Boa leitura.
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Carta ao Leitor
"Nós não temos mais Constituição no Brasil. Temos 11 constituições ambulantes.” A frase, dita em 2023 pelo ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados Aldo Rebelo, é o retrato do Brasil destes tempos estranhos.
Nesta terça-feira, 15, contudo, o Supremo Tribunal Federal conseguiu superar-se. E produziu o momento mais vergonhoso da história do Judiciário. Teoricamente, a sessão extraordinária decidiria se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro, estrela do maior escândalo financeiro do país. Na prática, nenhum ministro citou pelo menos uma das 52 mensagens enviadas a Moraes pelo banqueiro.
Algumas delas estão no artigo de Adalberto Piotto:
“Acha que segunda já tenho de estar fora?”, pergunta Vorcaro, calculando o melhor momento de fugir do país.
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? (…) Ele não consegue segurar isso? (…) E com Andrei, dá pra segurar?”, insiste o banqueiro, referindo-se — com a intimidade de quem pode chamá-los pelo prenome — ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreve poucas horas antes de ser preso, tentando embarcar para Malta, de onde seguiria para Dubai.
“Estamos juntos sempre você sabe que tenho gratidão da minha vida a você toda a minha família. funcionários parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo”, confessa Vorcaro.
Durante as quase oito horas de sessão, também não foi mencionado o contrato de R$ 131 milhões — revisado por Moraes —, que o dono do Master firmara com o escritório de advocacia da mulher do ministro. Nem a “experiência completa para convidados ultra vips” da qual o casal Moraes participou em um hotel de luxo de Campos do Jordão — com diárias que começam em R$ 4 mil. Muito menos as seis ligações de Moraes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para saber sobre o andamento da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Esses e outros episódios da relação de evidente amizade entre Vorcaro e Moraes podem ser relembrados na linha do tempo que complementa a reportagem de Uiliam Grizafis.
Como não se declarou impedido de julgar a si mesmo, Moraes jurou que o banqueiro passou o tempo todo falando sozinho. Como Augusto Nunes descreve na reportagem de capa desta edição, tal justificativa dada poderia ter saído de um livro de realismo fantástico. A mesma defesa havia sido apresentada pelo ministro horas antes do início da sessão, num documento de 44 páginas e mais de 50 erros de português detalhados no texto de Eliziário Goulart Rocha.
A tropa de choque de Moraes, formada por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, trabalhou em sintonia. Cristyan Costa, que acompanhou a sessão de dentro do plenário, conta que alguns deles riam enquanto Mendonça falava. Outros sequer olhavam para o relator do Master. No intervalo, Gilmar e Dino gargalhavam no cafezinho em meio à confusão.
O tempo de fala de cada ministro dá uma ideia de quem dominou a sessão. Tirando Fachin, que comandava o circo e discorreu por 1h20, Dino, Gilmar, Moraes, Zanin e Dias Toffoli falaram, juntos, 2 horas e 48 minutos. Somadas, as falas de Cármen Lúcia, André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques não chegaram a 1 hora.
“Em resumo”, escreve Eugênio Esber, “na sessão acompanhada pelo mundo inteiro e especialmente por investidores que só colocam seu dinheiro em países com segurança jurídica e compliance, o Brasil e o STF enviaram um alerta vermelho. Aqui, a corrupção é tolerada”.
Alexandre Garcia completa a cena ao citar Fausto, de Goethe. Vorcaro, no papel de Mefistófeles, percebia quem era venal, quem estava à venda, e os comprava com mulheres, viagens, uísque e charutos, ou dinheiro, “tudo a granel”. Os vendidos “perdem, então, a alma; não perdem o caráter que não têm”, conclui.
Edson Fachin observava tudo com expressão abobalhada. O presidente do STF permitiu ataques pessoais, foi desrespeitado em vários momentos e deixou de exercer a autoridade esperada do cargo. Esber observa que, fazendo jus ao apelido interno de “Frachin”, o ministro deixou a sessão chegar tropegamente ao fim sem decidir nada e sem sequer apresentar uma previsão de quando o fará.
O pedido de vista de Flávio Dino, feito depois de já ter votado, foi a pá de cal no mínimo de credibilidade que restava à Corte. Ao não agir no dia 15 de setembro, o STF acaba de transferir a decisão para todos os brasileiros. E ela precisa ser tomada no próximo 4 de outubro.
Boa leitura.
Branca Nunes
Nesta terça-feira, 15, contudo, o Supremo Tribunal Federal conseguiu superar-se. E produziu o momento mais vergonhoso da história do Judiciário. Teoricamente, a sessão extraordinária decidiria se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro, estrela do maior escândalo financeiro do país. Na prática, nenhum ministro citou pelo menos uma das 52 mensagens enviadas a Moraes pelo banqueiro.
Algumas delas estão no artigo de Adalberto Piotto:
“Acha que segunda já tenho de estar fora?”, pergunta Vorcaro, calculando o melhor momento de fugir do país.
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? (…) Ele não consegue segurar isso? (…) E com Andrei, dá pra segurar?”, insiste o banqueiro, referindo-se — com a intimidade de quem pode chamá-los pelo prenome — ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreve poucas horas antes de ser preso, tentando embarcar para Malta, de onde seguiria para Dubai.
“Estamos juntos sempre você sabe que tenho gratidão da minha vida a você toda a minha família. funcionários parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo”, confessa Vorcaro.
Durante as quase oito horas de sessão, também não foi mencionado o contrato de R$ 131 milhões — revisado por Moraes —, que o dono do Master firmara com o escritório de advocacia da mulher do ministro. Nem a “experiência completa para convidados ultra vips” da qual o casal Moraes participou em um hotel de luxo de Campos do Jordão — com diárias que começam em R$ 4 mil. Muito menos as seis ligações de Moraes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para saber sobre o andamento da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Esses e outros episódios da relação de evidente amizade entre Vorcaro e Moraes podem ser relembrados na linha do tempo que complementa a reportagem de Uiliam Grizafis.
Como não se declarou impedido de julgar a si mesmo, Moraes jurou que o banqueiro passou o tempo todo falando sozinho. Como Augusto Nunes descreve na reportagem de capa desta edição, tal justificativa dada poderia ter saído de um livro de realismo fantástico. A mesma defesa havia sido apresentada pelo ministro horas antes do início da sessão, num documento de 44 páginas e mais de 50 erros de português detalhados no texto de Eliziário Goulart Rocha.
A tropa de choque de Moraes, formada por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, trabalhou em sintonia. Cristyan Costa, que acompanhou a sessão de dentro do plenário, conta que alguns deles riam enquanto Mendonça falava. Outros sequer olhavam para o relator do Master. No intervalo, Gilmar e Dino gargalhavam no cafezinho em meio à confusão.
O tempo de fala de cada ministro dá uma ideia de quem dominou a sessão. Tirando Fachin, que comandava o circo e discorreu por 1h20, Dino, Gilmar, Moraes, Zanin e Dias Toffoli falaram, juntos, 2 horas e 48 minutos. Somadas, as falas de Cármen Lúcia, André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques não chegaram a 1 hora.
“Em resumo”, escreve Eugênio Esber, “na sessão acompanhada pelo mundo inteiro e especialmente por investidores que só colocam seu dinheiro em países com segurança jurídica e compliance, o Brasil e o STF enviaram um alerta vermelho. Aqui, a corrupção é tolerada”.
Alexandre Garcia completa a cena ao citar Fausto, de Goethe. Vorcaro, no papel de Mefistófeles, percebia quem era venal, quem estava à venda, e os comprava com mulheres, viagens, uísque e charutos, ou dinheiro, “tudo a granel”. Os vendidos “perdem, então, a alma; não perdem o caráter que não têm”, conclui.
Edson Fachin observava tudo com expressão abobalhada. O presidente do STF permitiu ataques pessoais, foi desrespeitado em vários momentos e deixou de exercer a autoridade esperada do cargo. Esber observa que, fazendo jus ao apelido interno de “Frachin”, o ministro deixou a sessão chegar tropegamente ao fim sem decidir nada e sem sequer apresentar uma previsão de quando o fará.
O pedido de vista de Flávio Dino, feito depois de já ter votado, foi a pá de cal no mínimo de credibilidade que restava à Corte. Ao não agir no dia 15 de setembro, o STF acaba de transferir a decisão para todos os brasileiros. E ela precisa ser tomada no próximo 4 de outubro.
Boa leitura.
Branca Nunes
Diretora de Redação
Desesperadora nossa situação!
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