Há crise na economia do país que está provocando pessimismo nos consumidores, e agora não só os do setor imobiliário. Já há quase uma década que essa crise tem vazado para o mundo como revelado neste post de 2021: "China: furos, megalomania e reversão".

No momento atual, crescem as preocupações econômicas nas pessoas da China, inclusive sobre aquelas que têm emprego e renda estável. Publicados em outros países já é possível se encontrar relatos de pessoas físicas. Alguns deles são mostrados a seguir.
- Vivian Wei está encerrando seu negócio. Após mais de uma década atuando como recrutadora de talentos (headhunter), o trabalho praticamente desapareceu. As grandes empresas de tecnologia chinesas, que antes pagavam a Wei para recrutar centenas de engenheiros, agora estão, na verdade, demitindo funcionários.
Wei, de 46 anos, estima que sua renda caiu mais da metade nos últimos anos. Recentemente, ela e o marido cortaram gastos não essenciais para economizar. Antes, ela costumava gastar com produtos de cuidados com a pele, mas passou a optar por uma marca nacional mais barata.
Alguns de seus vizinhos perderam o emprego e tornaram-se motoristas da DiDi, a principal plataforma de transporte por aplicativo da China. A maior preocupação de Wei agora é se seu filho, de 12 anos, conseguirá um emprego quando crescer.
“Não sei o que o futuro reserva”, diz Wei.
Para pessoas em toda a China, as preocupações econômicas estão aumentando. A crise no setor imobiliário, que já dura anos, como citado no artigo mencionado no primeiro parágrafo deste post, não dá sinais de que terminará tão cedo; empregos estáveis estão se tornando mais raros, especialmente para os jovens; e muitas pessoas parecem estar guardando dinheiro, preparando-se para tempos ainda mais difíceis.
Isso significa que a China precisa buscar crescimento econômico no exterior — o que, por sua vez, tem elevado as tensões com seus parceiros comerciais. As exportações dispararam 36% em setembro deste ano, colocando a China no caminho para superar o recorde de US$ 1,2 trilhão em superávit comercial registrado no ano passado, impulsionadas pela crescente demanda por produtos como veículos elétricos e maquinário.
Dados publicados estão mostrando que as exportações foram o principal motor do crescimento econômico chinês este ano. O Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 4,5% no terceiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados oficiais divulgados — um avanço em relação aos 4,3% registrados no segundo trimestre e em linha com a meta de Pequim de um crescimento entre 4,5% e 5% para este ano.
Contudo, embora a China avance a passos largos em tecnologias de ponta, como inteligência artificial e robótica, grande parte de sua economia interna enfrenta sérias dificuldades. O investimento em ativos fixos — que monitora gastos com bens como residências, fábricas e estradas — caiu 7,2% nos três primeiros trimestres do ano em comparação com o mesmo período de 2025, sendo que, no setor imobiliário, a queda foi de 21%.
Os gastos dos consumidores permanecem contidos. As vendas no varejo, um indicador do consumo das famílias, subiram 1,1% em setembro — um aumento em relação aos 0,4% de agosto, mas abaixo dos 3% registrados um ano antes.
2. Li Yan, vendedora de roupas em um mercado atacadista em Pequim, afirmou que não obteve lucro no ano passado e que, este ano, as vendas caíram ainda mais. Ela vende blusões por um valor equivalente a cerca de 15 dólares cada, obtendo um lucro de apenas alguns dólares por peça. Para cobrir os custos, ela precisa vender cerca de 30 unidades por dia; na maior parte do tempo, porém, ela não consegue atingir esse patamar.
Ela também reduziu seus gastos pessoais. Antigamente, costumava se presentear com itens como joias, mas, agora, evita comprar qualquer coisa de que não precise.
“Se os negócios não vão bem e você não está ganhando dinheiro, você não vai gastar muito”, diz Li, de 52 anos. “É um círculo vicioso.”
3. Em outra parte de um mercado em Pequim, uma vendedora de artigos de couro relatou que não renova seu estoque há mais de um ano, pois ainda não conseguiu vender boa parte do lote anterior.
4. Uma comerciante de ferramentas e artigos para manutenção doméstica contou que, antigamente, suas vendas diárias chegavam a cerca de 300 dólares, mas, hoje, um “bom dia” de vendas gira em torno de 50 dólares.
Embora a taxa oficial de desemprego urbano na China tenha permanecido estável, em torno de 5%, alguns economistas acreditam que a realidade do mercado de trabalho está mascarada por um contingente crescente de trabalhadores que atuam em ocupações informais ou temporárias (o chamado *gig work*). Espera-se que o número de pessoas na China em regime de trabalho flexível — isto é, sem um contrato permanente — chegue a 320 milhões em 2026, representando mais de 40% do emprego urbano, segundo o Centro de Pesquisa sobre Novas Formas de Emprego na China, um centro de estudos.
5. Fryda Fan, amiga da recrutadora Wei, contou que sua renda como corretora de seguros permaneceu estável, em parte porque muitas pessoas estão poupando mais e destinando recursos a produtos de seguro. Ainda assim, ela substituiu alguns de seus itens de consumo diário por alternativas mais baratas, já que o futuro parece incerto.
“Fiz algumas mudanças no meu estilo de vida”, disse Fan, que optou por um café de 3 dólares na rede local M Stand, em vez de uma bebida de 6 dólares no Starbucks.
Economistas, tanto dentro quanto fora do país, têm instado Pequim a implementar políticas que estimulem o consumo e reduzam a dependência das exportações. Recentemente, as autoridades lançaram medidas como subsídios para financiamento imobiliário e novos investimentos em infraestrutura; contudo, evitaram realizar as reformas profundas e os estímulos que muitos economistas consideram necessários para reequilibrar a economia.
Um dos principais esforços de Pequim para impulsionar os gastos nos últimos anos foi um programa que oferece subsídios para que os consumidores substituam eletrodomésticos antigos e outros produtos por itens novos. A iniciativa ajudou a alavancar as vendas no varejo no ano passado, mas tem se mostrado menos eficaz este ano, uma vez que muitas famílias já realizaram compras de maior vulto.
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