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29 julho 2023

A automação da destruição humana

Em seu primoroso livro, "IBM e o Holocausto", seu autor, Edwin Black, nos brindou com um texto com registros de um condenável período no qual milhões de pessoas morreram, com destaque para o assassinato de 6 milhões de judeus. 

A obra é o resultado de quase uma década de pesquisas, iniciadas em 1993 e concluídas em 2001, após uma visita que ele fez ao Museu do Holocausto, em Washington, EUA, quando se deparou com uma máquina IBM Hollerith D-11, de classificação de cartões perfurados, ocupando lugar de destaque, mas com apenas uma pequena explicação de que a IBM foi a responsável pela organização do recenseamento alemão de 1933, o primeiro a identificar judeus. 

Edwin ficou indignado com tão pouca informação e prometeu aos seus pais que o acompanhavam, ambos sobreviventes do Holocausto, que descobriria mais fatos. É o que está relatado em seu livro de quase 600 páginas, do qual alguns parágrafos da introdução estão expostos a seguir, com o propósito de chamar atenção de que a destruição humana, ocorrida há 90 anos, já contou com a ajuda da automação e, principalmente, que essa ajuda não se encerrou. Ao contrário, está cada vez mais presente, incluindo a composição de listas de pessoas que deverão ser punidas, inclusive aqui no Brasil. 

                                                                       ****

[ ... ] "A obsessão do Führer pela destruição dos judeus contou com os poderes da automação. Hitler não o fez sozinho. Teve ajuda.

[ ... ] A polícia ignorava seus deveres para proteger vilões e perseguir vítimas. Juristas pervertiam conceitos de justiça para formular leis anti-semitas. Médicos conspurcavam a arte da medicina para perpetrar os mais pavorosos experimentos e até selecionavam os mais saudáveis para trabalhar até a morte - identificando os que, por uma questão de eficácia em relação ao custo, deveriam ser enviados para as câmaras de gás.

[ ... ] Cientistas e engenheiros aviltavam as mais nobres vocações, concebendo instrumentos e explicações para a destruição. E estatísticos recorriam à sua disciplina ainda pouco conhecida, mas poderosa, para identificar as vítimas, projetar e racionalizar os benefícios da mortanidade, organizar a perseguição e até mesmo auditar a eficiência do genocídio. E nesse ponto entram a IBM e suas subsidiárias no exterior.

[ ... ] A humanidade mal se deu conta de quando surgiu discretamente o conceito de organização maciça de informação para se transformar em ferramenta de controle social, em arma de guerra e em manual de orientação para a destruição em massa.

[ ... ] Durante o Terceiro Reich, a cruzada de Hitler foi vigorosamente ampliada e energizada pela engenhosidade e ambição pelo lucro de uma única empresa americana e de seu lendário e autocrático chairman. A empresa foi a IBM e o chairman, Thomas J. Watson.

[ ... ] Quando Hitler assumiu o poder, um dos objetivos centrais do nazismo era identificar e destruir os 600.000, imaginados inicialmente, judeus da Alemanha. Contudo, a pesquisa de sucessivas gerações de registros comunitários, paroquiais e governamentais em toda a Alemanha - e depois em toda a Europa - tornou-se uma tarefa tão monumental de indexação cruzada que demandava auxilio de computadores. Igualmente para a identificação e destruição de seus bens, para transferí-los para os guetos e campos de concentração em vagões e para as câmaras de gás já em prontidão. 

[ ... ] A logística era missão tão complexa que também requeria computadores. Mas em 1933, ainda não existia computador.

[ ... ] Porém, havia uma outra invenção: o cartão perfurado e o sistema de classificação de cartões (máquina Hollerith) da IBM. A subsidiária da empresa, na Alemanha, com o conhecimento da sede em Nova York, a Dehomag, usando seu próprio staff e equipamentos, projetou, produziu e forneceu a assistencia técnica indispensável  de que o Terceiro Reich de Hitler necessitava para realizar o que jamais fora feito antes - a automação da destruição humana.

Máquina Hollerith Alemã
USHM Museum, Washington, USA


Cartão perfurado para mão-de-obra escrava
National Archives

Cartão perfurado para o Escritório de Raça da SS
National Archives

[ ... ] Durante os doze anos da existência do Reich, a sede da IBM recebeu informações diárias sobre parte desses atos. Mesmo quando a legislação americana tornou ilegais essas operações, o escritório da IBM na Suíça transformou-se em elo de ligação, proporcionando à sede em NY, informação contínua.

[ ... ] Quem acreditar que de algum modo o Holocausto não teria ocorrido sem a IBM está redondamente enganado. O Holocausto teria prosseguido - e muitas vezes foi adiante - apenas com munição, marchas fúnebres e massacres resultantes de perseguições movidas a lápis e papel.

[ ... ] Mas há razões para examinar os fantásticos números atingidos por Hitler na matança de tantos milhões de seres humanos, com tanta rapidez, e analizar o papel crucial da automação e da tecnologia no genocídio.

[ ... ] Muitos de nós ficamos fascinados pela era da computação e pela era da informação. Sou uma dessas pessoas. Mas hoje estou dominado por uma nova percepção que, para mim, filho de sobreviventes do Holocausto, significa toda uma nova consciência.

[ ... ] Chamo-a de Era da Compreensão, à medida que olhamos para trás e observamos a onda da tecnologia. 

[ ... ] A não ser que compreendamos como os nazistas adquiriram os nomes dos judeus, novas listas serão compostas, contra outras pessoas", nos diz Edwin Black.

                                                                      ****

Contudo, pelos fatos com os quais estamos convivendo em pleno século XXI, diversas lideranças políticas aprenderam e estão reproduzindo, diariamente, os ensinamentos e as experiências nazistas, utilizando, para isso, toda a tecnologia de automação hoje disponível. 


Outros trechos do livro:

A Europa Nazista - e a nova ordem mundial de Berlim convertia em realidade  p. 255


  • Áustria: anexada em 13 de março de 1938
  • Região dos sudetos: conquistada em outubro de 1938
  • Checoslováquia:  desmembrada em março de 1939
  • Região de Memel: cedida pela Lituânia em março de 1939
  • Polônia: invadida em setembro de 1939
  • Ou seja, 42 milhões de pessoas estavam sob o jugo brutal da Alemanha
Na primavera de 1940, a Alemanha Nazista começou a invadir a Escandinávia e os Países Baixos
  • Dinamarca em 9 de abril
  • Noruega em 2 de maio
  • Luxemburgo dias depois
  • Holanda em 15 de maio
  • Bélgica em 28 de maio
Durante abril e maio, a jurisdição escravocrata da Alemanha na Europa cresceu para 65 milhões de pessoas.

6 de junho de 1940, T. J. Watson escreveu uma carta para Hitler devolvendo-lhe a medalha a ele concedida pelo Fuher e a entregue pessoalmente, e optou por fazê-la de público, por intermédio da mídia. A carta declarava:

"As atuais políticas de seu governo são contrárias às causas pelas quais tenho trabalhado e em razão das quais a recebi esta condecoração". 

Na Alemanha, a atitude de Watson seria considerada a forma mais acintosa de insulto ao Führer, num momento de glória para a Alemanha. E a forma pública da rejeição de Watson apenas agravava a afronta. p. 277

A honraria - medalha - havia sido concedia a Watson em 1936, por ter sido considerado não apenas um negociante vendendo mercadorias ao Terceiro Reich. Por seus dons de Prometeu, ou seja, a tecnologia IBM de cartões perfurados, que possibilitou ao Reich a consecução de eficiências inimagináveis, tanto no programa de rearmamento alemão, como na guerra contra os judeus; por sua recusa em juntar-se ao coro de estridentes ativistas pelo boicote e pelo isolamento nazista, abrindo, ao contrário, um corredor onde os alemães ainda podiam navegar; por sua disposição para realizar em Berlim  a conferência de cúpula comercial do mundo, p. 159.


20 julho 2023

Um Brasil mais nazista

    Em 09/07/2023, em outro artigo, foram apontadas semelhanças do Brasil atual com a Alemanha dos anos 1930. Já no título do artigo se fez essa pergunta: "Hitler e Lula. O nazismo e o petismo são iguais?".

    Pois bem, em menos de uma semana outra semelhança foi revelada: o uso das bigtechs em favor das decisões totalitárias. A experiencia sobre o totalitarismo durante o Terceiro Reich, está descrita no livro "IBM e o holocausto". Nele se poderá saber como a IBM ajudou os nazistas a perseguirem os judeus desempenhando o importante papel para as respectivas identificações destes que seriam perseguidos e exterminados por Adolf Hitler.

    A empresa não só foi responsável por fornecer listas de judeus e seus descendentes, com base nos censos que realizava, como empregou as técnicas de dados disponíveis à época para catalogar quase tudo, desde estoques de alimentos em toda a Alemanha e suas áreas ocupadas, e até informações pessoais sobre os prisioneiros nos campos de concentração. Os Detalhes técnicos e operacionais de tais operações, em detalhes, estão no livro.


    Noventa anos depois, no Brasil, mutatis mutandis, a história está se repetindo ao se trocar a palavra judeus por bolsonaristas e a tecnologia para o manuseio de cartões perfurados pela Internet e suas redes sociais.

    Independentemente da denominação dada ao atual regime vigente aqui no Brasil, qualquer que seja o nome escolhido, no seu significado, obrigatoriamente, constará, em primeira opção, regime totalitário. Em operação e similar ao nazismo já se encontra. É o que se pode deduzir, dentre outros fatos, a partir de um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que todas as redes sociais em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem conta enviem um arquivo com a lista completa e os dados de identificação de todos os seguidores dele. A solicitação da PGR foi encaminhada para análise do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

    Nos dados das redes sociais citadas no documento formulado pelo subprocurador-geral da República, Carlos Frederico Santos, os bolsonaristas atingem, em números, cerca de 15 milhões no Facebook; 25,3 milhões no Instagram; 11,4 milhões no Twitter; 6,47 milhões no YouTube; 5,5 milhões no TikTok; e 426 mil no LinkedIn.

    Deus é brasileiro. Quiçá, os bolsonaristas tenham mais sorte que os judeus no que diz respeito ao seu destino final, embora não seja o que deseja um dos mandatários do novo regime. Confira no vídeo.


PS. (1):  Salve o Brasil da ditadura 

Nas redes sociais está disponível um outro vídeo acessível aqui. Há uma chamada com o seguinte texto: 

"Temos uma obrigação moral, humanitária e necessária de tornar este vídeo viral. Não podemos ser negligentes se de outra forma tolerarmos esta barbárie. COMPARTILHE o vídeo que está a circular por todas as redes sociais em Portugal, Espanha, Itália, Holanda, Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Reino Unido, ou seja, em toda a Europa e Oriente Médio."


PS. (2):  Na China, governada pelo Partido Comunista, o cidadão é obrigado a usar um aplicativo que rastreia todos os seus passos, que monitora tudo o que ele posta nas redes sociais, que analisa todos os textos que ele lê, que monitora por sistema de identificação facial onde e com quem ele andou. Conforme as suas escolhas, ele obtém uma pontuação dada pelo governo. A sua pontuação define se ele pode ter acesso (por reconhecimento facial) a serviços como: mercado, postos de gasolina, compra de passagem aérea, compra de passagem de trem e até mesmo a escola que os seus filhos podem se matricular.