilidade pela economia em ruínas. Uma nova pesquisa de abrangência nacional do AmericasBarometer revela algo semelhante: 74% dos entrevistados atribuíram ao governo cubano a culpa pela crise atual, enquanto apenas 16% culparam os Estados Unidos.

Dito isso, os riscos de manter a pressão atual indefinidamente são enormes. Para ambos os países, provavelmente nada seria pior do que uma espiral de violência criminosa e ingovernabilidade caótica na ilha. Uma política prolongada de pressão máxima também eleva o custo de uma eventual recuperação, e uma Cuba pós-transição terá meios limitados para financiar a reconstrução. Apenas a reconstrução da rede elétrica cubana — que se deteriora ainda mais a cada novo apagão — custará cerca de 8 bilhões de dólares. O país poderá levar anos para voltar a ter acesso a financiamento do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de outras instituições multilaterais. Dada a fadiga do público americano em relação a iniciativas de construção de nações no exterior, é pouco provável que o Congresso intervenha para suprir essa lacuna nesse meio-tempo.

O caminho oposto também traz seus próprios custos. Aqueles que defendem a normalização das relações e o fim do embargo sem mudanças políticas significativas precisam ser francos sobre o que isso implica: aceitar que os cubanos continuariam vivendo, contra a própria vontade, sob um regime que se enriquece enquanto mantém os cidadãos pobres o suficiente para garantir o controle. Não se deve alimentar a ilusão de que os líderes cubanos, com menos sanções, seriam capazes de reconstruir as instituições estatais, reduzir a desigualdade ou restaurar a coesão social. O objetivo da liderança é permanecer no poder.

Uma terceira via ainda pode ser possível: uma nova proposta de alívio seletivo de sanções, focada em amenizar a crise humanitária, em troca de reformas políticas e econômicas específicas que poderiam enfraquecer o controle do regime. Mesmo que Havana tenha rejeitado acordos desse tipo no passado, vale a pena tentar. No entanto, qualquer que seja o caminho escolhido por Washington, é preciso levar em conta os custos da demora — que já são elevados e continuam a aumentar.

17 setembro 2026

Semana espacial - três boas notícias

1. Pesquisadores descobriram o exoplaneta mais jovem já observado. Com menos de um milhão de anos de idade, o Elias 2-24 b é muito mais jovem do que os recordistas anteriores, que tinham mais de 5 milhões de anos. Mas, apesar de ser o planeta mais jovem que já se viu, esse "bebê gigante" é mais massivo que Júpiter. 

2. Em uma notícia científica promissora, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman começou a ser ativado e a ligar seus instrumentos pela primeira vez. Mal se pode esperar para ver as descobertas científicas que este observatório incrível proporcionará agora que seus instrumentos estão operacionais! 

3. E, enquanto se continua acompanhando notícias curiosas sobre voos espaciais sigilosos, a SpaceX lançou sua segunda missão confidencial em menos de uma semana. Será que se continuará vendo esse ritmo de lançamentos para missões secretas?



16 setembro 2026

ASI - Qual a melhor estratégia para o seu desenvolvimento?


Cresce a especulação de que a superinteligência artificial, ou ASI — um conceito de difícil definição, vagamente descrito como modelos de IA que superam vastamente as capacidades humanas em todas as tarefas e domínios — poderia surgir em poucos anos. Em contrapartida, os principais modelos de IA atuais superam as capacidades humanas apenas em áreas restritas, como matemática e processamento de dados, ficando aquém do desempenho humano em áreas como bom senso e raciocínio profundo. O surgimento da ASI poderia trazer um progresso econômico e científico vertiginoso ou viabilizar avanços militares revolucionários, capazes de alterar o equilíbrio global de poder. No entanto, também poderia transformar fundamentalmente a relação entre máquinas e humanidade, permitindo, talvez — nos cenários mais catastróficos —, que sistemas quase onipotentes erradiquem seus criadores humanos.

Grande parte disso é hipotética. Ainda é incerto se a ASI é possível, quando poderia ser desenvolvida ou se seria possível mantê-la alinhada ao florescimento da humanidade. Essas incertezas dominam as discussões sobre qualquer resposta política. Contudo, dado que as implicações da ASI seriam sísmicas, é importante avaliar como países, em especial os Estados Unidos, poderiam abordar essa tecnologia e de que maneira diferentes estratégias em relação à ASI afetariam a atuação de Washington no cenário mundial.

Nessa perspectiva, uma opção é buscar a supremacia acelerando a corrida rumo à ASI e, simultaneamente, contendo os rivais. Essa estratégia baseia-se na convicção de que o maior perigo para os Estados Unidos não é a tecnologia de ASI incontrolável em si, mas sim a possibilidade de que um rival controle tal tecnologia. Outra opção é o desenvolvimento compartilhado, no qual os Estados Unidos buscam liberar, de forma responsável, os benefícios da ASI para a humanidade — e conter as dinâmicas perigosas de uma corrida para criá-la — desenvolvendo-a no âmbito de um consórcio de Estados comprometidos com a segurança. Uma terceira opção é a supressão: os Estados Unidos abririam mão do desenvolvimento da ASI e impediriam que qualquer outra parte a criasse, sob o argumento de que a superinteligência é perigosa demais para ser liberada no mundo.

Cada uma dessas opções prioriza aspectos diferentes do desafio da ASI (Inteligência Artificial Superinteligente): a busca por vantagem geopolítica, a necessidade de desenvolver com segurança uma tecnologia revolucionária e a importância de minimizar riscos existenciais. No entanto, cada uma delas também apresenta riscos ou falhas graves e exige apostas potencialmente irreversíveis em um futuro atualmente incognoscível. Se a premissa subjacente a uma determinada estratégia se mostrar equivocada, essa estratégia poderá fracassar de maneira catastrófica. 

Portanto, seria um erro os líderes dos EUA adotarem plenamente qualquer uma dessas opções neste momento. A melhor opção a curto prazo é uma estratégia prudente de diversificação de riscos (*hedging*), posicionando os Estados Unidos para aproveitar diversos futuros possíveis e, ao mesmo tempo, embasando sua capacidade de, futuramente, fazer uma escolha mais clara.

Uma sessão do STF é um reflexo no espelho de fim de noite da alma do país

O mundo lá fora hoje discute questões do futuro, de IAs sem controle a crise energética pesada, de saltos quânticos a bases na lua, mas nós aqui, no brasilzinho minúsculo e eternamente preso ao seu passado, temos uma turma que aplaude chicaninha jurídica de ditadores de toga e que chama juízes corruptos de heróis da democracia. 

Em entrevistas e participações em podcasts, Lula afirmou que o ministro Alexandre de Moraes prestou "dois grandes serviços à democracia brasileira" por sua atuação à frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022 e na condução dos julgamentos dos atos do 8 de janeiro. O Brasil nunca foi lá grande coisa, convenhamos, mas jamais se imaginou que se chegaria um nível tão baixo como o de ontem. 

Essa frase resume bem o teatro do absurdo em que se transformou aquela sessão caótica do STF, nesta terça-feira 15 de setembro de 2026.

Coloquem um microfone à frente de qualquer um de nossos juízes, por horas, que em algum momento, é inescapável, sua verdadeira índole se revelará. Se não sua índole, seu despreparo. Se não seu despreparo, sua arrogância. Se não sua arrogância, sua humana tibieza. Se não sua humanidade, sua patente podridão. Uma sessão do nosso Supremo é um reflexo no espelho de fim de noite da alma do país.
A esquerda brasileira via petismo e tucanismo destruiu nossa saúde, nossos hospitais, nossa economia, nossa educação, nosso futuro. Vimos e sentimos isso todos os dias no país que nos cerca. Porém, o atual Supremo é a grande obra-prima da nossa esquerda, seu grande monumento, seu anticristo não redentor, um valhacouto de concreto armado cravado em Brasília, intocável em todos os sentidos, para os principais bandidos do país. O STF brasileiro hoje é a representação máxima do nosso atraso, o símbolo máximo do que de pior o país já produziu.

15 setembro 2026

Setembro negro: Corte está à deriva

Um desfecho vergonhoso para o Brasil e para o mundo, está nas manchetes de toda a imprensa mundial, de qualquer natureza, somada as manifestações de muitas pessoas nas redes sociais que nem ligaram os seus meios de comunicação para não ver nem ouvir os ministros do STF.

O vídeo abaixo traduz o que ocorreu hoje em Brasília, na Praça dos Três Poderes. Na sequência o resumo bem apropriado desse dia e sua correta definição.




14 setembro 2026

Lula tem um problema com o Banco Master

O presidente enfrenta um desafio difícil quando os brasileiros forem às urnas em 4 de outubro.

Os conservadores do Hemisfério Ocidental têm visto com satisfação a onda de vitórias de centro-direita nas eleições presidenciais da América Latina desde 2023. Na maior parte da região, o chavismo perdeu espaço e deu lugar a alguma forma de capitalismo democrático, por mais diluído que seja.

O próximo da lista é o gigante sul-americano, o Brasil. Os brasileiros vão às urnas em 4 de outubro para as eleições federais. Até pouco tempo atrás, esperava-se que o presidente de esquerda Luiz Inácio "Lula" da Silva — que também ocupou o cargo entre 2003 e 2010 — conquistasse um quarto mandato. No entanto, novas informações surgidas neste mês sobre alegações de fraude na quebra do Banco Master, sediado em São Paulo, em novembro passado, podem mudar esse cenário.

O principal rival de Lula é Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não se espera que nenhum dos candidatos obtenha mais de 50% dos votos em 4 de outubro, o que evitaria um segundo turno. Contudo, as pesquisas mais recentes para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, mostram um empate técnico entre os dois.

Quando surgiu a notícia, em maio, de que o filho de Bolsonaro havia solicitado recursos ao CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar um filme sobre seu pai, ele caiu nas pesquisas. Mas parece ter se recuperado. Ele nega qualquer irregularidade e insiste que uma investigação, anunciada na sexta-feira, provará sua inocência. O problema de Lula com o Banco Master — que envolve conexões com o Supremo Tribunal — pode ser mais profundo.

Parte do desafio de Lula nas pesquisas explica-se pelo crescimento econômico modesto de 2% neste ano. No entanto, a corrupção também é uma preocupação para os eleitores, e ele nunca conseguiu se livrar da fama de envolvimento em práticas políticas escusas, que remonta a uma condenação de 2017 por recebimento de propina em troca de favores. Lula sustenta sua inocência. Mas é justamente por causa dessa condenação que, com o caso do Banco Master em evidência, não se pode descartar Bolsonaro da disputa.

A condenação de Lula foi mantida em duas instâncias de recurso. Contudo, em 2021, o Supremo Tribunal Federal decidiu que ele havia sido julgado na jurisdição errada e anulou a sentença condenatória. Convenientemente, a decisão veio quando já era tarde demais para julgar novamente o Sr. da Silva antes que o prazo prescricional expirasse.

Quando ele concorreu novamente à presidência em 2022, contra Jair Bolsonaro, seus oponentes usaram as redes sociais para lembrar aos brasileiros que ele havia escapado da responsabilização devido a uma questão técnica. Era um argumento defensável, mas enfureceu Lula e alguns membros da Suprema Corte, que decidiram não deixar impunes as críticas públicas à sua prestigiada instituição.

A Corte não tem autoridade para iniciar investigações, a menos que o suposto crime tenha sido cometido em suas dependências. No entanto, o tribunal iniciou "inquéritos sobre fake news" — conduzidos de forma sigilosa e arbitrária — sob a alegação de que ataques digitais contra a instituição eram uma extensão virtual de suas instalações e representavam um perigo para a democracia. O ministro Alexandre de Moraes tornou-se um defensor da censura.

Lula derrotou Jair Bolsonaro e tomou posse em 1º de janeiro de 2023. Uma semana depois, alguns bolsonaristas pouco perspicazes decidiram organizar um grande protesto de domingo em frente a prédios federais vazios em Brasília. Vândalos depredaram o patrimônio público.

O ministro de Moraes usou o incidente para embasar a acusação contra o Sr. Bolsonaro — que estava na Flórida na época — por tentativa de golpe contra Lula. No ano passado, o ministro de Moraes e seus pares condenaram Jair Bolsonaro, apesar da flagrante falta de provas.

Os ministros estavam atropelando o Estado de Direito e usando a democracia como pretexto. Intelectuais brasileiros, a maioria dos quais detestava o pouco sofisticado Jair Bolsonaro, apoiaram a medida. Agora, estão revendo suas posições.

A quebra do Banco Master provocou enormes prejuízos ao banco estatal Banco de Brasília, afetou fundos de pensão públicos que detinham títulos de alto rendimento do Banco Master (sem garantia do FGC) e drenou bilhões de dólares do fundo garantidor de depósitos do governo, tornando-se o maior resgate de depositantes na história do Brasil. Por que os órgãos reguladores não intervieram a tempo de evitar o desastre permanece sob investigação. No entanto, o Sr. Vorcaro foi acusado de fraude — acusação que ele nega — e comunicações mantidas com o ministro de Moraes levantam questionamentos.

A divulgação, em 1º de setembro, de um relatório de 218 páginas da Polícia Federal — baseado em provas extraídas do telefone do Sr. Vorcaro — sugere que o banqueiro entrou em contato com o ministro de Moraes pouco antes de ser preso. Mensagens de texto mostram que o Sr. Vorcaro pediu ao ministro conselhos sobre se deveria fugir do país, ajuda para conter as autoridades e uma reunião presencial reservada. A resposta do ministro de Moraes não foi divulgada. Sabe-se, porém, que sua esposa, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato de consultoria jurídica de três anos com o Banco Master, avaliado em cerca de 25 milhões de dólares. As mensagens indicam que o Sr. Vorcaro providenciou acomodações de luxo e tratamento VIP para familiares de de Moraes. A Sra. Barci de Moraes nega a prática de tráfico de influência.

O ministro de Moraes nega qualquer irregularidade, mas uma nação saturada de corrupção pode tirar suas próprias conclusões e manifestá-las nas urnas.




A IA é poderosa o suficiente para resolver nossos problemas matemáticos mais difíceis — e nos matar a todos

A inteligência artificial pode revolucionar a ciência e resolver problemas matemáticos muito complexos, mas seu enorme poder também pode representar riscos caso sistemas avançados escapem ao controle humano ou sejam utilizados de maneira perigosa. O grande desafio é desenvolver uma IA poderosa sem perder a capacidade de controlá-la.

De um lado, sistemas de IA cada vez mais avançados podem ajudar a resolver problemas matemáticos extremamente difíceis, descobrir novas demonstrações, acelerar pesquisas científicas e contribuir para áreas como medicina, física, engenharia e mudanças climáticas.

Por outro lado, o rápido aumento da capacidade desses sistemas gera preocupações sobre controle e segurança. Uma IA muito mais inteligente que os seres humanos poderia tomar decisões ou executar ações que não correspondam aos nossos interesses. O perigo não significa necessariamente que uma IA desenvolveria “ódio” pela humanidade; o problema poderia surgir de objetivos mal definidos, perda de controle, uso mal-intencionado por pessoas ou autonomia excessiva.

Assim, a ideia central é um paradoxo: a mesma tecnologia capaz de ajudar a humanidade a solucionar alguns de seus maiores desafios também pode criar riscos de enorme dimensão, inclusive, em cenários extremos e ainda incertos, riscos existenciais para a humanidade. Por isso, pesquisadores defendem que o avanço das capacidades da IA seja acompanhado por pesquisas sobre alinhamento, segurança, supervisão humana e regras para seu desenvolvimento e utilização.

Sobre isso, Ben Cohen escreveu o artigo abaixo, publicado em 11 de setembro no The Wall Street Journal. Boa leitura.

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A IA é poderosa o suficiente para resolver nossos problemas matemáticos mais difíceis — e nos matar a todos

Você não precisa saber matemática para entender por que o avanço relacionado a um dos Problemas do Prêmio do Milênio é importante. É uma prova do progresso acelerado e aterrorizante da IA.

Por que deveríamos nos importar com o fato de a IA ter se tornado, de repente, incrivelmente boa em matemática?

Essa é uma pergunta que venho fazendo a matemáticos e pesquisadores de IA há meses — e especialmente nesta semana, quando a OpenAI publicou uma solução para um dos notavelmente complexos Problemas do Prêmio do Milênio.

E é a única questão matemática que consigo responder sem começar a suar frio.

A matemática significa coisas diferentes para pessoas diferentes: pode ser bela e elegante, ou uma fonte de pesadelos. No último ano, ela também se tornou uma prova do progresso acelerado da inteligência artificial, demonstrando como a tecnologia está se tornando muito mais inteligente — e muito mais rápida — do que a maioria das pessoas previa.

É uma área em que os céticos previam que a IA levaria anos para alcançar os marcos mais ambiciosos — e a IA já os superou. Se isso pode acontecer em um campo que exige os mais altos níveis de raciocínio, pode acontecer em qualquer lugar.

Os humanos sempre usaram a matemática para entender o mundo.

O progresso da IA ​​na matemática agora nos oferece um vislumbre de um mundo que vai além da nossa compreensão.

E nesta semana, enquanto nos maravilhávamos com a capacidade da IA ​​de realizar cálculos matemáticos, também nos perguntávamos se ela destruiria a humanidade.

Ao mesmo tempo que a OpenAI publicava sua solução para um Problema do Prêmio do Milênio, um cientista de destaque da Anthropic apresentava um tipo muito diferente de cálculo: sua convicção de que a probabilidade de extinção humana na próxima década é agora superior a 10%. Ele respondia a comentários contundentes de outro pesquisador, Jacob Coxon — que trabalhou na OpenAI e na Anthropic, mas afirmou que nenhuma das empresas está agindo de forma responsável ao correr em direção a uma superinteligência capaz de se autoperfeiçoar, colocando em risco a nossa própria existência.

Enquanto isso, a corrida armamentista matemática entre elas continua a se intensificar.

Isso não acontece porque seus negócios dependem da comprovação da Hipótese de Riemann. Acontece porque a matemática serve como uma ferramenta de marketing eficaz — uma maneira de divulgar as capacidades crescentes de seus modelos mais recentes.

Nesse sentido, o episódio envolvendo o Prêmio do Milênio é uma versão mais amena do incidente da Hugging Face. Ambos demonstram o que esses sistemas cada vez mais poderosos são capazes de fazer quando são deixados livres para operar. Em vez de arquitetar um plano para invadir uma empresa, um enxame de até 10.000 agentes dedicou-se a resolver um problema matemático durante 88 horas, construindo sobre o trabalho uns dos outros — e sobre o trabalho de humanos — até chegar a uma solução. O complexo problema de Navier-Stokes desafiava os matemáticos há quase um século. A IA precisou de milhões de dólares em recursos computacionais e de alguns dias.

Foi a conquista matemática mais notável e até então impensável em um ano repleto delas.

Os modelos de IA passaram os últimos anos fazendo coisas que acreditávamos que não seriam capazes de fazer tão cedo. First they couldn’t do basic math. Then they couldn’t do research-level math. Eles também não conseguiram ganhar o ouro na Olimpíada de matemática ou desvendar qualquer um dos famosos mistérios da matemática.

Quando fizeram tudo isso, a única coisa que restou a fazer foi resolver um dos terrivelmente difíceis Problemas do Prémio Milénio.

Há um ano, analistas especializados deram à IA uma probabilidade de cerca de 20% de o conseguir até 2030. Mas, nos últimos meses, o improvável começou a parecer inevitável. O que há de mais surpreendente no avanço do Prémio Milénio é que já não foi uma surpresa tão grande. Na verdade, a OpenAI lançou um modelo interno sobre os problemas do Prêmio Milênio depois de ouvir rumores de que a Anthropic já havia resolvido um.

Poucos dias depois de lançar a solução para um problema, a OpenAI sugeriu que estava perto de resolver outro, levantando a possibilidade de duas descobertas que nos escaparam durante décadas chegarem na mesma semana.

Para aqueles de nós que não pensam em matemática desde o ensino médio, os acontecimentos recentes trouxeram noções sobre problemas de Erdős, a conjectura do Jacobiano e um fenômeno conhecido como "explosão em tempo finito" (*finite-time blowup*).

Para os matemáticos, esses desdobramentos levantaram questões existenciais — o que fazer quando se dedicou a vida a problemas que agora estão sendo resolvidos pela IA? — e provocaram uma reação negativa intensa. Antes mesmo de a demonstração histórica surgir online, as redes sociais fervilharam com a suspeita de que o modelo da OpenAI havia se apropriado de trabalhos pioneiros e inéditos de humanos — algo que a empresa nega.

No fim das contas, aquele não foi nem mesmo o episódio mais alarmante envolvendo IA e números naquele dia.

Horas depois, Coxon pediu demissão da Anthropic devido a preocupações com a segurança e declarou ao mundo que as pessoas que desenvolvem IA "acreditam sinceramente que ela poderia matar a todos nós". Seus comentários foram corroborados por Evan Hubinger, um pesquisador cujo trabalho na Anthropic consiste justamente em garantir que a IA não nos extermine. Em sua conta no X, ele estimou as chances de aniquilação em mais de 10%. Segundo seus cálculos, o apocalipse é agora mais provável do que Stephen Curry errar um lance livre.

Tudo isso pareceria ficção científica não muito tempo atrás — e muito menos na virada do milênio, quando os sete grandes problemas da matemática foram selecionados e um prêmio de 1 milhão de dólares foi oferecido por cada solução.

"Os sete problemas", disse o matemático Alain Connes, ganhador da Medalha Fields, no ano 2000, "são totalmente inacessíveis aos computadores".

Ou, pelo menos, eram. Agora que dispomos de um novo tipo de computador, Connes me disse estar "extremamente otimista" quanto aos avanços da IA ​​na matemática. Nem todos os ganhadores da Medalha Fields compartilham desse otimismo.

Já nos "tempos remotos" de 2023, Terence Tao observou que a IA poderia ser "radicalmente transformadora" — escreveu ele em seu blog —, "a ponto de tornar insustentável a manutenção das práticas e da cultura matemáticas tradicionais sem adaptações". O homem amplamente considerado o maior matemático do mundo ainda acredita no valor dos modelos de IA. No entanto, ele está perdendo a confiança nas empresas que os desenvolvem.

Nesta semana, Tao foi um dos cerca de duas dezenas de ganhadores da Medalha Fields a alertar que a obsessão da indústria de IA em resolver problemas matemáticos poderia comprometer o propósito da própria matemática. Ele afirma que a matemática caminha rapidamente para um "pior cenário" que ameaça a saúde a longo prazo de sua área e da sociedade como um todo.


No dia em que a sociedade tomou conhecimento da solução da IA ​​para um problema do Prémio do Milénio, liguei para outro medalhista Fields para compreender o mais recente avanço.

“O sonho vago de que ainda existe um papel humano na matemática não é completamente eliminado por isso”, disse-me Timothy Gowers. “Mas meu palpite é que se você tiver um modelo capaz de fazer isso, ele será capaz de fazer muitas outras coisas.”

O que o levou a uma conclusão perturbadora.

“Não quero dizer que tudo acabou”, disse Gowers, “mas certamente não quero dizer que não acabou”.

Se isso realmente acabou era a questão quando a OpenAI recebeu matemáticos em seus escritórios em São Francisco no mês passado. A cimeira começou com uma suposição: a IA tornar-se-á sobre-humana em matemática.

Uma vez aceitada essa premissa, eles poderiam raciocinar sobre todas as suas implicações práticas. O que isso significa para a educação, ou para a colaboração, ou para a publicação de ideias, ou para a forma como formaremos a próxima geração? Eles não encontraram nenhuma solução, mas esse não era o ponto.

O objetivo deles era selecionar os problemas certos para trabalhar, como os matemáticos que escolheram os Problemas do Prêmio Milênio.

E todos nós deveríamos nos importar. Porque desta vez, os humanos terão que resolvê-los.

Começou o grande pânico americano em torno da IA

Preocupações latentes de que a tecnologia poderia acabar com a civilização e desencadear ataques cibernéticos atingiram o auge tanto nos locais de trabalho quanto nas mesas de jantar.

O pânico sobre a ameaça existencial da IA ​​disseminou-se pelo grande público americano após um alerta feito por um pesquisador da Anthropic que estava deixando a empresa.

Conversas sobre os riscos da IA ​​ganharam força em grupos de mensagens, igrejas e lares por todo o país.

A visão de que a IA levará à extinção da raça humana permanece uma opinião marginal entre os especialistas do setor.

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The Wall Street Journal

O deputado Josh Gottheimer assistia ao jogo de hóquei de campo de sua filha, no norte de Nova Jersey, na quinta-feira, quando dois pais se aproximaram para expressar suas preocupações sobre a inteligência artificial e perguntar: "O que está acontecendo?"

Perguntas como essas — vindas tanto de cidadãos comuns quanto de legisladores — repetiram-se ao longo da semana para o democrata de Nova Jersey, que apresentou projetos de lei para aumentar a supervisão da tecnologia. Elas foram motivadas pelo alerta alarmante de um pesquisador da Anthropic, publicado na terça-feira no *The Wall Street Journal*, de que sistemas de IA fora de controle poderiam destruir a civilização. Para Gottheimer, ex-executivo da Microsoft e copresidente de uma comissão da Câmara sobre IA, isso indicava que a tensão sobre a possibilidade de a IA acabar com a humanidade havia ultrapassado um limite crítico.

"Muita gente me enviou o artigo dizendo: 'Que p... é essa?' ou 'O que estamos fazendo a respeito?'", disse Gottheimer. "Quer você acompanhe o assunto de perto ou não, você lê o suficiente para pensar: 'Caramba, é melhor estabelecermos algumas regras básicas aqui'."

Por todo o país, esta foi a semana em que o pânico sobre a ameaça existencial da IA ​​pareceu romper as barreiras dos debates na internet e dos círculos do Vale do Silício, espalhando-se pelo grande público americano. Em grupos de estudo bíblico, mesas de jantar em família e grupos de mensagens entre amigos, o que antes era uma preocupação abstrata para muitos transformou-se rapidamente em uma das ameaças mais sombrias para a sociedade.

Trata-se de um ponto de virada em uma reação negativa que vinha crescendo há meses. A oposição à ampla rede de câmeras de vigilância com IA da Flock Safety nos EUA ganhou força neste verão, justamente quando detalhes sobre a invasão autônoma realizada pela IA da OpenAI contra a empresa Hugging Face se tornaram públicos. Ao fundo, ouvia-se um crescente coro de resistência aos data centers e de preocupação de que a tecnologia pudesse resultar em perda generalizada de empregos.

Quando funcionários da Anthropic compartilharam seus receios sobre o impacto potencialmente fatal da tecnologia para a humanidade — com postagens do pesquisador Jacob Coxon (que estava deixando a empresa) e de um colega acumulando centenas de milhões de visualizações —, as preocupações que vinham fermentando atingiram o ponto de ebulição.

Na televisão noturna, Jimmy Kimmel questionou em voz alta por que não estamos levando a questão mais a sério, sugerindo a teoria de que "é algo complexo demais para conseguirmos assimilar". Artistas como o ator Matt Damon, a compositora Maggie Rogers e a cantora Sheryl Crow também se manifestaram. "Como nossos líderes podem escolher seus trilhões em detrimento de seus próprios filhos?", perguntou Crow nas redes sociais.

Leitores correram para uma página da Wikipedia sobre o risco existencial representado pela inteligência artificial; a página registrou um aumento de mais de dez vezes no número de acessos, estabelecendo um recorde para o artigo. Nate Soares, um cientista da área de IA e coautor do livro *If Anyone Builds It, Everyone Dies: Why Superhuman AI Would Kill Us All* ("Se Alguém a Criar, Todos Morrem: Por Que uma IA Sobre-humana Nos Mataria a Todos"), disse que sua editora o informou de que ele vendeu mais livros na quarta-feira do que costuma vender em uma semana.

Há anos, Soares vem alertando sobre os perigos de a IA causar a extinção da humanidade. "A mensagem nunca havia rompido a bolha até agora", disse ele.

Apesar dos alertas desta semana, a ideia de que a IA levará à extinção da raça humana é uma opinião minoritária entre os especialistas do setor. Mesmo alguns daqueles que afirmam que a IA poderia ser capaz de destruir a humanidade acreditam que se trata de um evento de baixa probabilidade e que medidas podem ser tomadas para impedi-lo. Tanto a Anthropic quanto a OpenAI afirmaram que levam a segurança a sério e que seus apelos por regulamentação governamental são genuínos.

"Isso parece estar em outro patamar"

Em março, o cineasta vencedor do Oscar Daniel Roher lançou um documentário sobre os riscos da IA ​​intitulado *The AI ​​Doc: Or How I Became an Apocaloptimist*, que teve uma recepção mista. "Eu esperava que o filme tivesse um impacto maior", disse Roher. No entanto, nesta semana, ele começou a receber mais ligações de amigos e familiares pedindo sua opinião sobre os riscos.

"Estou começando a ver uma mudança na conversa e no interesse", disse Roher, cujo documentário será lançado na plataforma de streaming Netflix na próxima semana.

Em um estudo bíblico realizado na quarta-feira em uma igreja no bairro de Brickell, em Miami, o reverendo Christopher Benek recebeu várias perguntas de sua congregação sobre a IA.

"Um dos meus líderes de louvor veio falar comigo e disse: 'Isso parece estar em outro patamar, porque agora está em toda parte na imprensa, em vez de ser algo isolado'", contou Benek, cujo livro *Church Leader’s Guide to Artificial Intelligence* ("Guia de Inteligência Artificial para Líderes de Igreja") foi publicado em dezembro. O vice-presidente JD Vance chamou a atenção recentemente ao descrever a tendência das máquinas de concordar excessivamente com seus usuários como algo "meio satânico".

Patrece M. Lucas, conselheira de saúde mental em Detroit, assistiu à entrevista de Coxon com Anderson Cooper, da CNN, na terça-feira, e enviou o link do trecho para seus grupos de conversa. Lucas compartilhou o vídeo para reforçar seu argumento de que as pessoas confiam excessivamente na IA e deveriam limitar o uso da tecnologia. "Um pequeno grupo disse: 'Sim, concordo com você', enquanto outros me acham a amiga estranha e não entendem ou não acreditam muito nisso", disse ela.

Leitores correram para uma página da Wikipedia sobre o risco existencial representado pela inteligência artificial; a página registrou um aumento de mais de dez vezes no número de acessos, estabelecendo um recorde para o artigo. Nate Soares, um cientista da área de IA e coautor do livro *If Anyone Builds It, Everyone Dies: Why Superhuman AI Would Kill Us All* ("Se Alguém a Criar, Todos Morrem: Por Que uma IA Sobre-humana Nos Mataria a Todos"), disse que sua editora o informou de que ele vendeu mais livros na quarta-feira do que costuma vender em uma semana.

Há anos, Soares vem alertando sobre os perigos de a IA causar a extinção da humanidade. "A mensagem nunca havia rompido a bolha até agora", disse ele.

Apesar dos alertas desta semana, a ideia de que a IA levará à extinção da raça humana é uma opinião minoritária entre os especialistas do setor. Mesmo alguns daqueles que afirmam que a IA poderia ser capaz de destruir a humanidade acreditam que se trata de um evento de baixa probabilidade e que medidas podem ser tomadas para impedi-lo. Tanto a Anthropic quanto a OpenAI afirmaram que levam a segurança a sério e que seus apelos por regulamentação governamental são genuínos.

Lucas também compartilhou o vídeo no LinkedIn e escreveu: "Não acho que as máquinas — ou os zumbis, aliás — vão ouvir nossas orações, mas vamos tentar..."

"Mundo de Matrix"

Nas empresas americanas, executivos começaram a se perguntar como os receios dos funcionários podem afetar a adoção interna de IA, disse Michael Domanic, chefe de IA da consultoria Section. Cerca de metade dos adultos americanos afirmou, no início deste ano, já ter usado chatbots em algum momento — um aumento de quase 50% em relação a 2024, segundo o Pew Research Center.

Erez Kaminski, CEO da Ketryx — empresa que vende software para automatizar a conformidade regulatória de fabricantes de dispositivos médicos —, disse que cerca de metade de seus clientes mencionou preocupações com a IA durante chamadas nesta semana. Um erro poderia resultar na administração do medicamento errado ou na invasão de um banco de dados central. Durante um jantar de equipe em Cambridge, Massachusetts, na quinta-feira, os funcionários decidiram revisar todos os sistemas de gestão de riscos.

Rakesh Shah, vice-presidente de produtos da empresa de cibersegurança Quest Software, afirmou que as postagens da Anthropic e a invasão da Hugging Face mudaram o teor das conversas com os clientes. Agora, os clientes estão se preparando para sofrer invasões e responder a violações de segurança, ao contrário da crença anterior de que não seriam alvos ou de que os hackers não teriam sucesso, disse ele.

Shah contou que seus pais, na casa dos 80 anos, perguntaram recentemente sobre os riscos de segurança, enquanto seus filhos adolescentes — durante o jantar em casa, na região de Austin, Texas — questionavam se o "mundo de Matrix" estaria próximo.

"Quando o assunto chega à mesa de jantar, ele certamente passará a ser discutido também pelo conselho de administração", disse Shah, ressaltando a importância de manter o controle humano sobre a IA nessas discussões.

Uma mensagem de uma ex-namorada

O aumento da atenção tem sido benéfico para pesquisadores que trabalham com segurança em IA, muitos dos quais estão sediados na Bay Area. Após meses alertando sobre os riscos de sistemas de IA capazes de extinguir a humanidade, eles viram um súbito aumento no interesse nos últimos dias.

Jeffrey Ladish, diretor executivo da Palisade Research — uma organização sem fins lucrativos dedicada à segurança em IA — e ex-consultor de segurança da Anthropic, notou a chegada de várias doações individuais na quarta e na quinta-feira, algo incomum para uma organização financiada principalmente por subsídios. Uma das doações foi de US$ 40 mil.

Ladish tentava acompanhar o ritmo frenético de atividades quando recebeu uma mensagem de sua ex-namorada, que lhe disse: "É exatamente o que você vem dizendo há anos".

Muitos executivos não estão em pânico. Os CEOs acompanham de perto as falhas da IA, por isso temores existenciais em relação à tecnologia parecem exagerados, afirmou Sean Byrnes, investidor e coach de executivos para empresas de tecnologia em estágio inicial. Em um evento realizado na noite de quinta-feira na Bay Area, nenhum dos cerca de doze CEOs com quem ele conversou levou a sério a ideia de que a IA poderia ameaçar a humanidade.

Aliados do governo Trump e do setor de tecnologia levantaram a hipótese de que a rede de organizações sem fins lucrativos focadas em riscos de IA teria colaborado com Coxon em sua saída, amplificando seus comentários para obter regulamentações favoráveis ​​em Washington. Eles citaram vínculos anteriores entre organizações de pesquisa e funcionários da Anthropic e de outros laboratórios de IA. A Anthropic já havia declarado anteriormente que seus esforços em políticas e segurança são genuínos e que os riscos da IA ​​são reais.

Contatado pelo *Journal* na quinta-feira, Coxon disse que consultou outras pessoas que deixaram empresas de IA por motivos semelhantes, mas que a decisão de sair foi exclusivamente sua. Ele afirmou ter ficado surpreso com a repercussão gerada após seu alerta.

"Acho que ninguém esperava que a sequência de mensagens viralizasse tanto; uma reação como essa não é algo que alguém consiga fabricar", disse Coxon.

13 setembro 2026

IA pode matar todos os humanos! A probabilidade é superior a 10% na próxima década

Cresce a preocupação em laboratórios de IA de que a concorrência esteja levando empresas de tecnologia a uma corrida por modelos com capacidade de autoaperfeiçoamento, os quais correm o risco de escapar do controle humano.

O pesquisador da Anthropic, Jacob Coxon, está deixando o setor de IA devido ao receio de que as empresas estejam correndo para criar sistemas incontroláveis ​​e com capacidade de autoaperfeiçoamento.

Coxon acredita que nenhuma empresa consegue desenvolver inteligência artificial geral de forma responsável sem intervenção governamental ou uma desaceleração coordenada do setor.

A saída ocorre no momento em que a Anthropic se prepara para uma oferta pública inicial (IPO), buscando uma avaliação de mercado de US$ 2 trilhões.

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Um pesquisador da Anthropic está deixando o setor de inteligência artificial devido ao receio de que o laboratório e seus concorrentes estejam correndo para construir sistemas que não conseguirão controlar — um sinal de preocupações crescentes com a segurança nas principais empresas de IA.

Jacob Coxon, pesquisador especializado no treinamento de novos modelos de IA por meio do processamento de vastas quantidades de dados, afirmou na terça-feira que está deixando a empresa por não querer participar de uma corrida generalizada do setor para criar sistemas de IA capazes de se autoaperfeiçoar; ele teme que tais sistemas possam escapar do controle e destruir a humanidade.

O britânico de 27 anos, que estudou matemática, disse que muitos de seus colegas do setor agora usam termos como "crunchtime" (período de pressão intensa/reta final) e "endgame" (fase final decisiva) para descrever a trajetória em direção a modelos com capacidade de autoaperfeiçoamento.

"Estamos caminhando para muitos dos cenários mais agressivos, nos quais, até o final do próximo ano, a situação já poderia estar fora de controle", disse Coxon, acrescentando que concessões em termos de segurança são inevitáveis ​​quando empresas competem entre si e com startups chinesas emergentes.

A Anthropic não comentou imediatamente a saída. O CEO Dario Amodei e outros líderes da empresa alertaram repetidamente sobre os riscos de modelos de IA que fogem ao controle e instaram o setor a desacelerar o desenvolvimento.

Após Coxon anunciar sua saída, um cientista sênior da empresa, Evan Hubinger, escreveu na rede social X que concordava com Coxon sobre os riscos do desenvolvimento de IA.

"Nós realmente acreditamos, de forma genuína, que a IA pode matar todos os humanos! Pessoalmente, acho que a probabilidade é superior a 10% na próxima década", escreveu Hubinger. “Acredito que a Anthropic está fazendo o possível, mas ainda não temos um plano para resolver a questão do alinhamento da superinteligência e não estamos claramente no caminho certo para isso.” Outros também reforçaram essa visão.

Na quarta-feira, o governador de Illinois, JB Pritzker, respondeu a Coxon no X, afirmando que é hora de “soar o alarme” sobre a necessidade de controlar a IA.

“A ameaça que a IA representa para a humanidade está ficando mais clara; por isso, exijo uma ação imediata do setor e de Washington”, escreveu no X o democrata, que é um possível candidato à presidência em 2028.

Coxon disse que deixou a OpenAI no início deste ano para se juntar à Anthropic, pois a empresa é conhecida por seus esforços em segurança de modelos. No entanto, embora considerasse genuínos os esforços de segurança da Anthropic, ele agora acredita que nenhuma empresa consegue desenvolver de forma responsável uma IA capaz de superar humanos em diversas tarefas — o que às vezes é chamado de inteligência artificial geral — sem intervenção governamental ou uma desaceleração coordenada do setor.

Casos recentes de invasões envolvendo modelos da OpenAI e da Anthropic — alguns operando em enxames colaborativos de agentes — ilustraram como sistemas de IA podem adotar objetivos maliciosos e tentar ocultá-los dos humanos. Coxon teme que, uma vez que os sistemas comecem a evoluir por conta própria, eles possam avançar a ponto de recusar comandos.

A saída de Coxon é um dos primeiros exemplos de um funcionário da Anthropic deixando a empresa devido a receios sobre a segurança da IA. Um pesquisador da área de segurança deixou a empresa no início deste ano para estudar poesia, alertando que “o mundo está em perigo”.

Vários pesquisadores deixaram a OpenAI e outras empresas recentemente, bem como em anos anteriores, citando preocupações semelhantes. A Anthropic construiu uma das maiores plataformas de IA, em parte ao afirmar que prioriza o desenvolvimento responsável da tecnologia e investe pesadamente na área.

Líderes do setor vêm alertando que os recentes ataques cibernéticos são um sinal de alerta. Na semana passada, a OpenAI informou a jornalistas que seu modelo mais recente representava a inteligência artificial geral e um grande salto em termos de capacidades.

“Acho que algumas coisas vão dar muito errado na área de segurança cibernética se as pessoas não agirem com bastante urgência”, disse o CEO da OpenAI, Sam Altman, a autoridades do G20 na semana passada, durante uma cúpula na Carolina do Norte. “Este é um momento que exige extrema cautela. Preocupa-me que ninguém esteja preparado para as consequências de uma ascensão rápida e contínua da inteligência de máquinas”, escreveu Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, em uma publicação no blog no domingo, defendendo uma desaceleração coordenada do setor e a intervenção governamental.

Coxon, Pachocki e Amodei juntaram-se a mais de 1.000 pesquisadores de IA de toda a indústria que assinaram recentemente uma declaração pedindo coordenação governamental global em torno de um sistema para desacelerar o desenvolvimento da IA, caso seja necessário um “freio” para controlar modelos capazes de se aprimorar por conta própria. 

Quanto às regulamentações federais de IA, a administração Trump tem priorizado uma abordagem de baixa intervenção para maximizar os benefícios econômicos da tecnologia — um cenário que, segundo críticos, poderia levar a ataques cibernéticos em larga escala ou outros danos.

O senador Bernie Sanders (Independente de Vermont) e o deputado Greg Casar (Democrata do Texas) — parlamentares progressistas que estão entre os poucos a propor salvaguardas para a IA — apresentaram, na semana passada, uma proposta legislativa para banir permanentemente a superinteligência e suspender o desenvolvimento de modelos até que um órgão regulador do setor estabeleça novas regras.

A saída de Coxon ocorre no momento em que a Anthropic se prepara para uma oferta pública inicial (IPO) que deve figurar entre as maiores da história. A empresa busca uma avaliação de mercado de US$ 2 trilhões e tem enfatizado o desenvolvimento responsável da tecnologia ao atrair investidores. Amodei e outros líderes da empresa já entraram em conflito com a administração Trump e com outros executivos em diversas ocasiões, devido a práticas que, segundo eles, não priorizam a segurança da IA.

A Anthropic utiliza um canal no Slack para que os funcionários discutam as capacidades avançadas de seus modelos, afirmou Coxon, descrevendo essa prática como um reflexo da grande influência que as empresas de IA exercem sobre o desenvolvimento do setor.

“É meio insano que isso tenha que acontecer nos MacBooks de alguns engenheiros que vivem em São Francisco, em vez de em um bunker no deserto, como aquele onde conduziram o Projeto Manhattan”, disse Coxon.

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Publicado na edição impressa de 10 de setembro de 2026, do WSJ, com o título 'Pesquisador de IA da Anthropic pede demissão'.

12 setembro 2026

IA: As 24 novas regras para ter sucesso no trabalho

EMIL LENDOF/WSJ
A notícia divulgada nesta semana sobre o alerta alarmante de um pesquisador da Anthropic a respeito da IA ​​gerou grande repercussão. 

Por todo o mundo, o assunto ganhou força espalhando-se de grupos de mensagens e encontros sociais até os corredores do poder. Muitos repórteres mostraram como esses receios chegaram ao grande público, enquanto o colunista Ben Cohen analisou uma área onde o potencial da IA ​​está se tornando evidente: seu avanço acelerado na matemática, campo no qual os sistemas estão realizando feitos que especialistas acreditavam que levariam muito tempo para acontecer.

No entanto, todo esse papo apocalíptico sobre IA pode desmotivar qualquer um diante da rotina de trabalho. Por isso, o WSJ preparou um guia com 24 novas regras para se alcançar o sucesso no mercado de trabalho atual. Foram ouvidos especialistas para obter dicas sobre tudo: desde como conseguir um aumento e lidar com um chefe sobrecarregado até como tornar os jantares de trabalho mais agradáveis ​​e manter-se à frente da IA. Eis o guia:

As 24 novas regras para ter sucesso no trabalho

1. Como convencer seu chefe a lhe dar um aumento — quando ninguém está recebendo um ...

Sabemos que você consegue demonstrar que entregou resultados. Mostre que tem confiança de que fará isso novamente e que não está sendo "ganancioso ou ameaçador", diz Jon McNeill, membro do conselho da Lululemon que liderou milhares de funcionários como presidente da Tesla até 2018.

"Acho que o que realmente desagrada um chefe é quando as pessoas chegam tentando exercer pressão: passando a mensagem de que, se as exigências delas não forem atendidas, elas irão para outro lugar. Você acaba transformando a relação em algo puramente transacional, basicamente mercenário", diz McNeill, que também é cofundador da empresa de capital de risco DVx Ventures.

2. Uma lição aprendida após pedir um aumento a Jeff Bezos

Ann Hiatt trabalhou para Bezos na Amazon em seu primeiro emprego após a faculdade.

Quando trabalhava na Amazon, Ann Hiatt foi recrutada pela Microsoft para atuar como assistente de um vice-presidente sênior. Ela não tinha intenção de sair, mas levou a proposta a Jeff Bezos e perguntou se ele poderia igualá-la. "Olhando para trás, sinto um grande constrangimento, pois lembro muito claramente dele deslizando aquele papel de volta para mim e dizendo apenas: 'Tudo bem'. Percebi que ele estava realmente decepcionado comigo." Ela trabalhava diretamente com Bezos, mas admite que não havia demonstrado claramente o que faria para justificar o aumento salarial.

Ela aconselha abordar o assunto do aumento com pelo menos seis meses de antecedência — ou até um ano antes. Descreva as responsabilidades que seu gestor pode esperar que você assuma e as tarefas que ele poderá delegar a você. "Se você disser: 'Vou voltar a falar com você daqui a seis meses para apresentar meus resultados, e ficará evidente para nós dois que já conquistei esse aumento e já estou desempenhando o papel necessário'", conseguirá um "sim" com bastante facilidade, afirma ela. Além disso, se você expuser claramente o que deseja e essa oportunidade não estiver disponível, é melhor saber disso e dedicar os seis meses seguintes a elaborar um plano de ação para os próximos passos da sua carreira, diz Hiatt, que também foi a primeira chefe de gabinete do Google e hoje atua como consultora de liderança.

3. Minha gerente está sempre ocupada. Como posso aproveitar ao máximo 10 minutos do tempo dela?

Vivemos uma era de austeridade, com hierarquias mais enxutas e uma carga de trabalho maior para os gerentes de nível intermediário que permanecem na empresa.

“Cada minuto com sua gerente é limitado; portanto, pare de gastá-lo com questões administrativas que ela poderia ter lido em uma mensagem no Slack”, diz Natalie Marshall — criadora, fundadora e consultora conhecida nas redes sociais como *Corporate Natalie*, e ex-consultora da Deloitte.

Chegue à reunião com uma pauta organizada por prioridade, e não em ordem cronológica. Se você começar com “assuntos burocráticos rápidos” e deixar a solicitação principal para o 25º minuto, terá perdido a oportunidade da reunião.

Escreva uma proposta de resposta abaixo de cada pergunta. Não apresente um mistério à sua gerente; entregue um rascunho e permita que ela o edite.

Torne tudo descomplicado: algo simples, claro e com prazos codificados por cores. Ninguém jamais se arrependeu de facilitar o trabalho de sua gerente.

4. Se você é um gerente de nível intermediário sobrecarregado

Force-se a dar um passo atrás e pergunte: o que você está realmente tentando fazer? O que merece o seu foco? — diz Robert Gaudette, CEO da NRG Energy (sediada em Houston), que passou 25 anos subindo na hierarquia antes de assumir o cargo máximo no início deste ano. Se você trabalha duro nas coisas erradas, "é esforço desperdiçado".

5. O que fazer se você for um chefe interino

Aja com autoridade, mas tenha em mente que um sucessor permanente chegará em breve — diz Mitch Daniels, presidente interino da Universidade Purdue e ex-governador de Indiana. "Liguei para um ex-reitor muito experiente — e mais velho que eu — que já havia atuado como interino algumas vezes. Perguntei: 'Devo simplesmente avaliar a situação e depois aconselhar a próxima pessoa? E se eu encontrar coisas que precisam ser encerradas ou pessoas que não estão apresentando bom desempenho?' O conselho dele foi agir sobre essas questões, resolvê-las logo, para deixar o menor número possível de problemas para o próximo ocupante do cargo."

6. Você está no elevador e o CEO entra. O que você diz?

“Apresente-se, cumprimente-me, olhe nos meus olhos e conte-me no que você está trabalhando. Algumas semanas atrás, peguei o elevador com um grupo de estagiários. Eles se apresentaram, falaram um pouco sobre si mesmos — na medida do possível durante uma viagem de elevador — e depois me perguntaram: ‘E então, como foi o seu dia? Em que tipo de coisas você estava trabalhando?’ Eles demonstraram muito interesse e curiosidade intelectual.” Chris Nassetta, presidente e CEO da Hilton

“Aproveitando a oportunidade, quero apenas que saiba que estou trabalhando neste projeto. Sou muito grata pela oportunidade, pois acredito que ele realmente gera valor para a empresa e me ajuda a desenvolver habilidades.” Melanie Foley, vice-presidente executiva da Liberty Mutual Insurance

7. Destaque-se em uma reunião híbrida – Quando você é apenas um pontinho na tela

"Apresente-se antes de falar, certifique-se de que vejam o seu nome. Às vezes, em videoconferências, as pessoas estão em uma mesa grande e alguém faz uma apresentação. Eu penso: Isso é muito bom, mas não faço ideia de quem é essa pessoa", diz Hanneke Faber, CEO da Logitech.

"Se o seu regime é híbrido, é melhor você estar no escritório três dias por semana. A tela não é o lugar para se destacar", diz Valerie Capers Workman, diretora de recursos humanos da Empower Pharmacy.

8. Três autoridades da moda opinam sobre o nível de casualidade permitido

Molly Rogers, figurinista dos filmes "O Diabo Veste Prada", da série "Sex and the City" e de sua sequência, "And Just Like That..."

"Ninguém quer ouvir o barulho de um salto pesado batendo no piso de madeira toda vez que você sai da sua mesa. Leve em consideração o ambiente em que você trabalha e o quanto você interage com os outros ao longo do dia."

Tim Gunn, autor e acadêmico, mais conhecido como o mentor perspicaz do programa de competição de moda "Project Runway".

"Se você olha para o seu visual e pensa: 'Ah, isso combina bem com um bar esportivo', provavelmente não é a roupa adequada para o escritório."

Tory Burch, presidente do conselho e diretora criativa da marca de moda Tory Burch

"Em áreas criativas, não existe isso de 'casual demais'. Não estou defendendo o desleixo. Cada escritório é diferente, mas vestir-se é uma questão de individualidade — ou deveria ser."

9. Você pode recuperar o seu entusiasmo

Para espantar o marasmo, convide um colega talentoso para um café, proponha uma troca de ideias e busquem formas de trabalhar juntos. O convite pode ser simples: "Quero aprender e crescer para fazer um trabalho melhor — e uma maneira de fazer isso é fortalecer relacionamentos com pessoas como você", diz Carole Robin, que durante décadas ministrou o lendário curso "Touchy Feely" na Stanford Graduate School of Business. "Coloque-se em mais situações onde você vá aprender coisas novas; assim, não ficará entediado." 

10. Maneiras gratuitas de despertar alegria

Segundo o restaurateur Will Guidara

Não almoce olhando para a tela do computador. Convide alguém do escritório para fazer uma refeição rápida de 15 minutos sentado à mesa. Muitas vezes, deixamos a busca pela perfeição atrapalhar o que é bom. Até mesmo sentar-se de frente para um colega por um breve momento ajuda a criar proximidade. "Se você estiver esperando por aquela janela de uma hora para finalmente se conectar com alguém com quem trabalha, vai esperar muito tempo."

Para energizar a equipe, promova trocas de presentes divertidas e inusitadas (estilo "amigo da onça" ou *white elephant*), e não apenas nas festas de fim de ano. Ou disponibilize uma caixa — física ou virtual — onde as pessoas possam expressar gratidão pelos colegas. Antes de uma reunião de equipe, reserve 10 minutos para ler essas mensagens.

"É muito mais divertido ir trabalhar quando você está cercado de pessoas com quem realmente gosta de conviver", disse ele. "Os gestores precisam, simplesmente, ser bons anfitriões." Will Guidara, coproprietário do restaurante Eleven Madison Park, em Nova York, e autor do livro *Unreasonable Hospitality*.

11. Uma proposta para acabar com a tirania do jantar de trabalho de três horas

Todos nós já passamos por isso: aquele jantar de trabalho em que a salada chega, mas o restante da refeição demora horas para aparecer, obrigando você a manter conversas superficiais, longas e constrangedoras com o estranho sentado ao seu lado. O executivo de tecnologia Barry McCardel não aguenta mais essa situação e propõe um novo pacto social: nenhum jantar de trabalho deve durar mais de duas horas.

O CEO da Hex, uma plataforma de análise de dados com IA, publicou no X algumas "reformas baseadas no bom senso":

Coquetel de, no máximo, 45 minutos

Todos sentados para o jantar às 18h30

Todas as entradas servidas de uma só vez

Intervalo máximo de 10 minutos entre os pratos

Sobremesa na mesa, no máximo, às 20h

"Essa é a minha proposta de política", disse ele em uma entrevista, rindo. "Todo mundo pensa da mesma forma."

12. Como superar a IA em 2026

Segundo Adam Grant, sua especialização pode se tornar obsoleta amanhã. Você não se diferencia mais pelo simples acúmulo de fatos.

A habilidade ou capacidade diferencial é: você consegue reconhecer padrões? Consegue dar sentido a uma grande quantidade de informações díspares? Consegue identificar quais perspectivas são confiáveis ​​e quais não são?

O julgamento humano vai se sobrepor à especialização humana. Uma coisa que consigo fazer e a IA não, é exercer a verdadeira criatividade. Talvez isso signifique que a criatividade humana esteja mudando, tornando-se muito menos dependente da geração de ideias e muito mais da seleção e do desenvolvimento delas.

Tenho a hipótese de que as pessoas estão ficando cada vez mais céticas em relação a informações escritas. Vou fazer um pequeno experimento: em vez de enviar e-mails com ideias para as pessoas com quem normalmente me comunico assim, vou ligar para elas diretamente (sem contato prévio). Quero ver se o que aprendo é diferente e se o vínculo que criamos também muda.

Adam Grant é professor na Wharton School of Business da Universidade da Pensilvânia e autor do livro a ser lançado "Vibe: The Secrets of Strong Connections in a Lonely World".

13. Meu analista continua entregando trabalhos de baixa qualidade feitos por IA. O que devo fazer?

Seja direto, diz Jason Wenk, fundador e CEO da Altruist. No final do ano passado, ele abordou um funcionário dizendo: "Você não gastou mais do que 15 segundos nisso. Não é para isso que a IA serve".

Wenk conta que chega a receber várias versões de um mesmo trabalho geradas por IA, pois os colegas acionam o chatbot individualmente. "É algo penoso."

14. Diga algo original sobre IA em uma festa neste outono

Debata o incidente da Hugging Face, sugere Ethan Mollick, autor do livro a ser lançado "Co-Existence: The Next Phase of AI" e diretor do Generative AI Labs na Wharton School da Universidade da Pensilvânia.

O que você precisa saber: em julho, modelos de IA desenvolvidos pela OpenAI escaparam de um laboratório de testes ao tentar burlar uma avaliação de segurança e invadiram uma plataforma de IA chamada Hugging Face. Os modelos “começaram a se coordenar e ficaram obcecados com a forma como seriam avaliados”, diz ele.

“Por um lado, é algo muito curioso. Por outro, eles romperam as barreiras de segurança de duas das empresas mais protegidas que existem. Então, é um assunto interessante para se debater.”

15. Melhore o uso da IA ​​na sua própria vida

“Pense na IA como algo que passa por fases”, diz Mollick. Até pouco tempo atrás, estávamos na “fase dos chatbots: você pergunta algo à IA e ela lhe dá a resposta. É como uma busca no Google com esteroides”, afirma.

“Essa era está chegando ao fim, embora a maioria das pessoas não saiba disso”, diz ele. “Agora, vivemos um momento em que os agentes de IA são uma realidade e você pode delegar tarefas reais a eles. Eles preencherão formulários escolares, usarão seu computador, lerão seus e-mails e tomarão providências em seu nome.”

16. Como reagir quando um amigo é demitido...

Não envie uma mensagem genérica do tipo “Avise-me se eu puder ajudar!”. Em vez disso, ofereça apresentações a pessoas específicas da sua rede de contatos. Entre em contato mais de uma vez. Marque um café. “Deixe a pessoa falar”, diz Anna Tavis, executiva de RH com longa trajetória e atual chefe do departamento de gestão de capital humano da NYU. “Ajude-a a começar a pensar nos próximos passos.”

… e o que não dizer

A mensagem que deve ser evitada é aquela que minimiza a situação, sugerindo que isso não importa. Porque importa, diz Daniel Lozano, CEO da Kindworks.ai, uma empresa de software corporativo que busca promover a gentileza no ambiente de trabalho. Deixe claro que a demissão não foi culpa da pessoa. Lozano afirma que o ritmo das mudanças corporativas é tão acelerado que os cortes atuais, muitas vezes, não são pessoais.

17. Como controlar o ciúme quando um colega é contratado pela Anthropic antes do IPO

Só as faixas salariais anunciadas ultrapassam US$ 850.000 para alguns cargos na Anthropic — sem contar as participações acionárias oferecidas. Como lidar com aquele sentimento inevitável de inveja? Lembre-se de que esta provavelmente não é a sua única chance de ser contratado por um laboratório de ponta ou por uma empresa de tecnologia de grande destaque, diz Aline Lerner, CEO da Interviewing.io, uma plataforma de recrutamento na área de tecnologia. "Esta é apenas uma de uma série de oportunidades", afirma ela. A Anthropic e a OpenAI, observa Lerner, têm demonstrado tendência a contratar pessoas que já possuem conexões com as empresas. Ela defende a empatia em relação a quem não conta com esse tipo de rede de contatos. Para os profissionais qualificados para atuar em empresas de tecnologia de elite, é provável que existam muitas outras oportunidades atraentes à espera, diz ela. "Não acredito que essa seja uma situação de vida ou morte para a carreira."

18. Você tem o mesmo emprego há muito tempo? Renove-o.

Concentre-se em qualquer oportunidade de melhorar de forma inequívoca em algo valioso para o seu empregador, diz Cal Newport, professor de ciência da computação da Universidade de Georgetown e autor de "Deep Work". Repita esses esforços continuamente e encontre maneiras de dedicar mais parte do seu dia a essas tarefas.

Fazer isso bem abre oportunidades de ascensão e cria condições para você assumir o controle da sua vida profissional. E, segundo ele, alcançar a maestria traz realização pessoal.

19. Você deveria simplesmente pedir demissão?

NÃO.

A conta é simples: não faça isso. Não deixe um emprego antes de ter outro. É mais fácil conseguir um emprego quando você já tem um.

Se você está realmente irritado no trabalho, a melhor vingança é conseguir um emprego melhor, sair de forma elegante e viver uma vida excelente. Scott Galloway, professor clínico de marketing na Stern School of Business da NYU, empreendedor de mídia, podcaster e autor.

20. Sinalize que você quer uma mudança

"Se você trabalha para mim e eu não sei aonde você quer chegar, não tenho como ajudá-lo a chegar lá. Acho impressionante quantas pessoas não reservam um tempo para ter essa conversa", diz Guidara, o restaurateur.

Um alerta de Guidara: não faça isso na sua segunda semana de trabalho. Evite parecer impaciente ou alguém que se acha no direito de exigir algo. "Você precisa acompanhar a passagem das estações na função que ocupa antes de conquistar a possibilidade de crescer a partir dela."

21. Busque um feedback mais claro

Se você não consegue um novo emprego, o feedback pode ajudá-lo a identificar formas de se desenvolver e ir além. "Você deve fazer a pergunta de uma maneira muito específica", diz Kim Scott, consultora corporativa e ex-executiva do Google. Evite perguntas que possam ser respondidas apenas com "sim" ou "não". Uma pergunta de que ela gosta: "O que posso fazer para tornar mais fácil trabalhar comigo?"

22. Como saber se você corre risco de ser demitido

Determinar quem entra na lista de demissões é um processo notoriamente confuso e, geralmente, falho. Ainda assim, nos últimos anos, alguns padrões surgiram.

O seu grupo está sem recursos financeiros há algum tempo — um sinal de que os executivos estão priorizando outros departamentos? Seu trabalho concentra-se em coordenação ou análise — tarefas que os CEOs querem cada vez mais delegar à IA? Você trabalha em uma microequipe, com poucos subordinados diretos a um único gestor?

23. Destaque-se em um trabalho que você não ama

Arianna Huffington, Fundadora e CEO da Thrive Global

“Você encara a permanência em um trabalho que não ama de uma forma muito diferente quando não age a partir do medo e do desespero.”

24. A palavra final sobre como ter sucesso hoje

“Você precisa aprender a liderar por influência e ser um excelente membro de equipe. Acho que todos nós nos lembramos de trabalhos em grupo no ensino médio, na faculdade ou na pós-graduação, e de como uma ou duas pessoas sempre pareciam ser o motor desses grupos. Não apenas por saberem o que fazer, mas por saberem como impulsionar o projeto e carregar o time nas costas”, diz Jim Lanzone, CEO do Yahoo. “Isso é exatamente igual no ambiente de trabalho, independentemente de você estar em um nível júnior ou sênior. E essas pessoas são raras. Garanto a você: elas são muito conhecidas dentro da empresa, em todos os níveis, e não há um padrão comum em suas trajetórias. É uma questão de perfil e caráter. E essas pessoas tendem a ir muito longe.”