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02 abril 2024

Lei de Moore - de 1965 aos dias atuais

Em fevereiro/2024, expoentes da indústria de tecnologia se reuniram em San Jose - CA, durante a Conferência Avançada de Litografia e Padronização da SPIE, para elogiarem Gordon Moore, cofundador e primeiro CEO da Intel, falecido em 24/03/2023, aos 94 anos de idade. A maioria dos discursos teceu reflexões sobre Moore – com testemunhos de seu gênio, realizações e humanidade. 

No legado deixado por Moore, é bastante conhecida a "Lei de Moore” desde que afirmou que o número de transistores em um circuito integrado dobra (ou mais) a cada dois anos. Em essência, isso significa que os fabricantes de chips estão sempre tentando encolher os transistores, para incluí-los, cada vez mais, em um microchip. Hoje as dimensões dos transistores são medidas em alguns nanômetros.

 
Intel Co-Founder Gordon Moore Dies
Data do upload: 24 de mar. de 2023

Martin van den Brink

Para mostrar o quão grande foi a manutenção da Lei de Moore, Martin van den Brink, CTO da ASML, referiu-se ao problema do arroz e do tabuleiro de xadrez , no qual o número de grãos de arroz - um substituto para os transistores - é duplicado a cada passo sucessivo. 

O crescimento exponencial no número de transístores que podem ser colocados num chip desde 1959 significa que um único grão de arroz naquela altura tornou-se agora o equivalente a três navios-tanque, cada um com 240 metros de comprimento, cheios de arroz. É muito arroz! No entanto, a Lei de Moore obriga a ASML – obriga toda a indústria tecnológica – a continuar a avançar. Cada era da computação, mais recentemente a da IA, trouxe exigências crescentes, explicou van den Brink. Por outras palavras, embora três camiões-cisterna cheios de arroz possam parecer muito, amanhã precisaremos de seis. Depois 12. Depois 24. E assim por diante, completou. 

Nos últimos anos, as máquinas da ASML impediram que a Lei de Moore falhasse. Hoje, elas são as únicas no mundo capazes de produzir circuitos na densidade necessária para manter os fabricantes de chips no caminho certo. É a premissa da própria Lei de Moore, disse van den Brink, que impulsiona a indústria, ano após ano.

A tecnologia da ASML, sempre foi ao encontro para atender às demandas, graças ao investimento da empresa na criação de ferramentas capazes de produzir características cada vez mais refinadas: as máquinas de litografia de ultravioleta extremo (EUV) que ela lançou amplamente em 2017, máquinas EUV de abertura numérica (alto NA) que está lançando agora, e as máquinas EUV hiper-NA que esboçou para o futuro.

Hoje em dia, quando falamos sobre computação, tendemos a falar sobre software e os engenheiros que o escrevem. Mas não estaríamos em lugar nenhum sem o hardware e as ciências físicas que permitiram sua criação – disciplinas como óptica, ciência dos materiais e engenharia mecânica. É graças aos avanços nessas áreas que podemos fabricar os chips nos quais residem todos os 1 e 0 do mundo digital. Sem eles, a computação moderna teria sido impossível. 

A litografia semicondutora, processo de fabricação responsável pela produção de chips de computador, tem raízes de 70 anos. A sua história de origem é tão simples quanto o processo atual é complexo: a tecnologia começou em meados da década de 1950, quando um físico chamado Jay Lathrop virou as lentes do seu microscópio de cabeça para baixo.

Jay Lathrop passou os verões das décadas de 1970 e 1980
 trabalhando com seu amigo Jack Kilby em tecnologias solares.
BIBLIOTECAS SMU

Lathrop, que morreu no ano passado aos 95 anos, dificilmente é lembrado hoje. Mas o processo de litografia que ele e seu parceiro de laboratório patentearam em 1957 transformou o mundo. A melhoria constante nos métodos litográficos produziu circuitos cada vez menores e quantidades anteriormente inimagináveis ​​de poder computacional, transformando indústrias inteiras e nossas vidas diárias. 

Hoje a litografia é um grande negócio com pequenas margens de erro. A líder mundial, a empresa holandesa ASML, é também a maior empresa de tecnologia da Europa em capitalização de mercado, e seus chips feitos com as ferramentas de litografia ultraavançadas citadas acima, podem ser encontrados em seu telefone, PC e nos data centers que processam e lembram nossos dados.

Uma pastilha de silício é mostrada abaixo de um retículo
Um tipo especial de fotomáscara que contém padrões
usados ​​para fabricar circuitos integrados.

Máquina de litografia - ASML

O futuro

A próxima grande ideia para ASML, de acordo com van den Brink e outros executivos da empresa. é a tecnologia hiper-NA ((Numerical Aperture). As máquinas de alto NA da empresa têm uma abertura numérica de 0,55. As ferramentas Hyper-NA teriam uma abertura numérica superior a 0,7. O que isso significa, em última análise, é que o hiper NA, se for bem-sucedido, permitirá à empresa criar máquinas que permitem aos fabricantes reduzir ainda mais as dimensões dos transistores – presumindo que os pesquisadores possam desenvolver componentes de chip que funcionem bem em dimensões tão pequenas.

No entanto, embora hoje todos apostem na ASML para continuar a impulsionar a indústria, há especulações de que um concorrente poderá emergir da China . Van den Brink rejeitou esta possibilidade, citando a lacuna até mesmo na litografia de última geração. “Sinto-me bastante confortável de que levará muito tempo até que eles possam copiar isso”.

29 julho 2023

A automação da destruição humana

Em seu primoroso livro, "IBM e o Holocausto", seu autor, Edwin Black, nos brindou com um texto com registros de um condenável período no qual milhões de pessoas morreram, com destaque para o assassinato de 6 milhões de judeus. 

A obra é o resultado de quase uma década de pesquisas, iniciadas em 1993 e concluídas em 2001, após uma visita que ele fez ao Museu do Holocausto, em Washington, EUA, quando se deparou com uma máquina IBM Hollerith D-11, de classificação de cartões perfurados, ocupando lugar de destaque, mas com apenas uma pequena explicação de que a IBM foi a responsável pela organização do recenseamento alemão de 1933, o primeiro a identificar judeus. 

Edwin ficou indignado com tão pouca informação e prometeu aos seus pais que o acompanhavam, ambos sobreviventes do Holocausto, que descobriria mais fatos. É o que está relatado em seu livro de quase 600 páginas, do qual alguns parágrafos da introdução estão expostos a seguir, com o propósito de chamar atenção de que a destruição humana, ocorrida há 90 anos, já contou com a ajuda da automação e, principalmente, que essa ajuda não se encerrou. Ao contrário, está cada vez mais presente, incluindo a composição de listas de pessoas que deverão ser punidas, inclusive aqui no Brasil. 

                                                                       ****

[ ... ] "A obsessão do Führer pela destruição dos judeus contou com os poderes da automação. Hitler não o fez sozinho. Teve ajuda.

[ ... ] A polícia ignorava seus deveres para proteger vilões e perseguir vítimas. Juristas pervertiam conceitos de justiça para formular leis anti-semitas. Médicos conspurcavam a arte da medicina para perpetrar os mais pavorosos experimentos e até selecionavam os mais saudáveis para trabalhar até a morte - identificando os que, por uma questão de eficácia em relação ao custo, deveriam ser enviados para as câmaras de gás.

[ ... ] Cientistas e engenheiros aviltavam as mais nobres vocações, concebendo instrumentos e explicações para a destruição. E estatísticos recorriam à sua disciplina ainda pouco conhecida, mas poderosa, para identificar as vítimas, projetar e racionalizar os benefícios da mortanidade, organizar a perseguição e até mesmo auditar a eficiência do genocídio. E nesse ponto entram a IBM e suas subsidiárias no exterior.

[ ... ] A humanidade mal se deu conta de quando surgiu discretamente o conceito de organização maciça de informação para se transformar em ferramenta de controle social, em arma de guerra e em manual de orientação para a destruição em massa.

[ ... ] Durante o Terceiro Reich, a cruzada de Hitler foi vigorosamente ampliada e energizada pela engenhosidade e ambição pelo lucro de uma única empresa americana e de seu lendário e autocrático chairman. A empresa foi a IBM e o chairman, Thomas J. Watson.

[ ... ] Quando Hitler assumiu o poder, um dos objetivos centrais do nazismo era identificar e destruir os 600.000, imaginados inicialmente, judeus da Alemanha. Contudo, a pesquisa de sucessivas gerações de registros comunitários, paroquiais e governamentais em toda a Alemanha - e depois em toda a Europa - tornou-se uma tarefa tão monumental de indexação cruzada que demandava auxilio de computadores. Igualmente para a identificação e destruição de seus bens, para transferí-los para os guetos e campos de concentração em vagões e para as câmaras de gás já em prontidão. 

[ ... ] A logística era missão tão complexa que também requeria computadores. Mas em 1933, ainda não existia computador.

[ ... ] Porém, havia uma outra invenção: o cartão perfurado e o sistema de classificação de cartões (máquina Hollerith) da IBM. A subsidiária da empresa, na Alemanha, com o conhecimento da sede em Nova York, a Dehomag, usando seu próprio staff e equipamentos, projetou, produziu e forneceu a assistencia técnica indispensável  de que o Terceiro Reich de Hitler necessitava para realizar o que jamais fora feito antes - a automação da destruição humana.

Máquina Hollerith Alemã
USHM Museum, Washington, USA


Cartão perfurado para mão-de-obra escrava
National Archives

Cartão perfurado para o Escritório de Raça da SS
National Archives

[ ... ] Durante os doze anos da existência do Reich, a sede da IBM recebeu informações diárias sobre parte desses atos. Mesmo quando a legislação americana tornou ilegais essas operações, o escritório da IBM na Suíça transformou-se em elo de ligação, proporcionando à sede em NY, informação contínua.

[ ... ] Quem acreditar que de algum modo o Holocausto não teria ocorrido sem a IBM está redondamente enganado. O Holocausto teria prosseguido - e muitas vezes foi adiante - apenas com munição, marchas fúnebres e massacres resultantes de perseguições movidas a lápis e papel.

[ ... ] Mas há razões para examinar os fantásticos números atingidos por Hitler na matança de tantos milhões de seres humanos, com tanta rapidez, e analizar o papel crucial da automação e da tecnologia no genocídio.

[ ... ] Muitos de nós ficamos fascinados pela era da computação e pela era da informação. Sou uma dessas pessoas. Mas hoje estou dominado por uma nova percepção que, para mim, filho de sobreviventes do Holocausto, significa toda uma nova consciência.

[ ... ] Chamo-a de Era da Compreensão, à medida que olhamos para trás e observamos a onda da tecnologia. 

[ ... ] A não ser que compreendamos como os nazistas adquiriram os nomes dos judeus, novas listas serão compostas, contra outras pessoas", nos diz Edwin Black.

                                                                      ****

Contudo, pelos fatos com os quais estamos convivendo em pleno século XXI, diversas lideranças políticas aprenderam e estão reproduzindo, diariamente, os ensinamentos e as experiências nazistas, utilizando, para isso, toda a tecnologia de automação hoje disponível.