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21 junho 2025

A demolição de prédios históricos

    Em diversas cidades do mundo se faz necessário recordar a demolição de algumas edificações de valores históricos indiscutíveis. Infelizmente o Brasil está nesse grupo. E é sobre o que já aconteceu no nosso País que se irá tecer rápidas considerações.

    No Rio de Janeiro há exemplos sempre lembrados quando se discute esse tema. Entre elas duas edificações demolidas durante os anos 70, 1975 e 1976 respectivamente. 

    A primeira, o edifício da antiga sede da Faculdade de Medicina, inaugurada em 1918, situada na Av. Pasteur, na Praia Vermelha, imagens abaixo. O prédio na Praia Vermelha se tornou um importante marco arquitetônico e palco de eventos históricos, incluindo manifestações estudantis e o episódio conhecido como Massacre da Praia Vermelha em 1966. Segundo o site atual da FM, o prédio da Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha, foi demolido por força do Regime Militar (Governo Médici). 



    A segunda, a demolição do Palácio Monroe, obra prima, projetada no Brasil, construída nos EUA e trazida para o Rio. Sim, a obra foi montada e desmontada nos EUA e, sem seguida embarcada para o Rio, onde foi novamente edificada. Há diversos livros e reportagens que contam esta grandiosa epopéia. Uma delas, foi escrita por André Bernardo, para a BBC News Brasil, em outubro do ano passado., cuja cópia, na íntegra, segue após a foto abaixo. Por mera coincidência ou não, diz-se que a demolição do Palácio Monroe também foi por imposição do Regime Militar (Governo Geisel).

    Do ponto de vista mais técnico, entretanto, o fato é que os arquitetos modernistas, como Lúcio Costa, tinham uma visão negativa do ecletismo e defenderam a sua demolição para dar lugar a construções mais alinhadas com o modernismo. O arquiteto Ítalo Campofiorito, que trabalhou com Costa no Iphan, lembra da implicância dos modernistas com o Monroe. “Le Corbusier tinha horror àquele prédio, achava que tinha de ser retirado dali, porque segundo ele era um exemplo do que não se deve fazer em arquitetura”. Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, explica o pensamento do pai: “Ele fazia uma distinção entre coisas acadêmicas de boa qualidade, ou seja, merecedoras de respeito, e coisas ‘bastardas’ que ele desprezava, como o Monroe”.




Quem demoliu o Monroe? A história do mais polêmico prédio público brasileiro

    • André Bernardo
    • Role, Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil

Antes de sediar a Câmara dos Deputados, o Palácio Monroe
abrigou bailes, concertos e formaturas; o velório de Joaquim Nabuco aconteceu lá


No dia 5 de janeiro de 1976, 15 operários da Aghil Comércio de Ferro Ltda chegaram cedo para trabalhar. 

A empresa, de propriedade de Antônio Gonçalves da Silva, ganhou a concorrência para demolir o Palácio Monroe, no centro do Rio de Janeiro. 

Munidos de marretas, picaretas e britadeiras, eles não puderam dar início ao serviço, porque a Prefeitura ainda não tinha expedido a licença, mas começaram a retirar objetos de valor, como vitrais e estátuas.

Nas duas entradas do Palácio Monroe, uma na avenida Rio Branco e outra no Passeio Público, havia quatro leões de mármore: as peças foram esculpidas pelo italiano Vaccari Sonino e pesavam, cada uma delas, oito toneladas.

Quase meio século depois, dois leões enfeitam a entrada da fazenda São Geraldo, em Uberaba, município a 481 quilômetros de Belo Horizonte (MG); e dois estão no acervo do Instituto Ricardo Brennand, no Recife (PE).

Por contrato, a empresa responsável pela demolição do Monroe podia vender o que estivesse dentro dele: nem os oitos anjos de bronze que mediam três metros e pesavam cem quilos escaparam. 

Segundo matéria do Diário de Notícias, publicada em 11 de janeiro de 1976, a Aghil, empresa contratada para a demolição, faturou, só na venda de ferro e cobre, 9 milhões de cruzeiros (cerca de R$ 6,2 milhões em valores atuais, segundo calculadora do Banco Central com correção pelo IPC-Fipe).

Pela demolição, ganhou 191 mil cruzeiros (cerca de R$ 131 mil em valores atuais, segundo a mesma ferramenta de atualização monetária). A parte mais difícil da empreitada, ainda segundo o jornal, foi a retirada da cúpula, que tinha 15 metros de diâmetro e pesava 300 toneladas. 

A descida do domo principal até a Rio Branco consumiu 20 dias de trabalho e exigiu, entre outros cuidados, três guindastes e 80 operários. Aparentemente, ninguém se interessou pela compra da cúpula.

Em agosto de 1976, sete meses depois do início da demolição, não havia mais vestígios do Palácio Monroe no Centro do Rio. Para ocupar sua vaga, foi transferido, em 1979, um chafariz de fabricação francesa que se encontrava na Praça da Bandeira e tinha sido adquirido, em 1878, pelo imperador Dom Pedro II (1825-1891), em Viena. 

Em 2002, foi inaugurada, na Praça Mahatma Gandhi, uma garagem subterrânea com capacidade para 1.050 carros.

"A demolição do Monroe foi, por assim dizer, um 'assassinato' coletivo, quase um linchamento. E o palácio não teve 'morte' instantânea. Foi 'torturado' ao longo dos anos", afirma o escritor e pesquisador Carlos Eduardo Drummond, autor de Tempos Modernos – O Rio Metrópole, a Exposição de 1922 e a Incrível História do Palácio que Desapareceu Durante a Ditadura Militar (Litteris Editora, 2024).

"Minha descoberta mais surpreendente foi, sem dúvida, a ata de uma reunião localizada nos arquivos da Fundação Getulio Vargas (FGV). É revelada a criação, por ordem do então presidente Geisel, de uma campanha artificial, em jornais e revistas da época, para convencer a população de que o Palácio Monroe precisava ser demolido. É chocante porque prova a ilegalidade do ato. Se fosse um julgamento, mudaria o rumo da decisão final."

No lugar do antigo Palácio Monroe, demolido em 1976,
foi transferido um chafariz em 1979 
construído um estacionamento subterrâneo em 2002

Quem é o culpado?

A pergunta "Quem demoliu o Monroe?" já deu origem a livros (Palácio Monroe – Da Construção à Demolição, de Sérgio A. Fridman), documentários (Crônica da Demolição, de Eduardo Ades) e teses acadêmicas (Memórias, Resistências e Ressonâncias no Processo de Destruição do Palácio Monroe, de Daniel Levy de Alvarenga).

São muitas as hipóteses para a demolição do mais polêmico prédio público brasileiro da história: desde a construção do metrô até a obstrução da paisagem. 

Há quem diga, inclusive, que tudo não passou de vingança pessoal do então presidente da República, o general Ernesto Geisel (1907-1996).

Durante o governo de Juscelino Kubitschek, Geisel teria sido preterido para um cargo de confiança. Em seu lugar, JK teria escolhido Rafael de Souza Aguiar (1900-1990), filho do autor do projeto, o engenheiro Francisco Marcellino de Souza Aguiar (1855-1935).

"Não há na biografia destes dois militares indícios consistentes que reforcem a versão de que se tratava de uma rivalidade", explica o historiador Daniel Levy de Alvarenga, doutor em História, Política e Bens Culturais pela FGV/CPDOC e autor da dissertação de mestrado em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Memórias, Resistências e Ressonâncias no Processo de Destruição do Palácio Monroe (2018).

"A hipótese mais aceita e estudada pela historiografia é aquela que atribui a demolição do Monroe à ausência de valor estético e arquitetônico que justificasse sua preservação. O estilo eclético do palácio e sua desconfiguração com relação ao projeto original teriam sido os motivos determinantes para a sua destruição."

Uma das hipóteses mais recorrentes – a de que o Palácio Monroe teria sido destruído para dar lugar à estação da Cinelândia do Metrô – também é refutada. 

"O Metrô não foi a causa da demolição do Monroe. Sua rota desvia do palácio", revela o cineasta Eduardo Ades, diretor e roteirista do documentário Crônica da Demolição (2015). 

Autor de Tempos Modernos, Drummond afirma que são muitos os vilões dessa história. "Uns, com mais peso; outros, com menos", pondera. 

No topo da lista, estão o arquiteto Lúcio Costa (1902-1998) e o general Ernesto Geisel. "Os dois tinham prerrogativas técnicas e políticas suficientes para evitar a demolição." E, no entanto, nada fizeram.


O Palácio Monroe foi projetado e construído pelo engenheiro Souza Aguiar 
a pedido do presidente do Rodrigues Alves para a Exposição Universal de 1904



A joia da coroa

A história do Palácio Monroe começou em 27 de julho de 1903. Naquele dia, Souza Aguiar foi chamado ao gabinete do presidente Rodrigues Alves (1848-1919), no Palácio do Catete.

A ele, foram confiadas duas missões: presidir a comissão que representaria o Brasil na Exposição Universal de 1904 e construir o pavilhão que serviria de sede para o Brasil em Saint Louis. A exposição comemorava o centenário da compra da Louisiana pelos EUA.

Não satisfeito, o ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, Lauro Müller (1863-1926), acrescentou um terceiro pedido: terminada a exposição, o pavilhão seria reconstruído na Avenida Central, atual Rio Branco, no Rio de Janeiro, a então capital do Brasil.

Até o dia 30 de abril de 1904, data da inauguração da exposição, Souza Aguiar teria sete meses para projetar e construir o pavilhão.

Com 41 metros de comprimento e 31 metros de largura, foi um dos mais visitados de Saint Louis. Entre outros convidados ilustres, recebeu a visita do presidente dos EUA, Theodore Roosevelt (1858-1919), e do “pai da aviação”, Alberto Santos Dumont (1873-1932). Quem visitava o pavilhão degustava o cobiçado cafezinho brasileiro – foram servidas até quatro mil xícaras por dia.

A exposição chegou ao fim no dia 1º de dezembro de 1904. Dos 12 pavilhões presentes em Saint Louis, o brasileiro foi considerado o mais bonito. Ganhou do júri oficial a medalha de ouro do grande prêmio de arquitetura.

No dia 19 de novembro de 1905, já no Brasil, foi lançada a pedra fundamental do palácio, batizado de São Luiz – a versão aportuguesada de Saint Louis. O objetivo inicial do governo federal era transformá-lo em local de exposições. E a primeira delas já tinha sido até escolhida: a 3ª Conferência Pan-Americana, em 23 de julho de 1906. Pela segunda vez, Souza Aguiar teve que correr contra o relógio: teria oito meses para concluir sua reconstrução.

Na inauguração do Palácio São Luiz, o discurso de abertura foi proferido pelo Barão do Rio Branco (1845-1912) e a conferência presidida por Joaquim Nabuco (1849-1910), embaixador do Brasil em Washington. Partiu dele, aliás, a ideia de rebatizar o Palácio de Monroe, em homenagem ao ex-presidente americano James Monroe (1758-1831).

Com o fim da 3ª Conferência Pan-Americana, em 27 de agosto de 1906, o Palácio Monroe passou a abrigar os mais diversos eventos sociais, como bailes, concertos e formaturas. O velório de Joaquim Nabuco, que sugeriu a mudança de nome de São Luiz para Monroe, também foi realizado lá, em 1910.

Terminada a Exposição Universal de 1904, o Palácio Monroe 
foi reconstruído na avenida Central, atual Rio Branco, 
no Rio de Janeiro, a então capital do Brasil

Tema de exposição

O Palácio Monroe sediou a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. A Câmara dos Deputados, por oito anos, de 1914 a 1922, e o Senado Federal, por 35 anos, de 1925 a 1960. Quando o Palácio Tiradentes ficou pronto, a Câmara dos Deputados mudou de endereço. O mesmo se pode dizer de Brasília. Quando a capital do Brasil foi inaugurada, o Senado Federal foi transferido do Rio de Janeiro para o Distrito Federal.

Em 1923, quando ficou decidido que o Monroe seria a sede do Senado Federal, o palácio sofreu profundas transformações arquitetônicas. Entre outras reformas, foram instalados três elevadores, que chegaram ao Brasil a bordo do navio American Legion, em 1924.

Ao longo desses 35 anos, o Monroe foi ocupado pelo Ministério da Justiça, o Departamento de Imprensa e Propaganda e o Departamento de Ordem Política e Social, do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1937, e pelo Tribunal Superior Eleitoral, em 1945. Com a volta do regime democrático, o Senado voltou a ocupar o Monroe.

A última sessão nas dependências do Monroe foi realizada no dia 14 de abril de 1960. Com a vitória nas eleições, Juscelino Kubitschek cumpriu a promessa de transferir a sede do Senado para a recém-inaugurada Brasília.

Desde março, o Palácio Monroe é tema de uma exposição: Um Legado da Democracia, que faz parte das comemorações dos 200 anos do Senado Federal. “Era uma edificação imponente, com uma arquitetura em estilo eclético, que trazia a ideia de solidez e poder no início do século 20 e representava a nova República e a modernização do Brasil”, descreve a museóloga Luana da Conceição Martins.

“Como sede do Senado, foi palco para aprovação de importantes legislações, como o voto feminino, no início da década de 1930; as primeiras leis de proteção da criança e do adolescente, e a legislação trabalhista, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas”.

Durante 35 anos, o Senado Federal funcionou no Palácio Monroe

Ascensão e queda

Curiosamente, o palácio que, em 1904, ganhou um importante prêmio internacional de arquitetura, a ponto de merecer rasgados elogios da imprensa americana como “soberbo”, “estupendo” e “grandioso”, passou a sofrer ataques da mídia brasileira. Entre outros impropérios, foi xingado de “inútil”, “ridículo” e “desprezível”. “O Monroe representa um trambolho que nada justifica enfear o Rio”, publicou O Globo em 10 de janeiro de 1961.

“Chega a ser impressionante a trajetória do Monroe: em apenas 55 anos, passou de modelo e símbolo de civilização para um ‘trambolho’ que atrapalhava a cidade”, ironiza o historiador Daniel Levy de Alvarenga. “O que mais chama a atenção é a violência simbólica de sua demolição. Não podemos esquecer que, durante 35 anos, o Monroe foi sede do Senado Federal. Seria como demolir o Capitólio em Washington”.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) era a favor da demolição. Mesmo aposentado como chefe da divisão de estudos e tombamentos, Lúcio Costa endossou o parecer da instituição: “Perdeu toda e qualquer significação e deve ser demolido em benefício do desafogo urbano”, declarou o pioneiro da arquitetura modernista do Brasil.

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), porém, defendia sua preservação. “A memória do homem é fraca”, declarou o historiador Pedro Calmon (1902-1985). “Por isso que a história é a memória de um povo”.

O Clube de Engenharia também saiu em defesa do Monroe. “A construção tem um grande valor arquitetônico e histórico, não apresenta problemas de segurança e sua destruição não beneficiaria o tráfego local”, dizia o relatório assinado pelo engenheiro Durval Lobo (1910-2007), diretor do Departamento Técnica Especializado de Urbanismo do Clube de Engenharia.

À época, Lobo liderou um movimento, o Manifesto pela Preservação do Palácio Monroe, que contou com a adesão de 162 arquitetos, urbanistas e engenheiros, como o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994).

“Não podemos esquecer que, nos anos 1970, o Brasil vivia os horrores do golpe de 1964. Neste aspecto, considero o manifesto, mesmo não conseguindo manter o prédio de pé, um ato de coragem”, enaltece Alvarenga.

De nada adiantou

No dia 9 de outubro de 1975, Golbery do Couto e Silva (1911-1987), chefe da Casa Civil de Ernesto Geisel, enviou uma carta a Mário Henrique Simonsen (1935-1997), ministro da Fazenda, comunicando a decisão do presidente de demolir o Monroe.

A decisão foi comemorada pelo jornal O Globo

“Por decisão do Presidente da República, o Patrimônio da União já está autorizado a providenciar a demolição do Palácio Monroe. Foi, portanto, vitoriosa uma campanha deste jornal que há muito se empenhava pelo desaparecimento do monstrengo arquitetônico da Cinelândia”, publicou na edição de 11 de outubro de 1975.

A demolição do Palácio Monroe começou no dia 5 de janeiro de 1976; 
sete meses depois, já não havia mais vestígios dele na avenida Rio Branco

O próximo capítulo

À pergunta “Quem demoliu o Monroe?”, segue-se outra: “Como estaria hoje o Palácio?”. O historiador Daniel Levy de Alvarenga imagina que o Monroe poderia ser “um importante equipamento urbano de divulgação da cultura”, como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) ou o Centro Cultural Correios.

Já o cineasta Eduardo Ades acredita que, em vez do Palácio da Cidade, em Botafogo, a Prefeitura do Rio poderia funcionar no Palácio Monroe, no Centro da Cidade. “É uma pena! Se o Monroe ainda estivesse lá, a Cinelândia não estaria tão abandonada”, lamenta.

O escritor Carlos Eduardo Drummond, mais do que imaginar como o Monroe estaria hoje, sonha com sua reconstrução. “Está na hora de criar outra campanha: o da reconstrução do Monroe, bem ali no lugar original. Não há mais justificativa para ter um estacionamento subterrâneo naquela praça. E um chafariz que praticamente não é desfrutado pela população, dado o risco de furtos e assaltos, por causa do descaso e do abandono da região”.

    Para encerrar este artigo, um outro caso lamentável. A demolição do Prédio da Imprensa Nacional, demolido em 1941 para dar lugar ao alargamento urbano e modernização das vias urbanas na região central do Rio.


Fotografia de Juan Gutierrez de 1894



    Todos os casos acima estão diametralmente opostos ao que se estabeleceu em Paris, como ilustra a imagem abaixo. 


    O bairro do Recife Antigo, na capital pernambucana, também tinha uma feição eclética desde que foi reformulado, no início do século passado. Por isso, só obteve o tombamento nos anos 1990. Nesse meio-tempo, prédios antigos foram demolidos ou desconfigurados. Belo Horizonte, fundada no final do século XIX e predominantemente eclética, tampouco contou com proteção. Perdeu o Teatro Municipal e muito do casario antigo. Em Salvador, só foram tombados o centro histórico colonial e alguns exemplares de igrejas e conventos da mesma época. O centro histórico de Porto Alegre horrorizava Lúcio Costa, pela predominância da cor ocre, característica da arquitetura eclética alemã e italiana. O conjunto resistiu por sorte e só foi tombado em 2003. Antes disso, foram abaixo prédios históricos, como a antiga sede da Caixa Econômica Federal.







11 junho 2025

Edifícios altos. A Europa tem resistido e tomara que continue assim

 


    A foto acima está sendo divulgada apontando fatos para uma comparação do Parvis (pátio) da Notre-Dame de 1960 com a sua aparência prevista para 2027. O espaço em frente à catedral está sendo transformado em uma área mais acolhedora e ecologicamente correta. O pátio  remodelado incluirá áreas sombreadas com 160 novas árvores, uma fina lâmina d'água para refrescar o ar em dias quentes e um pavimento de calcário que destaca a fachada icônica da Notre-Dame. No subsolo, o antigo estacionamento se tornará um espaço cultural com livraria, café e acesso à Cripta Arqueológica.

    Tal divulgação relembra um outro aspecto importante, na medida em que planejamentos, urbano e arquitetônico, têm sido desobedecidos e ou refeitos em diversas cidades do mundo. Contudo, a Europa tem sido uma exceção.  No Brasil só Brasília tem seus planos totalmente preservados, devido ao seu tombamento como Patrimônio Cultural da Humanidade, feito pela UNESCO. Mas, aqui acolá, empresários da construção civil querem modificá-lo como já o fizeram em diversas capitais do País, a começar por São Paulo e Rio de Janeiro, destruindo os espaços antigos e não apenas criando novos em áreas adjacentes.

    De um lado estão aqueles que defendem os arranha-céus como símbolo máximo do progresso e da modernidade. Para outros, eles são como uma mancha feia no horizonte. Não se precisa de muita massa cinzenta para se saber quem tem razão, nos ensina diversas cidades do mundo, principalmente as mais famosas da Europa.

    Ora, a história nos mostra que os primeiros edifícios realmente altos de que se tem notícia foram os zigurates de tijolos de barro construídos na Suméria, onde antes ficava a Mesopotâmia e hoje é o sul do Iraque. Eram estruturas religiosas moldadas pela fusão entre a riqueza recém-acumulada e a crença em algo além da existência material. 

    Esse desejo de alcançar o céu, enquanto se celebra tanto a fortuna e o poder quanto os deuses, também deu origem às pirâmides do antigo Egito e, milênios depois, às torres das catedrais medievais. 

    A Grande Pirâmide de Gizé, concluída em 2540 a.C, reinou soberana, erguendo-se acima de todas as outras edificações, assim como a torre da Catedral de Lincoln, na Inglaterra, finalizada em 1092.

Catedral de Lincoln, na Inglaterra, foi finalizada em 1092, 
e era uma das maiores construções da época

    Mas foi no final do século 19, quando as estruturas de aço e os elevadores tornaram possível — e viável — viver e trabalhar a 300 metros de altura, que os arranha-céus começaram a surgir em Chicago e Nova YorkA corrida rumo às nuvens começou nas cidades americanas, mas, com o tempo, também em outras metrópoles ao redor do mundo. 

    Hoje, na lista dos 100 edifícios mais altos do planeta, elaborada pelo Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH), o prédio que aparece em primeiro lugar nos Estados Unidos é o World Trade Center, em Nova York. Ele ocupa o sétimo lugar, com 541 metros de altura, e é 287 metros mais baixo que o campeão: o Burj Khalifa, em Dubai. 

    Na verdade, os primeiros lugares dessa lista mostram como estados, reinos e emirados do Oriente Médio competem com a China, enquanto outros países, ansiosos por exibir sua nova riqueza, também entraram nesse jogo de números. 

A Europa, no entanto, é uma honrosa exceção

    Isso se deve a diversos fatores, mas um dos mais cruciais é que é muito mais difícil construir prédios altos na Europa por causa das regulamentações criadas para proteger o patrimônio cultural, tema observado e perseguido, por todas as suas gerações.

    Embora seja verdade que no 16º lugar da lista CTBUH apareça o Centro Lakhta, em São Petersburgo — o primeiro edifício europeu a figurar no ranking —, e que bem mais abaixo estejam três prédios em Moscou e um em Istambul, não há nenhum representante da Europa Ocidental.

O Centro Lakhta, em São Petersburgo,
com seus 462 metros de altura, é o prédio mais alto da Europa

    E mais: somente sete dos mil prédios mais altos do mundo se encontram na União Europeia. O Varso, um edifício comercial no centro de Varsóvia, na Polônia, ostenta o título de arranha-céu mais alto dessa região, mas está apenas no 179º lugar do ranking global. Depois dele vem a Torre Commerzbank, em Frankfurt, na Alemanha, que aparece na 552° posição, apesar dos seus 259 metros. 

Regulamentações rígidas

    Não é que não existam arranha-céus na Europa Ocidental, principalmente se considerarmos que, para ser classificado como um arranha-céu, um prédio precisa ter altura mínima de 100 metros.

    A região até possui alguns prédios que entram na categoria de arranha-céus "altos", com mais de 150 metros, mas são raríssimos os "super altos", que ultrapassam 300 metros, e não existe nenhum classificado como "mega alto", com mais de 600 metros. 

    E considerando que é um território rico, com pouco espaço disponível e muita gente — a Alemanha, por exemplo, tem uma densidade populacional maior que a dos Emirados Árabes, que são obcecados por arranha-céus — , era de se esperar que a Europa construísse mais prédios altos. Mas não tem sido assim, e não é por falta de conhecimento ou possibilidades. 

    Desde o início da corrida rumo ao céu, a Europa já contava com todas as competências necessárias, como demonstraram o francês Gustave Eiffel, em 1889, e o alemão Werner von Siemens, que inventou o primeiro elevador elétrico em 1880. 

As regras em Atenas, Roma e Londres

    AtenasSuas construções não podem tampar a vista do Partenon. Estão limitadas a 12 andares, a menos que estejam longe o suficiente para não impedir a visão do templo dedicado à protetora da cidade, Atena, deusa da sabedoria, da estratégia e da justiça. 

    De forma semelhante, na região central de Roma, nenhum prédio pode ultrapassar a altura da cúpula da Basílica de São Pedro, caso contrário, corre o risco de enfrentar a ira de Deus, do papa ou, pelo menos, de alguns burocratas da cidade. 

    Esse limite de 136 metros de altura foi quebrado em 2012, quando se construiu o arranha-céu "Torre Eurosky", de 155 metros. Mas ele só foi construído por estar fora da área de proibição, no distrito comercial e residencial da Exposição Universal de Roma (EUR).

A Basílica de São Pedro determina a altura máxima na zona central de Roma


    Então temos Londres. A capital britânica não é estranha aos arranha-céus. O mais alto, The Shard, ocupa o 195º lugar no ranking global, com seus 306 metros de altura. 

    Mas, apesar de Londres ter vários arranha-céus, não é tão fácil construí-los. Isso se deve, em grande parte, a uma lei de 1938, feita para proteger a Catedral de Saint Paul — ou, pelo menos, para garantir a vista do prédio, que já foi o mais alto da cidade, com 111 metros. Há oito corredores visuais protegidos que cruzam Londres, e todos eles devem preservar uma vista da catedral. Um obstáculo complicado de se contornar para quem sonha em quebrar recordes de altura.




Não se pode construir nada que tampe a vista da Catedral de Saint Paul, em Londres



    Com o tempo, alguns edifícios mais altos conseguiram surgir na Europa. Mas, com frequência, eles são controversos e mal vistos. Poucos conseguem ser mais odiados do que a famosa estrutura alta de Paris. E não, não é a Torre Eiffel, mas a Torre Montparnasse, com seus 210 metros. Construída em 1973, ela foi tão rejeitada que uma nova lei foi rapidamente aprovada para limitar a 37 metros a construção de novos prédios no centro de Paris. Somente no subúrbio do distrito comercial de La Défense se construíram edifícios altos depois disso, ainda assim, não tão altos quanto em outras partes do mundo. Essa é uma tendência na Europa: os arranha-céus, via de regra, ficam nos arredores da cidade.


Torre Montparnasse, que pode ser vista no horizonte de Paris, 
junto à Torre Eiffel, é odiada por muitos moradores

Outras razões para ausência de arraha-céus

    Sem dúvida, há outras razões, além do patrimônio cultural e da regulamentação rígida, que diferenciam os horizontes europeus de outras partes do mundo. A geografia particular de certas regiões da Europa também tem influência. Dada à sua latitude norte, os arranha-céus fazem mais sombra e, consequentemente, deixam menos luz para quem está embaixo. 

    Em Gotemburgo, na Suécia, por exemplo, os 245 metros de altura do Karlatornet projetam uma sombra no meio da tarde quase tão longa quanto a projetada pelos 828 metros do Burj Khalifa, edifício mais alto do mundo. E isso importa muito em uma região que recebe, em média, pouco mais de cinco horas de luz do sol por dia ao longo do ano. 

    Para alguns, a ausência de arranha-céus também pode ser explicada pela falta de necessidade: os arranha-céus são símbolo de status, que servem para dar visibilidade às cidades onde foram construídos. Nem Paris, nem Roma, nem Atenas e nem Praga precisam de um edifício alto para ter um lugar no mapa cultural da humanidade.


Rue de Rivoli, Paris

    E assim, a Europa tem resistido, em grande parte, à tentação de construir prédios cada vez mais altos. E há quem defenda por se estar diante da beleza de sua arquitetura histórica, que não tampa a vista do céu. Tomara que continue assim.

02 fevereiro 2018

BRASÍLIA - PLANO PILOTO - UMA CIDADE PARQUE

    Na fotografia abaixo, áreas residenciais de Brasília - Plano Piloto. Obra genial do urbanista Lúcio Costa. Infelizmente, suas idéias não foram reproduzidas em outras cidades brasileiras que tiveram essa oportunidade.
    A concepção urbana de Brasília se sustenta em quatro escalas distintas: a Monumental, a Residencial, a Gregária e a Bucólica. Cada uma delas tem o tamanho do que representa e o volume e a extensão necessários ao seu uso.
    Se serve ao poder, tem a dimensão monumental da Esplanada. Se acolhe os moradores, tem a dimensão das superquadras. Se reune a população seja para o lazer seja para a prestação de serviços, tem outro desenho.
    A Escala Monumental é o que mais diferencia Brasilia de uma outra cidade. É a capital de um país e é isso que sua monumentalidade quer explicar.
    A Escala Residencial se traduz nas superquadras, um jeito de morar que Lúcio Costa aprimorou a partir de outras experiências do urbanismo moderno até então . "Serenidade urbana assegurada pelo gabarito uniforme de seis pavimentos, o chão livre e acessível a todos através do uso generalizado dos pilotis e o franco predomínio do verde ... , escreveu o seu criador.
    A Escala Gregária se concentra no centro da cidade, no Setor Comercial, Setor Bancário, Setor de Diversões, Setor Hoteleiro, sul e norte, todo o conjunto de setores destinados à prestacao de serviços e ao lazer da população.
    A Escala Bucólica é a das "extensas áreas livres, a serem densamente arborizadas ou guardando a cobertura vegetal nativa, diretamente contíguas a áreas edificadas", escreveu o autor do projeto do Plano Piloto. Brasília é a cidade de maior proporção em área verde por número de habitantes do mundo (100m2 por habitante).
    Brasília ainda não tinha nem 30 anos quando se candidatou e recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, da qual faziam (e fazem) parte obras milenares como as pirâmides do Egito; a Acrópole, em Atenas; os centros históricos de Roma e de São Petesburgo e a cidade de Cuzco, no Peru.
    Passou, com louvor, nos dois testes exigidos pela Unesco para obtenção do reconhecimento. Brasília tinha de ser considerada obra-prima do gênio criativo humano e exemplo eminente de conjunto arquitetural que representasse período significativo da história.

Cambuís floridos na Asa Sul. Foto de Augusto Areal, 
tirada a partir do edifício do Banco Central, em 19/01/2018.