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14 outubro 2026

Broken China: How the Economic Miracle Shattered and What It Means for the World

 

Por José Carlos Cavalcanti
Professor
Departamento de Economia
Universidade Federal de Pernambuco
Recife, 05/10/2026

Este talvez seja um dos mais interessantes livros a serem lidos em 2026. Seu título: “Broken China: How the Economic Miracle Shattered and What It Means for the World”. Escrito por Logan Wright, e publicado pela Polity em 2026. Tem 272 páginas e é, fundamentalmente, uma análise da desaceleração econômica da China através da lente de seu sistema financeiro e ciclo de crédito — e não principalmente através de demografia, geopolítica ou ideologia de Xi Jinping.

Dada sua extensão, bem como sua profundidade, examinaremos o livro comentando dezesseis tópicos.

1. A tese central do livro

O argumento de Wright pode ser reduzido a uma proposição:

“O modelo de crescimento da China se tornou limitado pelo próprio sistema financeiro que antes impulsionava sua expansão extraordinária.”

A China não passou por uma desaceleração cíclica convencional. Segundo Wright, o país viveu uma enorme expansão de crédito que sustentou investimento, infraestrutura, setor imobiliário e atividade estatal. Mas, quando a economia acumulou dívida demais em relação às oportunidades produtivas, o crédito deixou de gerar o mesmo crescimento.

O problema não é simplesmente “dívida demais”. É que “o sistema financeiro chinês se tornou incapaz de realocar capital para novos usos produtivos”. Essa distinção é crucial.

2. Como a China chegou aqui

Wright começa com o notável sucesso do desenvolvimento pós-1978. O mecanismo básico foi o seguinte:

repressão financeira (*) → alta poupança → bancos estatais → investimento → exportações/infraestrutura → rápido crescimento da produtividade

Os bancos mobilizavam a enorme poupança das famílias e a direcionavam para setores favorecidos.

Isso funcionou extremamente bem enquanto a China tinha: enorme potencial de urbanização; grande reserva de mão de obra subempregada; produtividade em rápida ascensão; forte demanda externa; grandes necessidades de infraestrutura; e demanda imobiliária em expansão.

Nesse ambiente, o investimento gerava altos retornos. O problema surgiu quando o retorno marginal do investimento começou a cair.

( *) A repressão financeira se refere à implementação de políticas por parte do governo para canalizar fundos domésticos para o setor público que, num ambiente de mercado desregulado, iriam para outros setores.

3. O sistema financeiro se tornou o problema

Este é provavelmente o capítulo mais importante.

Wright argumenta que o sistema financeiro chinês se tornou cada vez mais dependente da criação de crédito para sustentar o crescimento. A sequência foi aproximadamente:

crescimento liderado por investimento ↓ expansão do crédito ↓ queda dos retornos ↓ mais crédito para manter o crescimento ↓ tomadores de crédito cada vez menos produtivos ↓ rolagem de dívidas em vez de resolução ↓ sistema financeiro preso às estruturas existentes

O resultado é uma forma de “esclerose financeira”.

Ao invés de reconhecer perdas e mover capital para novos setores produtivos, o sistema frequentemente rola empréstimos antigos. Isso mantém os tomadores vivos — mas também aprisiona o capital.

4. Por que o setor imobiliário importa tanto

O setor imobiliário se tornou uma das principais manifestações desse processo. Ele conectava:

famílias → imóveis → incorporadoras → governos locais → bancos → infraestrutura

Governos locais dependiam de receitas relacionadas à terra. Incorporadoras dependiam de crédito. Bancos dependiam de garantias imobiliárias. Famílias tratavam imóveis como reserva de valor. Logo, corrigir a bolha imobiliária se tornou extremamente difícil. O dilema:

permitir perdas → instabilidade financeira vs. Evitar perdas → preservar má alocação de capital

Wright argumenta que Pequim tem escolhido cada vez mais a segunda opção.

5. A ideia importante: a China não necessariamente enfrenta um “colapso”

Wright não prevê principalmente uma crise financeira súbita. Seu argumento é mais sutil:

“A China pode permanecer estável enquanto experimenta uma deterioração prolongada de dinamismo econômico”.

Ou seja: estagnação, não colapso.

O Estado chinês tem enorme capacidade de evitar uma crise bancária clássica. Ele controla: grandes bancos; fluxos de capital; política monetária; grande parte do setor corporativo; governos locais; regulação financeira.

Assim, pode continuar rolando dívidas problemáticas e suprimindo instabilidade. Mas o custo é produtividade mais baixa.

6. Por que as ferramentas de política estão se tornando menos eficazes

Este é talvez o ponto conceitual mais forte de Wright. A China ainda possui muitos instrumentos de política — mas sua eficácia marginal está caindo. São eles:

Afrouxamento monetário: Se famílias e empresas não querem mais dívida, reduzir juros não gera investimento.

Estímulo fiscal: Mais infraestrutura gera retornos decrescentes quando já há excesso de capacidade.

Expansão de crédito: Se novos empréstimos apenas refinanciam dívidas antigas, a produtividade não aumenta.

Política industrial: Pode gerar sobrecapacidade quando a demanda doméstica é insuficiente.

Isso cria um círculo vicioso:

mais estímulo → retornos menores → mais dívida → produtividade fraca → necessidade de mais estímulo

7. O problema do consumo

Wright enfatiza a fraqueza do consumo das famílias chinesas. A recomendação convencional é:

“A China deve reequilibrar de investimento para consumo.”

Mas isso é muito difícil. As famílias poupam por causa de: redes de proteção social fracas; preocupações com riqueza imobiliária; incerteza demográfica; insegurança no emprego; poucas alternativas de poupança; e características do sistema financeiro.

Portanto, simplesmente pedir que consumam mais não resolve o problema institucional. E a China não consegue substituir facilmente investimento por consumo.

8. Xi Jinping e a centralização

Wright não ignora a política. Ele argumenta que a centralização crescente sob Xi Jinping cria novos limites. O problema não é “autoritarismo” em abstrato.

É que a centralização reduz a capacidade de: reconhecer erros de política; permitir falências; realocar recursos de setores politicamente favorecidos; e experimentar arranjos institucionais alternativos.

Isso gera o seguinte paradoxo:

“A capacidade estatal é enorme, mas a intervenção pode impedir a reestruturação necessária.”Na newsletter passada iniciamos uma resenha do livro “Broken China: How the Economic Miracle Shattered and What It Means for the World” (cuja tradução é o título desta newsletter), escrito por Logan Wright, e publicado em 2026. O livro é, fundamentalmente, uma análise da desaceleração econômica da China através da lente de seu sistema financeiro e ciclo de crédito — e não principalmente através de demografia, geopolítica ou ideologia de Xi Jinping.

9. Por que as exportações se tornam cada vez mais importantes

Se a demanda doméstica é fraca e o investimento permanece alto, a China tem incentivo para empurrar produção para mercados externos. A lógica é:

demanda doméstica fraca + alta capacidade produtiva = pressão exportadora

Isso conecta os problemas financeiros domésticos ao conflito comercial global. Os setores afetados:

  • veículos elétricos;
  • baterias;
  • painéis solares;
  • máquinas;
  • equipamentos industriais;
  • manufatura avançada.

A questão não é apenas competitividade. É que a China precisa externalizar sua capacidade excedente.

10. Por que tarifas não resolvem o problema

Se o problema é excesso de capacidade, restringir importações em um mercado apenas redireciona exportações para outro.

Possível dinâmica:

tarifas dos EUA → exportações chinesas para Europa/emergentes → tensões comerciais → fragmentação global

11. O livro desafia a narrativa de “plano mestre” da China

Wright argumenta que a situação atual não é fruto de um plano de longo prazo impecável. Em vez disso:

“A China tomou decisões racionais no curto prazo que produziram consequências cumulativas problemáticas.”

O sistema se tornou dependente de:

investimento → crédito → imóveis → finanças locais → infraestrutura → crescimento

E agora é difícil escapar.

12. O que Wright quer dizer com “China quebrada”

O termo “quebrada” não significa colapso. Significa:

“O mecanismo anterior de transformar recursos financeiros em crescimento rápido deixou de funcionar”

A economia chinesa ainda tem enormes forças:

  • capacidade industrial;
  • infraestrutura;
  • capital humano;
  • capacidades tecnológicas;
  • grande mercado doméstico;
  • capacidade estatal;
  • redes globais de manufatura.

Mas o motor de crescimento mudou — e não pode ser simplesmente reiniciado.

13. A arquitetura analítica do livro

Representação simplificada:

poupança alta → bancos estatais → expansão de crédito → imóveis/infraestrutura/indústria → crescimento → retornos menores → excesso de capacidade → dívida → rolagem → má alocação → produtividade menor → crescimento fraco → demanda fraca + pressão exportadora → tensões globais

14. Relação com Michael Pettis (*)

Há grande sobreposição entre Wright e Pettis.

Pettis: A China suprime consumo e direciona recursos para investimento, gerando excesso de poupança e desequilíbrios externos.

Wright: O sistema financeiro é o mecanismo que transforma essa poupança em crédito — e agora é o principal obstáculo ao ajuste.

São análises complementares.

15. Conexão nossa discussão sobre o “China squeeze” (**)

Se Wright está certo, o surto exportador da China pode ser:

a manifestação externa de um desequilíbrio doméstico não resolvido.

desequilíbrio financeiro → excesso de investimento → capacidade excedente → absorção doméstica insuficiente → dependência de exportações → tensões externas

16. Importância do livro

A contribuição de Wright é financeira, não geopolítica. O insight mais útil:

“O sistema financeiro chinês evoluiu de motor de acumulação para mecanismo de preservação da alocação existente.”

Isso levanta a questão:

“A China pode reestruturar sua economia sem reconhecer perdas enormes?”

Wright é cético. Ele conecta:

modelo de crédito → retornos decrescentes → capacidade excedente → superávits externos → resistência global → ajuste forçado → implicações para poupança global e financiamento do Tesouro dos EUA

Assim, o livro Broken China não é apenas sobre a China — é sobre como sua desaceleração pode ter consequências globais muito diferentes das de uma recessão convencional.