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13 agosto 2026

Cuba celebra o centenário de Fidel Castro

Cuba está promovendo uma festa de uma semana para celebrar o centenário de Fidel Castro — que ocorre nesta quinta-feira — com apresentações de balé, poesia e mais de 300 trabalhos acadêmicos e painéis de discussão sobre o impacto do "Pensamento de Castro" em áreas que vão da educação e ciência até o esporte.

Centenas de representantes de partidos de esquerda e comunistas de todo o mundo vieram celebrar o homem que governou Cuba por quase cinco décadas antes de sua morte, em 2016. Fora dos locais das conferências, no entanto, há poucos motivos para comemoração.

Montanhas de lixo se acumulam nas ruas de Havana; algumas pilhas são incendiadas por moradores que protestam contra suas condições de vida. O fornecimento de eletricidade e água é interrompido por dias a fio. A economia está em ruínas.

"Estão homenageando o homem que matou o país", disse Luis Fonseca, trabalhador braçal e aspirante a barbeiro que descarrega caminhões em um mercado na Havana colonial. Ele e seus amigos não sabiam nada sobre a comemoração. "Ninguém está falando sobre isso."

Boris Gonzalez, escritor e historiador, acordou recentemente sem eletricidade nem água. Sua filha de 20 anos estava doente com dengue. "As pessoas não estão nem aí para o evento", disse ele. "Ninguém fala de Fidel. Já superamos isso."

A ironia é inegável: Cuba celebra o centenário do homem que prometeu um paraíso revolucionário enquanto luta para manter a luz acesa sob sanções crescentes dos EUA.

Esse contraste é exatamente o que o regime quer ocultar. Durante uma semana, Havana tentou resgatar os dias de glória da revolução de Castro, organizando uma celebração internacional em meio à pior crise econômica das últimas décadas. O governo quer passar a impressão de que está tudo bem, afirmou a jornalista independente cubana Yoani Sánchez em seu blog.

"Este evento é um exemplo extraordinário de necrofilia política — uma celebração de ideias mortas, ideias zumbis que não funcionam", disse Moisés Naím, analista do Carnegie Endowment for International Peace. Abrindo as festividades, o presidente Miguel Díaz-Canel exaltou a trajetória de Castro como um exemplo para revolucionários e prometeu resistir à agressão dos EUA. Suas palavras foram recebidas com aplausos pelos 1.500 convidados presentes no Palácio de Convenções de Havana, incluindo delegados de partidos comunistas de países que vão do Chile à China.

"Como Fidel disse mais de uma vez, estamos prontos para resistir ao bloqueio imperialista por quantos anos forem necessários", afirmou Díaz-Canel.

Alguns ex-líderes latino-americanos de esquerda prestaram homenagens a Castro. "Para a minha geração de latino-americanos, Fidel foi um símbolo vivo da luta por justiça social, liberdade e soberania", declarou Dilma Rousseff. Esta vive no mundo da lua ao contrário de escritores que lá viveram.

Enquanto isso, falhas no fornecimento de energia interromperam a transmissão de televisão e rádio e o acesso à internet, deixando poucos cubanos a par das celebrações.

Castro, que tinha o apelido de "El Caballo" (O Cavalo), ainda conta com admiradores, principalmente entre os cubanos mais velhos. Algumas pessoas que aguardam em filas para comprar alimentos dizem sentir falta da liderança de um homem que percorria a ilha com seu característico uniforme militar verde e cuja memória permanece marcante.

"Você ouvirá pessoas dizendo que isso não estaria acontecendo se Fidel estivesse vivo", disse Carlos Alzugaray, embaixador cubano aposentado.

No entanto, Alzugaray ressaltou que a maioria dos cubanos tem outras prioridades. "Eles só querem que a luz volte", afirmou.

Não existem estátuas de Castro em Cuba. Tampouco há ruas, escolas ou prédios governamentais que levem o seu nome — uma proibição imposta por ele logo após suas forças guerrilheiras derrubarem Fulgencio Batista, em 1959.

“Não existe culto à personalidade em torno de nenhum revolucionário vivo”, disse Castro em 2003. “Os líderes deste país são seres humanos, não deuses.”

Ele não seguiu exatamente o seu próprio conselho.

Castro construiu um enorme culto à personalidade. Outdoors por toda a ilha ainda o mostram de uniforme de camuflagem, fuzil na mão, liderando a revolução. O *Granma*, jornal do Partido Comunista, mantém a imagem dele na página inicial de seu site. “Fidel nunca nos deixará”, diz a publicação.

O impacto de Castro estendeu-se muito além de Cuba.

Ele transformou a pequena ilha em uma potência geopolítica. Castro promoveu movimentos guerrilheiros por toda a América Latina e aproveitou sua aliança com a União Soviética para enviar dezenas de milhares de soldados cubanos para a África. Após a queda da União Soviética, ele se tornou uma figura influente na Venezuela, país rico em petróleo. Durante décadas, foi o adversário mais obstinado de Washington.

Mesmo agora, operando no limite de suas forças, Cuba continua sendo um pesadelo para Washington. No mês passado, o Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório notável de 99 páginas que classificava a ilha como uma ameaça singular à segurança nacional, ainda empenhada — sob a influência de Castro — em “conquistar os vizinhos Estados Unidos”.

“Chame de megalomania, genialidade, loucura, audácia, irresponsabilidade, o que quiser”, disse Jorge Castañeda, ex-chanceler do México que chegou a entrar em conflito com Castro. “Mas não há dúvida de que ele transformou Cuba em um ator global — a um custo enorme para os cubanos, que ainda pagam o preço.”

Apesar de todas as suas habilidades geopolíticas, Castro impôs teorias econômicas absurdas internamente. Ele buscou criar um “Homem Novo” altruísta e tentou abolir o dinheiro. Nacionalizou empresas, destruiu a economia de Cuba e deixou a ilha dependente, primeiro da União Soviética e, depois, da Venezuela.

Suas estratégias frequentemente beiravam o absurdo. Castro era obcecado pela ideia de clonar Ubre Blanca, uma vaca leiteira campeã, para acabar com a escassez crônica de leite gerada por suas próprias políticas agrícolas. Quando a vaca morreu, o *Granma* publicou seu obituário na primeira página, e uma estátua de mármore dela foi erguida. Seus restos embalsamados ainda estão em exposição. Castro chegou a cogitar a criação de vacas em miniatura para que as famílias de Havana as mantivessem em casa. As vacas minúsculas nunca se tornaram realidade.

“A história me absolverá”, disse Castro em um discurso famoso no qual se defendia após o ataque fracassado a um quartel militar em 1953.

Isso é cada vez mais questionável.

“A história não o absolverá”, disse Gonzalez, o historiador. “Espero que não repitamos o erro que perdura há quase 70 anos.”

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