Translate

05 outubro 2026

Pesquisas eleitorais: quando o erro deixa de ser exceção e passa a exigir explicações

As eleições brasileiras vêm colocando os institutos de pesquisa diante de um problema que já não pode ser tratado apenas como uma sucessão de episódios isolados. Quando levantamentos realizados às vésperas das urnas apresentam diferenças relevantes em relação ao resultado efetivamente apurado — sobretudo quando essas diferenças parecem favorecer repetidamente um mesmo lado da disputa —, é legítimo perguntar se os métodos utilizados continuam conseguindo captar adequadamente um eleitorado cada vez mais complexo. A comparação entre 2018 e 2026 é especialmente interessante.

2018

Em 29 de setembro de 2018, a Folha de S.Paulo estampou a manchete reproduzida na primeira imagem: “Haddad vai a 22%; Bolsonaro perde de todos no 2º turno”. O Datafolha apontava Jair Bolsonaro com 28% e Fernando Haddad com 22%, mas projetava Bolsonaro derrotado nos diferentes confrontos de segundo turno. O levantamento havia entrevistado 9 mil eleitores e tinha margem de erro de dois pontos percentuais. Pouco mais de um mês depois, a realidade eleitoral seria diferente: Bolsonaro venceria a eleição presidencial.

2026
O problema torna-se mais delicado quando observamos 2026.

Na véspera do primeiro turno, o Datafolha mostrava Lula com 45% dos votos válidos, contra 42% de Flávio Bolsonaro, embora caracterizasse corretamente o quadro como empate técnico, diante da margem de erro de dois pontos. Outros levantamentos também apresentavam Lula numericamente à frente. Em 29 de setembro, por exemplo, Atlas/Bloomberg registrava Lula com 45,3% contra 42,2% de Flávio; Quaest havia apontado 39% contra 34%.

As urnas de 4 de outubro, porém, inverteram essa ordem. Com praticamente todas as urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, com cerca de 47% contra 45% dos votos válidos.

É justamente aí que a discussão precisa sair do terreno das paixões partidárias e entrar no campo da metodologia.

Não basta dizer simplesmente que “a pesquisa estava dentro da margem”

A margem de erro é importante, mas não explica tudo. Ela representa principalmente a incerteza amostral associada ao levantamento. Existem outras fontes de erro que podem ser muito mais difíceis de medir: seleção inadequada da amostra, não resposta, dificuldade para localizar determinados segmentos do eleitorado, ponderações estatísticas, diferenças entre entrevistas presenciais, telefônicas e digitais e mudanças de opinião ocorridas depois da coleta.

Existe ainda um problema particularmente importante: quem aceita responder a uma pesquisa pode não ter exatamente o mesmo comportamento político de quem se recusa a responder. Se determinado grupo social ou político estiver sistematicamente sub-representado, aumentar simplesmente o número de entrevistados não necessariamente elimina o viés.

Por isso, é importante distinguir duas coisas.

Uma pesquisa isolada errar é perfeitamente possível e estatisticamente esperada. Uma sequência de pesquisas apresentar desvios semelhantes merece investigação metodológica.

E 2026 oferece material para isso. Os institutos não produziram exatamente o mesmo diagnóstico: alguns mostravam Lula à frente, outros empate e alguns Flávio Bolsonaro numericamente à frente. Na véspera da eleição, nove levantamentos apresentavam resultados diferentes e cinco deles eram tecnicamente empatados. Portanto, seria exagerado afirmar que “todos os institutos erraram” ou que todos cometeram o mesmo erro.

Mas também seria precipitado encerrar a discussão dizendo simplesmente que pesquisas são apenas “fotografias do momento”.

Pesquisa não é profecia — mas também não pode ser imune à cobrança

É correta a defesa feita pelos institutos de que pesquisas eleitorais não são previsões, mas estimativas da preferência dos entrevistados em determinado período. O próprio material do Datafolha de 2026 apresenta margem de erro e informações metodológicas, como deve ocorrer.

Entretanto, existe um limite para esse argumento.

Se pesquisas influenciam manchetes, estratégias partidárias, financiamento de campanhas, formação de alianças, comportamento de eleitores e a própria percepção pública sobre quem está crescendo ou perdendo uma eleição, então os institutos possuem enorme responsabilidade.

Não basta publicar números antes da eleição. É igualmente importante auditá-los depois dela.

Quando as urnas revelam diferenças importantes, cada instituto deveria apresentar publicamente uma espécie de autópsia metodológica: onde acertou, onde errou, quais segmentos foram subestimados, como funcionaram suas ponderações e o que será modificado na eleição seguinte.

Isso fortaleceria — e não enfraqueceria — a credibilidade das pesquisas.

O caso brasileiro exige transparência

As duas imagens, separadas por oito anos, levantam portanto uma questão maior do que simplesmente “pesquisas erram”.

A pergunta correta é: por que determinados erros parecem reaparecer?

Se houver recorrência estatisticamente demonstrável de subestimação de determinado eleitorado, os institutos precisam descobrir sua origem. Pode estar na amostragem, na distribuição geográfica dos entrevistados, na escolaridade, renda, religião, forma de contato, taxa de resposta, comparecimento efetivo às urnas ou na dificuldade de identificar eleitores que decidem o voto nos últimos momentos.

O que não se deve fazer é saltar automaticamente do erro para a acusação de manipulação. Erro metodológico e fraude são coisas completamente diferentes, e uma acusação dessa gravidade exigiria evidências próprias.

Mas o extremo oposto também é inadequado: tratar qualquer discrepância como irrelevante porque “pesquisa é apenas uma fotografia”.

Pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos valiosos para compreender a sociedade. Mas sua autoridade não pode decorrer simplesmente do nome do instituto, do tamanho da amostra ou da tradição acumulada. Ela precisa ser continuamente conquistada pela capacidade de medir a realidade, reconhecer falhas e aperfeiçoar métodos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário