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27 junho 2025

Lula e outros sonhando com a segunda Guerra Fria para destruir o império ianque

     Em pleno século XXI o governo Lula repete o que sabíamos sobre a esquerda desde o final da Segunda Guerra Mundial, cuja bandeira anti-ianque nas Américas era hasteada pelo ditador Fidel Castro na companhia de Che Guevara, seu "secretário de comunicação". Ambos em obediência a Moscou que infiltrava em todos os países da América Latina os "professores" da cartilha comunista, treinando aplicados alunos como alguns que compõem a imagem abaixo.


    No final da década de 50, o Brasil crescia a 7%/ano. Foi então que surgiu na vida pública brasileira um tétrico e inacabável período de grandes contrafações políticas, começando com a renúncia de Jânio Quadros. Nada então poderia ter sido melhor para os comunistas. Era como eles queriam: o poder caiu inesperadamente em suas mãos despreparadas, inexperientes e que não aceitavam nem o desconforto, nem as inibições oriundas de quaisquer tipos de escrúpulos. A partir daí, os investimentos sumiram, a classe empresarial e os trabalhadores logo sentiram suas consequências e só começou a ser estancada em 1964.

    Em 2003 essa turma voltou ao poder após o sucesso da trama conhecida como "Política das Tesouras", iniciada com a criação do  Foro de São Paulo, forjado por Lula e Fidel Castro, através do que ficou conhecido como Pacto de Princeton.


    O Pacto de Princeton foi um combinado de uma falsa oposição e da aplicação dos métodos de doutrinação de Gramsci, feito por Lula e FHC, ocorrido em janeiro de 1993 na cidade de Princeton, EUA. No Pacto, Lula representando o Foro de São Paulo que fomenta o socialismo comunista na América Latina e FHC representando a Diálogo Interamericano ligada ao Partido Democrata americano com pele socialista-fabiano.

    No Pacto, os dois comunistas - Lula e FHC- demonstraram para a grande imprensa que eram adversários, adotando os ideais da política das tesouras, de Lênin, como única solução para implantar o socialismo-comunismo no Brasil. Forjaram uma falsa oposição para culminar com o grande projeto de instalação do socialismo em toda a América Latina. Desta forma, qualquer um dos dois que fosse eleito pelo voto democrático, estava comprometido com os ditames socialistas em toda a extensão da América Latina, objeto do Foro de São Paulo.

Além de forjar uma falsa oposição, o Pacto tinha como objetivos: a participação de revolucionários comunistas de 1964 nas eleições, bem como o controle populacional através do estímulo de uniões homossexuais, legalização do aborto, enfraquecimento da Igreja Católica para se prevenir de reações contrárias aos projetos estabelecidos, e também o enfraquecimento das Forças Armadas.

No ano de 1995, FHC ganhou a eleição presidencial no Brasil e começou a por em prática os métodos de desconstrução dos valores estabelecidos na sociedade brasileira e a fomentar o crescimento socialista no País.

    Em 2003/2006 foi a vez de Lula ganhar as eleições, ficando no poder até o final de 2010, período esse onde aparelhou todas as instituições, investiu bilhões em nações socialistas e forjou pesado na implantação das disciplinas que compõem o marxismo cultural, colocando classes contra classes e pulverizando a discórdia entre pobre e rico, negro e branco, sulista e nortista, homossexual e heterossexual, filho e pai, sociedade civil e polícia. Apoiou a ideologia de gênero, incentivou a corrente feminista, buscou meios para legalizar o aborto, incentivou à promiscuidade e a impunidade, desarmou a população contra resposta do referendo de 2005, sucateou as Forças Armadas, investiu em ONGs trapaceiras que defendem os ideais do globalismo-comunismo e nos artistas consagrados através da Lei Rouanet para se aproveitar do público seguidor dos mesmos no sentido que eles ajudassem falar bem do sistema.

    No cenário externo, em todo esse período petista no poder, Lula afundou o Brasil e agora, desde 2023, segue executando os procedimentos impostos pela cartilha do século XX. Lula continua sendo anti-ianque e propagando sua amizade pelas ditaduras e já dizendo publicamente que Israel é um país genocida. As imagens abaixo ilustram as prioridades de Lula e todo o seu trajeto no poder desde 2003.




    Lula e todos eles continuam sonhando com uma segunda Guerra Fria para destruir o império ianque. Entre o bem e o mal Lula sempre torce pelo bandido. Entre a treva e a luz Lula sempre lutou pela escuridão. O Brasil se tornou sem importância para quem fala sério sobre política internacional. Não há maneira mais eficaz de defender os interesses nacionais brasileiros do que andar na companhia dos EUA e da luz do seu progreso. Em vez disso, Lula quer o Brasil na treva dos grupos terroristas aliados do Irã, do Iêmen, ... e dos narcoestados.

    Nesta sexta-feira, o Cel Gerson Gomes, em seu comentário na rádio Auri Verde, fala como a  delação do ex-general venezuelano Hugo Carvajal nos Estados Unidos pode impactar o governo Lula, inclusive esclarecendo o que é um narcoestado. Ouça-o.




30 maio 2025

O paraíso dos trabalhadores - famosa caricatura de 1927 que se tornou símbolo do anticomunismo



    O paraíso dos trabalhadores, caricatura de 1927. Segundo a teoria marxista, no Socialismo a riqueza seria distribuída de forma igualitária. Contudo, no Stalinismo, a base da pirâmide sustentava aqueles que estavam no topo. Na caricatura, Stalin aparece acima de todos, segurando o martelo e a foice, símbolos do Comunismo. A obra utiliza uma linguagem visual poderosa para desmascarar a hipocrisia do regime soviético, revelando o sofrimento e a repressão que marcaram a experiência do socialismo real nos seus primeiros anos.

    É conhecida a dantesca inanição que acometeu os ucranianos na década de 1930, escondida do mundo por Stalin, cujo Holodomor provocou milhões de mortes.

    O comunismo, devido à sua natureza coercitiva. Qualquer um que ouse seguir esse caminho inevitavelmente levará à fome, à miséria, ao gulag (sistema de campos de trabalhos forçados para criminosos, presos políticos e qualquer cidadão em geral que se opusesse ao regime na União Soviética) e ao assassinato em massa.

    A obra obviamente também convida à reflexão sobre os perigos do autoritarismo, mesmo quando travestido de ideologia libertadora.


PS.: A assinatura no canto inferior direito indica que o autor da caricatura é E. Schiwald (nome completo Ephraim Moses Lilien Schiwald, segundo algumas fontes de arte)

31 maio 2024

O soviete brasileiro

Em sua coluna desta semana na revista Oeste, J. R. Guzzo expõe o soviete brasileiro. Ao final do artigo lembra que, como acontecia da URSS, 

[ ... ] "é melhor não dizer que há algo de errado nisso tudo. O princípio constitucional que se firma cada vez mais no Brasil de Lula, do STF e da Rede Globo é o de que qualquer crítica a eles e ao ecossistema que prospera à sua volta, sobretudo as mais bem fundamentadas, é uma "articulação de ataques" contra a democracia. Como na Rússia antiga, e também na de hoje, contar o que as nossas altas autoridades fazem é "ameaçar o Estado". O Estado é o sistema que criaram. O resto é a população que tem a obrigação de obedecer, trabalhar e pagar imposto - e que, segundo Lula, está pagando muito pouco."

A propósito do que Guzzo escreveu, fica aqui a sugestão para que se assista a série "Um cavalheiro em Moscou", que teve origem no livro de mesma denominação, escrito por Amor Towles, publicado em 2016.

A trama começa em 1922 e se encerra em meados dos anos 50 após a morte de Stálin e a escolha de Nikita Khrushchev para substituí-lo. O personagem central, o conde Alexander Rostov, depois que viu seu mundo desmoronar com a Revolução de 1917, estava em Paris. Ele decide voltar para salvar a única sobrevivente de sua família, sua avó. É quando um tribunal bolchevique o condena à prisão perpétua.

Alguns trechos do artigo do Guzzo, reproduzidos a seguir, são muito semelhantes ao clima político mostrado na série. 

[ ... ]

Corroboram também essa visão trechos de dois artigos publicados na FSP por Conrado Hübner Mendes, em 22 e 29 de maio últimos, sob os respectivos títulos: 

"O STF está fora do ar". Nele se ler:

"A participação de ministros (às vezes a maioria do colegiado) em eventos privados de lobby, pintados de acadêmicos, na presença de advogados, empresários e políticos, pagos por empresas do grande poder econômico, é desconhecida em qualquer outro país do mundo. Não precisamos investigar os 193 estados da ONU para atestar a singularidade da prática."

O segundo artigo, "É isto um juiz?, do qual destaca-se o seguinte parágrafo:

"Entre os muitos ângulos dessa heroica jornada, a virtude que mais confere unidade à trajetória de Toffoli não está em sua jurisprudência, mas em sua lealdade."



30 maio 2024

OPERAÇÃO ANADYR - CARGA PRECIOSA APANHADA EM FLAGRANTE

Em post anterior se falou sobre a decisão de Khrushchev, em 1962, de instalar mísseis nucleares em Cuba. Khrushchev confiou a implementação de sua ousada ideia a três comandantes militares de alto escalão – Biryuzov, Rodion Malinovsky (o ministro da Defesa) e Matvei Zakharov (o chefe do Estado-Maior) – e toda a operação foi planejada por um punhado de oficiais generais trabalhando em total sigilo.

Um mapa de Cuba com instruções detalhadas sobre 
como preparar a divisão de mísseis soviética no país

Dentre os principais documentos recentemente divulgados está uma proposta formal para a operação preparada pelos militares e assinada por Malinovsky e Zakharov. Está datada de 24 de maio de 1962 – apenas três dias depois de Khrushchev ter apresentado a sua ideia de colocar mísseis nucleares em Cuba ao Conselho de Defesa, o órgão político-militar supremo que ele presidiu.

De acordo com a proposta, o exército soviético enviaria para Cuba a 51ª Divisão de Mísseis, composta por cinco regimentos: todos os oficiais e soldados do grupo, cerca de 8.000 homens, deixariam a sua base no oeste da Ucrânia e ficariam permanentemente estacionados em Cuba. Eles levariam consigo 60 mísseis balísticos: 36 R-12 de médio alcance e 24 R-14 de alcance intermediário. Os R-14 foram um desafio particular: com 25 metros de comprimento e 86 toneladas, os mísseis exigiam uma série de engenheiros e técnicos de construção, bem como dezenas de esteiras, guindastes, escavadeiras e betoneiras para instalá-los nas plataformas de lançamento a serem construídas em Cuba. Às tropas da divisão de mísseis se juntariam muitos outros soldados e equipamentos: duas divisões antiaéreas, um regimento de bombardeiros Il-28, um esquadrão da Força Aérea de caças MIG, três regimentos com helicópteros e mísseis de cruzeiro, quatro regimentos de infantaria com tanques e tropas de apoio e logística. A lista dessas unidades preenchia cinco páginas da proposta de 24 de maio: 44 mil homens fardados, além de 1,8 mil especialistas em construção e engenharia.

Depreende-se dos documentos que os generais soviéticos nunca antes tinham mobilizado uma divisão completa de mísseis e tantas tropas por mar, e agora tinham de enviá-las para outro hemisfério. Imperturbáveis, os planejadores militares batizaram a operação com o nome de código “Anadyr”, em homenagem ao rio Ártico, através do Mar de Bering, a partir do Alasca – desvio geográfico concebido para confundir a inteligência dos EUA.

No topo da proposta, Khrushchev escreveu a palavra “concordo” e assinou seu nome. A alguma distância abaixo estão as assinaturas de outros 15 líderes seniores. Se a operação falhasse, Khrushchev queria garantir que nenhum outro membro da liderança pudesse distanciar-se dela. Ele conseguiu intimidar seus colegas para que literalmente aderissem ao seu esquema. 

Uma cena surpreendentemente semelhante repetir-se-ia 60 anos depois, quando, dias antes da invasão da Ucrânia, Putin forçou os membros do seu conselho de segurança, um por um, a falar em voz alta e apoiar a sua “operação militar especial” numa reunião televisiva.


À esquerda, A proposta de 24 de maio para enviar mísseis nucleares a Cuba, 
assinada no topo por Khrushchev e abaixo por outros 15 líderes seniores.
À direita: As instruções dos militares soviéticos sobre como
esconder equipamentos em navios destinados a Cuba

OPERAÇÃO ANADYR

Em 29 de maio de 1962, Biryuzov chegou a Cuba com uma delegação soviética e se fez passar por engenheiro agrônomo chamado Petrov. Castro abraçou os mísseis soviéticos como um serviço a todo o campo socialista, uma contribuição cubana à luta contra o imperialismo americano.

Em junho, quando Khrushchev se reuniu novamente com os militares, Aleksei Dementyev, um conselheiro militar soviético em Cuba que foi convocado a Moscou, emergiu como uma voz solitária de cautela. Contudo, a operação já estava decidida; era tarde demais para contestá-la, muito menos na cara de Khrushchev. No final de junho, Castro enviou o seu irmão Raul, então ministro da Defesa, a Moscou para discutir um acordo de defesa mútua que legitimaria os destacamentos militares soviéticos em Cuba. A Raul, Khrushchev prometeu enviar uma flotilha militar a Cuba para demonstrar a determinação soviética no quintal dos Estados Unidos. No entanto, por trás da alarde habitual estava o medo. Khrushchev queria manter a Anadyr em segredo durante o maior tempo possível, para que os EUA não interviessem e derrubassem os seus planos ambiciosos. E assim o acordo militar soviético-cubano nunca foi publicado.

Os principais comandantes soviéticos também queriam esconder o verdadeiro propósito da Operação Anadyr – mesmo da maior parte do resto das forças armadas soviéticas. Os documentos oficiais recentemente desclassificados, referiam-se à operação como um “exercício”. Assim, a maior aposta da história nuclear foi apresentada ao resto dos militares como treino de rotina. 

Num paralelo surpreendente, a desventura de Putin na Ucrânia também foi considerada um “exercício”, com os comandantes das unidades a serem deixados no escuro até ao último momento.

A Operação Anadyr começou para valer em julho. No dia 7, Malinovsky informou a Khrushchev que todos os mísseis e pessoal estavam prontos para partir para Cuba. A expedição foi batizada de Grupo das Forças Soviéticas em Cuba, e seu comandante era Issa Pliev, um general de cavalaria de 59 anos, veterano da Guerra Civil Russa e da Segunda Guerra Mundial. No mesmo dia, Khrushchev reuniu-se com ele, Igor Stasenko, o comandante da divisão de mísseis do exército (43 anos) e 60 outros generais, oficiais superiores e comandantes de unidades enquanto se preparavam para partir. A missão deles era voar para Cuba para reconhecimento e preparar tudo para a chegada da armada com mísseis e tropas nos meses seguintes. No dia 12 de julho, o grupo chegou a Cuba a bordo de um avião de passageiros da Aeroflot. Uma semana depois, mais cem oficiais chegaram em mais dois voos.

O comandante da operação chegou em 12 de julho. De 21 a 25 de julho, ele e outros oficiais soviéticos cruzaram a ilha, vestindo uniformes do exército cubano e acompanhados pelos guarda-costas pessoais de Castro. Inspecionaram os locais selecionados para a implantação de cinco regimentos de mísseis, todos no oeste e centro de Cuba, de acordo com o relatório otimista de Biryuzov. 

Além das dificuldades inesperadas na localização dos mísseis, os soviéticos encontraram outras surpresas em Cuba. Pliev e outros generais planejaram cavar abrigos subterrâneos para as tropas, mas o solo cubano revelou-se demasiado rochoso. Entretanto, o equipamento elétrico soviético era incompatível com o fornecimento de eletricidade cubano, que funcionava no padrão norte-americano de 120 volts e 60 hertz.

Os planejadores soviéticos também se esqueceram de considerar o clima: a temporada de furacões em Cuba vai de Junho a Novembro, precisamente quando os mísseis e as tropas tiveram de ser mobilizados, e as chuvas incessantes impediram o transporte e a construção. A eletrônica e os motores soviéticos, projetados para os climas frios e temperados da Europa, corroeram-se rapidamente com a umidade sufocante. Somente em setembro, bem depois do início da operação, o Estado-Maior enviou instruções para operação e manutenção de armamento em condições tropicais.

“Tudo isto deveria ter sido conhecido antes do início do trabalho de reconhecimento”, disse Statsenko aos seus superiores dois meses após o fim da crise, com o seu memorando repleto de irritação. Ele censurou os planejadores por saberem tão pouco sobre Cuba. “Toda a operação deveria ter sido precedida pelo menos por um mínimo de conhecimento e estudo – por parte daqueles que deveriam executar a tarefa – das capacidades econômicas do Estado, das condições geográficas locais e da situação militar e política do país.” Ele não se atreveu a mencionar o nome de Biryuzov, mas, de qualquer forma, estava claro para todos que o verdadeiro culpado era Khrushchev, que não deixara aos seus militares tempo para se prepararem.

CARGA PRECIOSA

Apesar de todas as dificuldades, Anadyr foi uma conquista logística considerável. A escala das remessas foi enorme, como detalham os documentos recentemente desclassificados. Centenas de comboios transportaram tropas e mísseis para oito portos de partida soviéticos, entre eles Sebastopol na Crimeia, Baltiysk em Kaliningrado e Liepaja na Letónia. Nikolayev – hoje a cidade ucraniana de Mykolayiv – no Mar Negro serviu como principal centro de transporte de mísseis devido às suas gigantescas instalações portuárias e ligações ferroviárias. 

NÚMEROS EXPRESSIVOS

Como os guindastes do porto eram pequenos demais para carregar os foguetes maiores, um guindaste flutuante de 100 toneladas foi trazido para fazer o trabalho. O carregamento acontecia à noite e geralmente demorava dois ou três dias por míssil. Tudo foi feito pela primeira vez e os engenheiros soviéticos tiveram que resolver inúmeros problemas na hora. Eles descobriram como amarrar mísseis dentro de navios que normalmente eram usados para transportar grãos ou cimento e como armazenar combustível líquido de foguete com segurança dentro do porão. Duzentos e cinquenta e seis vagões entregaram 3.810 toneladas métricas de munições. Foram enviados cerca de 8.000 caminhões e carros, 500 reboques e 100 tratores, juntamente com 31.000 toneladas métricas de combustível para carros, aviões, navios e, claro, mísseis. Os militares despacharam 24.500 toneladas de alimentos. Os soviéticos planejavam permanecer em Cuba por muito tempo.

De julho a outubro, a armada de 85 navios transportou homens e suprimentos do Mar Negro, através do Mediterrâneo e através do Oceano Atlântico. As tripulações dos navios puderam perceber que suas embarcações não passavam despercebidas. 

Mas os navios tiveram sorte e chegaram a Cuba sem incidentes. No dia 9 de setembro, os primeiros seis mísseis R-12, guardados no cargueiro Omsk, chegaram ao porto de Casilda, na costa sul de Cuba. Outros chegaram mais tarde a Mariel, a oeste de Havana. Os mísseis foram descarregados secretamente à noite, entre 12h e 5h. Os trabalhadores da construção civil que deveriam construir plataformas para os mísseis R-14 mais pesados ainda não haviam chegado, então os soldados presentes tiveram que fazer todo o trabalho.

Havia então cerca de 44 mil militares soviéticos em solo cubano. Os da divisão de mísseis de Statsenko concentraram-se na construção de plataformas de lançamento para mísseis R-12. Outros tripulavam bombardeiros, mísseis terra-ar, caças e outros armamentos que Moscou enviara para a ilha.

O Estado-Maior soviético queria que as plataformas de lançamento do R-12 fossem concluídas até 1º de novembro. Porém, em meados de outubro, nenhum dos locais de mísseis estava pronto. Aquela que estava mais perto de ser concluída – a instalação do R-12 perto de Calabazar de Sagua, no centro de Cuba – estava afetada por problemas de comunicação, sem qualquer ligação de rádio confiável entre ela e a sede em Havana. Estava quase tudo pronto. E então chegou o dia 14 de outubro.

Naquela manhã, um avião espião americano U-2, voando a 72.500 pés e equipado com uma câmera de grande formato, passou por cima de alguns canteiros de obras. Dois dias depois, as fotografias estavam na mesa de Kennedy.


Mapa soviético detalhando o progresso 
das instalação dos mísseis

Embora Khrushchev tenha delirado e se enfurecido nos primeiros dois dias após Kennedy ter declarado o bloqueio naval, acusando os Estados Unidos de duplicidade e “pirataria total”, em 25 de Outubro, ele mudou de tom. Naquele dia, ele ditou uma carta a Kennedy na qual prometia retirar os mísseis em troca da promessa americana de não intervenção em Cuba. Dois dias depois, ele adicionou à sua lista de desejos a remoção dos mísseis Júpiter dos EUA na Turquia, confundindo Kennedy e prolongando a crise. No final, Kennedy decidiu aceitar a oferta. Ele instruiu seu irmão Robert, o procurador-geral, a se reunir com Anatolii Dobrynin, o embaixador soviético em Washington.

Na noite de 27 de Outubro, Robert Kennedy fez uma promessa informal de retirar os mísseis Júpiter da Turquia, mas insistiu que a concessão deveria permanecer secreta. Os telegramas recentemente disponíveis de Moscou para Dobrynin mostram quão importante era esta garantia para Khrushchev. O embaixador foi especificamente instruído a extrair a palavra “acordo” de Kennedy, presumivelmente para que Khrushchev pudesse vender o acordo como uma capitulação americana ao seu círculo íntimo. Ao criar a impressão de que Kennedy também estava a fazer concessões, a palavra “acordo” ajudaria a redenominar uma rendição como uma vitória, uma troca Cuba-pela-Turquia.

O desenvolvimento mais perturbador de todos, contudo, foi um apelo que Castro enviou na manhã de 27 de Outubro, hora de Havana, no qual pedia a Khrushchev que lançasse um ataque nuclear preventivo contra os Estados Unidos se os americanos ousassem invadir Cuba. Os historiadores há muito que conhecem este apelo, mas graças aos novos documentos, sabe-se agora mais sobre o que Khrushchev pensava dele. “O que é isso: uma loucura temporária ou ausência de cérebro?” ele se irritou em 30 de outubro, de acordo com um ditado desclassificado feito por sua secretária.

APRENDER E ESQUECER

De acordo com os pesquisadores Sergey Radchenko e Vladislav Zubok, desde 1962, historiadores, cientistas políticos e teóricos dos jogos têm repetido incessantemente a crise dos mísseis cubanos. Foram publicados volumes de documentos e realizaram-se inúmeras conferências e jogos de guerra. O clássico relato da crise de Graham Allison, "Essence of Decision", foi publicado em 1971 e atualizado em 1999 com a ajuda de Philip Zelikow. Uma das conclusões do livro original, também incluída na edição revista, resistiu ao teste do tempo: a crise foi “o acontecimento definidor da era nuclear e o momento mais perigoso registado na história”.

Mas os documentos soviéticos desclassificados fazem algumas correções importantes à visão convencional, destacando o calcanhar de aquiles do processo de tomada de decisão do Kremlin, que persiste até hoje: um mecanismo de feedback quebrado. Os líderes militares soviéticos tinham conhecimentos mínimos sobre Cuba, enganaram-se sobre a sua capacidade de esconder a sua operação, ignoraram os perigos do reconhecimento aéreo dos EUA e ignoraram os avisos dos especialistas. Um pequeno círculo de altos funcionários que nada sabiam sobre Cuba, agindo em extremo sigilo, elaborou um plano desleixado para uma operação que estava fadada ao fracasso e nunca permitiu que ninguém questionasse as suas suposições.

Na verdade, foi a falha do mecanismo de feedback que levou à causa imediata da crise, os mísseis mal camuflados. Allison e Zelikow concluíram que este descuido não foi o resultado de incompetência, mas uma consequência do facto de os militares soviéticos seguirem inconscientemente os seus procedimentos operacionais padrão, que tinham sido “concebidos para ambientes em que a camuflagem nunca tinha sido necessária”. Nesta visão, as forças soviéticas não conseguiram camuflar adequadamente os mísseis simplesmente porque nunca o tinham feito antes.

A nova evidência dá uma resposta diferente. Os soviéticos reconheceram plenamente a importância de esconder os mísseis, e toda a estratégia de Khrushchev baseou-se, de fato, na falsa suposição de que seriam capazes de fazer exatamente isso. Os oficiais militares soviéticos em Cuba também estavam conscientes da importância de ocultar os mísseis. Eles reconheceram o perigo do reconhecimento aéreo dos EUA, tentaram enfrentá-lo propondo locais melhores e ainda assim falharam. O cerne do problema era o descuido e a incompetência originais de Biryuzov. A sua conclusão imediata de que os mísseis poderiam estar escondidos sob as palmeiras foi transmitida como uma verdade incontestável. Especialistas militares muito abaixo dele na hierarquia notaram que os mísseis seriam expostos aos sobrevoos do U-2 e relataram devidamente o problema à cadeia de comando. No entanto, os planejadores do Estado-Maior nunca corrigiram a situação, não querendo incomodar os seus superiores ou questionar a ideia de toda a operação. 

A Operação Anadyr falhou não porque as forças de foguetes soviéticas estivessem demasiado apegadas aos seus procedimentos padrão, mas porque a hipercentralização militar impediu que os mecanismos de feedback funcionassem corretamente.

27 maio 2024

Errando à beira do abismo. O fiasco da palmeira

A história secreta e as lições não aprendidas da crise dos mísseis cubanos


Os detalhes do fiasco da palmeira são apenas algumas das revelações nas centenas de páginas de documentos ultra-secretos recentemente desclassificados (deixaram de ser secretos) e divulgados sobre a tomada de decisões e o planejamento militar soviético. 

Não há palmeiras suficientes, pensou consigo mesmo o general soviético. Era julho de 1962, e Igor Statsenko, o comandante da divisão de mísseis do Exército Vermelho, de 43 anos, nascido na Ucrânia, encontrou-se dentro de um helicóptero, sobrevoando o centro e o oeste de Cuba. 

Abaixo dele havia uma paisagem acidentada, com poucas estradas e pouca floresta. Sete semanas antes, o seu superior – Sergei Biryuzov, comandante das Forças de Mísseis Estratégicos Soviéticos – tinha viajado para Cuba disfarçado de especialista agrícola. Biryuzov reuniu-se com o primeiro-ministro do país, Fidel Castro, e partilhou com ele uma "proposta extraordinária" do líder da União Soviética, Nikita Khrushchev, para instalar mísseis nucleares balísticos em solo cubano. Biryuzov, um artilheiro de formação que sabia pouco sobre mísseis, regressou à União Soviética para dizer a Khrushchev que os mísseis poderiam ser escondidos em segurança sob a folhagem das abundantes palmeiras da ilha.

Mas quando Statsenko, um profissional sensato, pesquisou os locais cubanos do ar, percebeu que a ideia era uma besteira. Ele e os outros oficiais militares soviéticos da equipe de reconhecimento imediatamente levantaram o problema aos seus superiores. Nas áreas onde as bases de mísseis deveriam ficar, apontaram eles, as palmeiras ficavam separadas por 12 a 15 metros e cobriam apenas 1/16 do solo. Não haveria forma de esconder as armas da superpotência (EUA) situada a apenas 145 quilômetros de distância.

Mas a notícia aparentemente nunca chegou a Khrushchev, que avançou com o seu esquema na crença de que a operação permaneceria secreta até que os mísseis estivessem instalados. Foi uma ilusão fatal. Em outubro, um avião americano de reconhecimento U-2 de alta altitude avistou os locais de lançamento, e começou o que ficou conhecido como “a crise dos mísseis cubanos”. Durante uma semana, o presidente dos EUA, John F. Kennedy, e os seus conselheiros debateram em segredo sobre como responder. Em última análise, Kennedy optou por não lançar um ataque preventivo para destruir as instalações soviéticas e, em vez disso, declarou um bloqueio naval a Cuba para dar a Moscou a oportunidade de recuar.


Ao longo de 13 dias assustadores, o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, com Kennedy e Khrushchev a enfrentarem-se “olho no olho”, nas memoráveis palavras do Secretário de Estado Dean Rusk. A crise terminou quando Khrushchev capitulou e retirou os mísseis de Cuba em troca da promessa pública de Kennedy de não invadir a ilha e de um acordo secreto para retirar mísseis nucleares americanos da Turquia.

Alguns dos arquivos do Partido Comunista Soviético foram desclassificados antes da guerra na Ucrânia; outros foram discretamente desclassificados pelo Ministério da Defesa russo em Maio de 2022, no período que antecedeu o sexagésimo aniversário da crise dos mísseis cubanos. 

A decisão de divulgar esses documentos, sem edição, é apenas um dos muitos paradoxos da Rússia do Presidente Vladimir Putin, onde os arquivos estatais continuam a divulgar vastos tesouros de provas sobre o passado soviético, mesmo quando o regime reprime a liberdade de investigação e espalha propaganda histórica. Especialistas tiveram a sorte de obter esses documentos quando o fizemos; o aperto contínuo dos parafusos na Rússia provavelmente reverterá os recentes avanços na desclassificação.

Os documentos lançam uma nova luz sobre as crises mais arrepiantes da Guerra Fria, desafiando muitas suposições sobre o que motivou a operação massiva dos soviéticos em Cuba e por que razão fracassou tão espetacularmente. Numa altura de escalada das tensões com outro líder impetuoso do Kremlin, a história da crise oferece uma mensagem assustadora sobre os riscos da atitude temerária. Ilustra também até que ponto a diferença entre catástrofe e paz muitas vezes se resume não a estratégias ponderadas, mas ao puro acaso.

A evidência mostra que a ideia de Khrushchev de enviar mísseis para Cuba foi uma aposta notavelmente mal pensada, cujo sucesso dependia de uma sorte improvável. Longe de ser uma jogada de xadrez ousada motivada pela realpolitik a sangue frio, a operação soviética foi uma consequência do ressentimento de Khrushchev relativamente à assertividade dos EUA na Europa e do seu medo de que Kennedy ordenasse uma invasão de Cuba, derrubando Castro e humilhando Moscou no processo. 

E longe de ser uma demonstração impressionante da astúcia e do poder soviético, a operação foi atormentada por uma profunda falta de compreensão das condições no terreno em Cuba. O fiasco da palmeira foi apenas um dos muitos erros cometidos pelos soviéticos durante o verão e outono de 1962.

As revelações têm ressonância especial numa altura em que, mais uma vez, um líder do Kremlin está envolvido numa arriscada jogada externa, confrontando o Ocidente enquanto o espectro da guerra nuclear espreita nos bastidores. Agora, como então, a tomada de decisões na Rússia é motivada pela arrogância e por um sentimento de humilhação. Agora, como então, os altos escalões militares em Moscou mantêm-se em silêncio sobre o enorme fosso entre a operação que o líder tinha em mente e a realidade da sua implementação.

Numa sessão de perguntas e respostas que realizou em outubro/2023, Putin foi questionado sobre os paralelos entre a crise atual e aquela que Moscou enfrentou 60 anos antes. Ele respondeu enigmaticamente. “Não consigo me imaginar no papel de Khrushchev”. "Sem chance." Mas se Putin não consegue ver as semelhanças entre a situação difícil de Khrushchev e aquela que enfrenta agora na Ucrânia, então ele é verdadeiramente um historiador amador. A Rússia, ao que parece, ainda não aprendeu a lição da crise dos mísseis cubanos: que os caprichos de um governante autocrático podem levar o seu país a um beco sem saída geopolítico – e o mundo à beira da calamidade.

Em 1962, Khrushchev mudou de rumo e encontrou uma saída. Putin ainda não fez o mesmo.

29 dezembro 2022

AS ORIGENS DO MAL DE NOSSO TEMPO

Quando a URSS desmoronou, o mundo foi induzido a pensar que os ideais socialistas e comunistas estavam soterrados para sempre. A Revolução Russa de 1917 e seus desdobramentos, pareciam fadados ao esquecimento e ao ostracismo, tendo em vista a catástrofe humanitária que provocou. Acreditava-se, então, que o totalitarismo soviético responsável pela miséria generalizada e pela morte de dezenas de milhões de pessoas, tivesse o mesmo destino de seu irmão siamês, o nazismo.

Segundo a publicação "O livro negro do comunismo: crimes, terror, repressão", o comunismo matou mais de 94 milhões de pessoas. Estimativa do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), órgão público francês. 

Contudo, quando Lenin e Trotsky tomaram o poder do Império Russo, o fizeram com a ajuda de pessoas poderosíssimas que, aparentemente, não faziam parte do esquema revolucionário.

Agindo na sombra ou de forma bastante discreta, os seus colaboradores forneceram elementos materiais necessário à revolução. Esses cúmplices invisíveis tinham grande influência nos corredores do poder ou uma grande capacidade financeira. Dentre eles, citados na literatura que trata desse período, encontramos:

No campo político: Alfred Milner, então membro do Gabinete de Guerra do primeiro-ministro britânico David Lloyd George e Edward Mandell House, principal assessor do presidente Thomas Wilson e eminência parda do governo americano. Com o apoio desses poderosos, os líderes revolucionários, Lenin e Trotsky, conseguiram inúmeras facilidades diplomáticas, além de ajuda prática como armas, munições e vagões blindados.

Dos dois principais centros financeiros do mundo saíram colaborações - dinheiro, muito dinheiro - que tornaram possível a revolução.

Em Wall Street, Jacob Henry Shiff, que comandava o banco "Kuhn, Loeb & Co., que arrecadou milhões de dólares entre seus sócios e parceiros. Adicionalmente, nomes como Rockefeller, Morgan, Harriman, Vanderlip e alguns outros envolvidos com a criação do FED, doaram somas substanciais para concretizar a URSS.

Em Londres, os irmãos Warburg fizeram a mesma coisa com outros banqueiros europeus, incluindo a família Rothschild.

Entre 1918 e 1922, todos foram recompensados, por exemplo: o banco Schiff recebeu 600 milhões de rublos em ouro, a Standard Oil, dos Rockefeller, ganhou o monopólio do petróleo russo vendido na Europa e Harriman ganhou uma embaixada e o controle do comercio exterior soviético.

A ação dos bolcheviques também contou com a ajuda de um simultâneo e sistemático processo de ocultação, que envolvia desde importantes órgãos de imprensa de alcance internacional até as universidades sustentadas pela "filantropia" desses mesmo personagens.

Como no ditado que garante que o melhor truque do Diabo é fingir que não existe, após a queda da URSS o pensamento totalitário saiu do cena. Mas, devido à sua característica parasitária, o comunismo possui uma incrível capacidade de se renovar.

A permanente transformação ocorrida no seu desenvolvimento manteve apenas as características vitais à sua existencial. Aquilo que começou como um desejo de revolta armada, depois pela destruição institucional da dialética negativa e pela conquista da hegemonia cultural, agora está representado pelo subjetivismo de agenda identitária.

Por mais que uma infinidade de autores tenha demonstrado todo tipo de engano do comunismo, ele permanece vivo na cultura e no espírito das pessoas. Revelar os seus pecados parece que apenas os fortaleceu. O comunismo está errado e faz pouco-caso disso.

12 dezembro 2021

30 ANOS DO FIM DA UNIÃO SOVIÉTICA

Este ano, na véspera deste Natal, comemora-se também trinta anos que a União Soviética desapareceu, em definitivo, do mapa político mundial, com a fragmentação e a independência formal das 15 repúblicas soviéticas que formavam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No Kremlin, às 19h32, do dia 25/12/1991, a bandeira vermelha com a foice e o martelo da URSS é recolhida pela última vez. Mikhail Gorbachev renuncia a seu posto de presidente da URSS. 



O regime soviético havia governado a Rússia e as outras 14 repúblicas da URSS por quase 75 anos, desde a Revolução Bolchevique em novembro de 1917 liderada por Vladimir Lênin e por seu grupo comunista de seguidores marxistas.  Durante esses quase três quartos de século, primeiro sob Lênin e especialmente sob Josef Stalin e seus sucessores, historiadores estimam que mais de 64 milhões de pessoas — inocentes, homens desarmados, mulheres e crianças — morreram nas mãos do regime soviético.

A morte do sistema comunista soviético foi, sem dúvida, um dos mais monumentais e grandiosos eventos da história. O pesadelo soviético do "socialismo na prática" terminou naquele dia, 24/12/1991.

Mas antes de sua queda definitiva, com o regime já esfacelado e sem nenhum apoio popular, houve uma derradeira tentativa de golpe de estado perpetrada pela linha-dura do Partido Comunista, seu último suspiro, entre os dias 19 a 21 de agosto de 1991.

A população se manifestava abertamente contra o regime nas ruas, exigindo liberdade. Os comunistas então decidiram enviar tanques para esmagar os manifestantes e retomar o controle da situação. Mas os tanques mudaram de lado e acabaram protegendo a população contra o golpe e contra o regime.

Nesse período, os golpistas tentaram afastar o Presidente Mikhail Gorbachev e tomar o controle do país. Os autores do golpe acreditavam que o programa de reformas de Gorbachev estava indo longe demais e que o novo Tratado da União, que chegou a ser negociado, descentralizava muito o poder, em benefício das repúblicas integrantes da URSS. 

O golpe de Estado fracassou depois de três dias, e Gorbachev voltou ao poder. Ainda assim, os acontecimentos prejudicaram a legitimidade do PCUS, contribuindo para o colapso da União Soviética.

Veja o incrível relato daqueles dias de agosto no artigo "Há exatos 30 anos presenciei o fim do regime soviético" escrito por Richard Ebeling. 

Se o golpe houvesse sido bem-sucedido, possivelmente de três a quatro milhões de pessoas em toda a União Soviética seriam enviadas novamente aos GULAGs, como eram denominados seus campos de concentração.


PS.: Esse aniversário nos força a lembrar também do que ocorreu em nosso País, trinta anos antes e que culminou com a revolução de 1964, que depôs um governo aliado aos países socialistas, cujo objetivo era a implantação no Brasil dos regimes implantados nos 15 países que compunham a URSS, na China e em Cuba.

Naquela época, por exemplo, na passagem de 1963 para 1964, operavam no Brasil, através das embaixadas na Tchecoslováquia e da URSS, algumas dezenas de agentes dos serviços de inteligência dos dois países, StB e KGB respectivamente, travestidos de diplomatas. Esses países viam no Brasil as condições mais favoráveis para implantação do comunismo na América Latina e fortalecerem sua luta contra os EUA. Em "1964 O ELO PERDIDO", p. 340.

14 julho 2021

AS ASPIRAÇÕES DE CUBA, CHINA E URSS IAM ALÉM DO ÂMBITO LOCAL

O livro "A vida secreta de Fidel: as revelações de seu guarda-costas pessoal", escrito por Juan Reinaldo Sánchez e Axel Gyldén, em tradução de Júlia da Rosa Simões, Sánchez nos diz que viveu por 17 anos, 1977-94, na intimidade do "líder" como seu guarda-costas pessoal. Posteriormente, jogado na lata do lixo, foi preso, torturado e quase eliminado, cumpriu 2 anos de cadeia (1994-96). Em 2008, depois de 10 tentativas de fugas infrutíferas, conseguiu se evadir para os EUA.

Sánchez nos conta as ambições de Fidel Castro, entre elas aquelas que extrapolavam o território cubano. Veja o que ele escreveu.

"As aspirações do líder máximo iam muito além do âmbito local, inscritas num projeto continental, ou planetário, no centro da Guerra Fria. As ambições de Fidel não se limitava a Cuba. Castro queria exportar sua revolução para todo o mundo, a começar pelo continente latino-americano, onde queria criar "um, dois, três Vietnãs" , segundo a teoria castrista do foco, ou foquismo."

"Popularizada por Ernesto Che Guevara, essa doutrina afirmava que multiplicando os focos de insurreição rural, esses primeiros pontos se propagariam como um incêndio até as grandes cidades, e depois para o país como um todo. Em 1967, o francês Régis Debray desenvolveu essa idéia em Revolução na revolução (1967), livro de sucesso fenomenal. Foi esquecido, nos meios universitários dos cinco continentes esse best-seller se tornou uma obra de referência para todos os movimentos de guerrilha e seus futuros combatentes, tanto na América Latina quanto na África e no Oriente Médio."

Repercussões no Brasil. Relatório do Arquivo Público do Estado do Rio mostra que esquerdistas buscaram ajuda militar na ilha antes no golpe de 64

Em maio de 1961, o dirigente do PCB (Partido Comunista Brasileiro) Jover Telles escreveu quatro páginas intituladas "Relatório à Comissão Executiva sobre minhas atividades em Cuba".

No documento, endereçado ao núcleo supremo do CC (Comitê Central) do partido, ele detalhou o dia-a-dia da sua missão. Telles chegou a Havana em 30 de abril de 1961. Deixou a cidade em 23 de maio. No item 12 do relatório, Telles escreveu: "Curso político-militar: levantei a questão. Estão dispostos a fazer. Mandar nomes, biografia e aguardar a ordem de embarque".

Na mesma época, o líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião (1915-99), estava em Havana tratando do apoio cubano à luta armada. No item 13, Telles contou que "Julião começou a falar em pedido de armas etc. (...) Dei opinião contrária, por dois motivos: a) poderia ser o pretexto para uma grande provocação e para o rompimento de Jânio com Cuba; b) o assunto não estava em boas mãos. Que discutissem o assunto com Prestes (Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB), quando lá fosse".

Em maio de 1961, também estava em Cuba, conforme o relato de Jover Telles, um dos precursores da guerrilha socialista no Brasil, Clodomir dos Santos Morais, advogado que comandava um grupo de líderes das Ligas Camponesas e pregava -sem sucesso- a adesão do PCB à luta armada. Acabou expulso do partido.

O fundamental da narrativa de Jover Telles é a concordância dos cubanos em promover cursos militares. Embora inédita, essa não é uma informação de todo surpreendente.

"Desde o início (1959) os cubanos estavam convictos de que a luta armada era o caminho da revolução", diz o historiador Jacob Gorender, 78, que em 1961 era membro do CC do PCB. "Para mim, porém, o relatório é novidade. Deve ter circulado por poucas pessoas." 

A revolução da revolução 

Já Régis Debray nos revela que o Peru, a Guatemala e o Brasil (São Paulo e Nordeste) foram os três países eleitos pelo "Bureau Latino-Americano" de Buenos Aires  seção da "IVa. Internacional". Assim agiu Hugo Blanco, chegado a Argentina, com os camponeses do Valle de la Convencion. No Brasil, as ligas camponesas de Francisco Julião deviam ser "trabalhadas" no mesmo sentido.

"A concepção de organizar a insurreição armada por etapas através da chamada guerra do povo, é formal, burocrática e militarista. Leva no fundo à subestimação das massas, sua utilização e a postergação da sua intervenção direta". 

Indo mais além no livro do Debray, em três páginas (28-30), ele nos dá a receita usada por um desses modelos de guerrilha. Dela me veio a lembrança da Guerrilha do Araguaia, ocorrida no início dos 1970, na região sul do Pará, local escolhido pelo PCdoB. 

Da esq. p/ dir. em sentido horário:

Contudo, " a preparação dos guerrilheiros do PCdoB remonta ao ano de 1964, quando os primeiros militantes iniciaram formação político-militar na China, visto que o Partido adotou a linha de guerra popular prolongada de inspiração maoista. Sua defesa da luta armada era anterior a 1964, e contrária à ideia de "foco" cubano e da revolução continental marxista-leninista. Entre 1964 e 1968, dezoito militantes haviam passado por treinamento militar na China, entre eles vários dos que agora se estabeleciam no Araguaia.[6] No Brasil, um primeiro grupo de futuros guerrilheiros realizou seus primeiros treinamentos numa casa em São Vicente, na Baixada Santista, sob a direção e articulação de Armando Gimenez – antigo diretor do PCdoB em São Paulo – e Osvaldo Orlando da Costa".[7] Entre outubro de 1973 e outubro de 1974 a guerrilha foi sistematicamente exterminada".