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20 setembro 2026

DA "MINUTA DO GOLPE" AO "RELATÓRIO DE INTELIGÊNCIA"

Neste domingo, 20 de setembro de 2026, vem ao público o pronunciamento de vários jornalistas que já fizeram história em lutas pela democracia brasileira. Como já se publicou aqui mesmo neste Blog, ontem e hoje, o que se disse na revista Oeste e no Estadão, segue abaixo mais um artigo vindo do sul, especificamente do Percival Puggina. O tema, claro, é o mesmo: 15 de setembro, o lamaçal em que se encontra o Supremo Tribunal Federal.

Boa leitura.

 

DA "MINUTA DO GOLPE" AO "RELATÓRIO DE INTELIGÊNCIA"

Percival Puggina
20 setembro de 2026
Aprendi há muitos anos de um padre amigo esta singela expressão de lúcida sabedoria: “Ninguém dá o que não tem”. No mais deplorável momento da história do Poder Judiciário brasileiro, a sessão plenária do STF no dia 15 de setembro, a ministra Cármen Lúcia me fez lembrar dessa frase. Examinar a própria consciência e pedir perdão é conduta virtuosa que só pode ser servida por quem tem. Parabéns à ministra.
Era um desses momentos que se definem pela expressão “Salve-se quem puder”, nos quais as pessoas costumam dar o melhor de si com vistas à própria salvação. Os olhos de milhões de brasileiros acompanhavam horrorizados o mal, em sua feiura, manipular instrumentos jurídicos com extrema belicosidade. Queriam impedir o julgamento de um membro da Corte.
Olhos nas telinhas da liberdade de expressão, parecia-me rever uma versão compacta, dos julgamentos do 8 de janeiro. Na condição de um entre 200 milhões de ditadorezinhos, assisti aquelas sessões com a impressão de que os ministros, de algum modo, eram parte interessada nas deliberações. Lembro que cheguei a usar a expressão “amicus curiae” para caracterizar o tom dado aos votos que emitiam. Para mim, era uma impressão que fazia sentido, pois os ministros precisavam proteger a própria narrativa sobre “o golpe”, numa unanimidade que resistiu por longos meses até surgirem as primeiras fissuras.
Enfim, na tarde do dia 15, com a contribuição dos ministros indicados pelo atual governo Lula, para completar a terrível cena como eu a percebi, eis que ressurge, sob nova forma, um fantasma de janeiro de 2023. O papel então decisivo e supostamente devastador desempenhado pela tal Minuta do Golpe – uma minuta vadia de um decreto qualquer – agora é atribuído a um incerto Relatório de Inteligência cuja serventia, ao que se diz, vem negada no próprio documento.
Foi essa percepção que me levou a pensar sobre o que cada um tem para dar nos momentos decisivos. Ver que uns, são dados a estratagemas, outros a proteger seus mitos, outros a manipular o poder de que dispõem, outros a manter atitude corajosa, outros a fugir da cena, outros a mergulhar na própria consciência e pedir desculpas à nação. Que tais consciências, em algum momento, sirvam para a anistia dos presos do dia 8 de janeiro e para o triunfo da justiça como valor moral e como instituição para servir à sociedade.
Sirvam estes dias para que cada um, no ofertório dos votos em 4 de outubro, ofereça ao Brasil e seu povo o que de melhor esteve ao nosso alcance para a tarefa de separar o joio do trigo na democrática lavoura da representação popular.