
A aprovação do PL da Dosimetria na Câmara dos Deputados foi apresentada como um passo rumo à “pacificação”.
Na prática, porém, o movimento está muito distante de restaurar o Estado de Direito, devolver liberdades fundamentais ou reparar a injustiça cometida contra perseguidos políticos que ainda hoje vivem sob prisão, exílio ou restrições desproporcionais. O que está em jogo é menos jurídico e mais político — e envolve interesses distintos entre esquerda e centrão no rearranjo do poder nacional.
A resposta é simples: não há interesse político em concedê-la. A esquerda opera dentro de um projeto hegemônico, de poder concentrado, que não tolera dividir espaço nem abrir mão da narrativa construída. Não há ali uma visão democrática plural; há a intenção de manter controle.
O centrão, por sua vez, não compartilha desse projeto totalitário, mas carrega outra preocupação: a direita organizada representa uma ameaça real. Foi ela que, anos atrás, emparedou o establishment e desencadeou um terremoto político sem precedentes — que atingiu partidos, líderes e estruturas inteiras.
Por isso, o centrão deseja o apoio da direita nas próximas eleições, mas não quer Bolsonaro, nem suas principais lideranças, justamente por enxergar nelas a possibilidade de um novo abalo sísmico no sistema.
A dosimetria é, portanto, um cálculo de conveniência, não de justiça.
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