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26 março 2026

Meta é condenada a pagar US$ 375 milhões por colocar menores em risco e facilitar a exploração sexual infantil

Mark Zuckerberg

    Um júri no estado do Novo México ordenou na terça-feira que a Meta, empresa proprietária do WhatsApp, Instagram e Facebook, pague US$ 375 milhões em multas civis por enganar usuários sobre a segurança de suas redes sociais e facilitar a exploração sexual infantil nelas. O veredicto, alcançado pelo júri após apenas um dia de deliberação, é histórico, representando um dos maiores reveses legais sofridos pela empresa em sua história. Este caso, juntamente com outro relacionado ao vício que os aplicativos da Meta geram entre adolescentes, que está sendo julgado em Los Angeles, pode forçar a empresa a fazer mudanças significativas na segurança de seus aplicativos.

    Durante o julgamento, o estado do Novo México, liderado pelo Procurador-Geral Raúl Torrez, argumentou que a Meta violou leis estaduais ao facilitar a busca por predadores sexuais de crianças. Para sustentar essa alegação, o estado afirmou que a Meta criou contas falsas no Facebook para atrair suspeitos de pedofilia para perfis que pareciam pertencer a menores, e que esses perfis receberam um grande número de solicitações de amizade e mensagens de adultos.

    Em um comunicado, Torrez classificou o veredicto como "uma vitória histórica para todas as crianças e famílias que pagaram o preço pela decisão da Meta de priorizar o lucro em detrimento da segurança infantil". "O Novo México se orgulha de ser o primeiro estado a responsabilizar a Meta judicialmente por enganar pais, facilitar a exploração infantil e prejudicar crianças", declarou. Ele acrescentou que "na próxima fase deste processo legal, buscaremos penalidades financeiras adicionais e modificações judiciais nas plataformas da Meta para proporcionar maior proteção às crianças".

    Enquanto isso, a Meta nega as acusações. Durante o julgamento, o advogado da Meta, Kevin Huff, ressaltou que a gigante americana das redes sociais havia sido transparente com os usuários ao reconhecer a existência de usuários maliciosos e conteúdo impróprio em seu ecossistema, que conseguiram burlar seus filtros de segurança. Ele também observou que a empresa investe fortemente na implementação de medidas para proteger os usuários jovens.

    "Discordamos respeitosamente do veredicto e iremos recorrer", disse Francis Brennan, porta-voz da Meta, em um comunicado. "Nos esforçamos para manter os usuários seguros em nossas plataformas e estamos cientes dos desafios envolvidos na identificação e remoção de usuários maliciosos ou conteúdo prejudicial. Continuaremos a nos defender vigorosamente e permanecemos confiantes em nosso histórico de proteção de adolescentes online", concluiu.

14 março 2026

Júri vai decidir se as redes sociais têm culpa nisso

 

Resumo

  • Pais de uma jovem que passava 16 horas no Instagram levaram plataformas sociais à justiça alegando que elas provocam um vício intencional nas telas. 

  • O caso, que está sendo julgado em um tribunal de Los Angeles, é o primeiro desse tipo e, segundo especialistas, pode proporcionar grandes repercussões regulatórias. 

  • Advogados da família alegam que a jovem desenvolveu transtornos psicológicos, como dismorfia corporal, em razão da excessiva exposição às telas; plataformas negaram relação.


Pais que afirmam que as redes sociais levaram seus filhos à morte
acompanham o julgamento da Meta e do Google em Los Angeles
Foto: Ethan Swope/Getty Images/AFP


    Conhecida apenas por seu primeiro nome ou pelas iniciais KGM, para proteger sua privacidade, a história de Kaley se tornou o caso exemplar para mais de 2 mil processos semelhantes que buscam responsabilizar as empresas de redes sociais pelos supostos danos à saúde mental de seus usuários mais jovens.

   Lori Schott passou vários dias de olho nesse julgamento em Los Angeles, apesar de não ter participado do processo. Sua filha Annalee tirou a própria vida aos 18 anos, uma tragédia que Schott atribui à forma como o Instagram a expôs a conteúdos psicologicamente prejudiciais, apesar de a empresa supostamente saber o que essas postagens poderiam causar aos jovens.

    Milhares de outros casos semelhantes ao de Kaley, que atualmente tramitam no sistema judicial dos EUA, serão inevitavelmente influenciados pelo resultado deste julgamento inédito.

    O artigo completo sobre este caso está acessível na BBC News neste link.

09 março 2026

AS REDES SOCIAIS SÃO UMA ARMADILHA?

    "As redes sociais são uma armadilha", afirmou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em sua famosa entrevista concedida ao jornal El País. Nela, o sociólogo da "Modernidade Líquida" expande a sua crítica sobre como a tecnologia afeta os laços humanos. 

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo? 

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.

Aqui está uma síntese dos pontos principais da visão de Bauman

1. Comunidade vs. Rede

·       Comunidade: É algo a que se pertence. Exige compromisso, diálogo e, muitas vezes, convívio com o diferente e o difícil. Na comunidade, não se escolhe tudo; há uma partilha de destino.

·       Rede: É algo que "te pertence". O utilizador sente-se no controle. Nas redes sociais, as relações tornam-se mercadorias que podemos ligar ou desligar conforme a nossa conveniência.

2. A facilidade de "Eliminar" (A falta de competências sociais)

    Para Bauman, a grande armadilha é a ilusão de companhia sem as exigências da amizade. Nas redes, se alguém nos contradiz ou nos aborrece, basta um clique para "eliminar" ou "bloquear".

    Isso impede o desenvolvimento de competências sociais reais, que só se aprendem no "olho no olho", onde somos forçados a negociar, a ouvir o contraditório e a coexistir com quem pensa diferente.

3. A Zona de Conforto e o Narcisismo

    Ele argumenta que a maioria das pessoas não usa as redes para expandir horizontes, mas para se fechar numa "zona de conforto".

    Buscamos apenas o eco das nossas próprias vozes e o reflexo do nosso próprio rosto (o fenômeno das "bolhas").

·       A rede serve para aliviar o medo da solidão e do abandono, mas de forma superficial, criando uma sensação de conexão que não preenche o vazio existencial.

4. A Troca de Liberdade por Segurança

    Bauman toca num dilema clássico: para ter a "segurança" de nunca estar sozinho e de ter o controlo sobre quem nos rodeia, abdicamos da nossa liberdade de sermos surpreendidos pelo outro. As redes sociais oferecem um substituto barato para a verdadeira vida social, que é inerentemente conflituosa e imprevisível. 

    Conclusão da Síntese: Para Bauman, as redes sociais são uma armadilha porque substituem as relações profundas por conexões frágeis. Elas prometem proximidade, mas entregam isolamento; prometem diálogo, mas facilitam o monólogo. No final, o indivíduo sente-se mais conectado do que nunca, mas continua profundamente só no mundo real.


PS.: (1) O texto acima foi objeto de discussão, neste ano, em sala de aula de Sociologia do 1o. ano do Ensino Médio do Colégio Marista de Brasília. Anteriormente, foi também questão abordada no PAS/UnB.

(2) Neste link Bauman vai mais além. Concedida há 10 anos, a entrevista se encontra muito atual. -  https://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/30/cultura/1451504427_675885.html 




09 janeiro 2026

O detox digital

 

Uma desintoxicação das redes sociais pode ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade e depressão, de acordo com um estudo recente

Cada vez mais pessoas estão decididas a passar menos tempo em seus celulares e redes sociais, e pesquisas sugerem que isso traz benefícios para a saúde.

Uma pesquisa realizada pelo aplicativo de bem-estar digital Opal revelou que 33% dos 1.306 usuários entrevistados disseram que reduzir o tempo gasto em frente às telas e estar mais presente era sua principal resolução de Ano Novo, em comparação com 28% que tinham como objetivo perder peso.

Já passou da hora de todos nós reduzirmos o uso de telas. Há cada vez mais indícios de que o uso excessivo de redes sociais é prejudicial à nossa saúde mental, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Quer fazer uma desintoxicação digital ou apenas reduzir o uso do celular? Aqui vão algumas dicas sugeridas por especialistas:

• Não pare de uma vez. Se você passa em média várias horas nas redes sociais, não é realista zerar o uso. Comece com a meta de limitar ou restringir o seu uso a uma determinada quantidade.

• Use seu celular para definir limites de tempo de tela ou horários de desligamento. Seu celular pode te ajudar a alcançar seus objetivos. Se precisar de barreiras mais rígidas, experimente um aplicativo.

• Crie zonas ou horários livres de tecnologia. Comece carregando seu celular ao ar livre.

• Evite usar o celular no quarto e uma hora antes de dormir. Evite usar o celular durante as refeições. Coloque o celular em outro cômodo.

• Substitua o tempo gasto em redes sociais ou telas por outras atividades. Pode ser qualquer coisa, desde socializar no mundo real até se exercitar ou ir para a cama uma hora mais cedo. Você pode até usar o celular para ligar para um amigo em vez de ficar rolando a tela sem parar por uma hora.

• Não se culpe pelos seus comportamentos. “Com a tecnologia e as redes sociais sendo projetadas, é muito difícil controlar o tempo”, diz a Dra. Sajita Setia, médica em Auckland, Nova Zelândia, que realiza pesquisas sobre tempo de tela e bem-estar mental, principalmente em crianças. “Não se trata de força de vontade, não se trata de autocontrole. Nunca conseguiremos vencer a tecnologia.”

O tema não é novo. Aqui mesmo no Brasil já houve manifestações sobre as redes sociais. Uma delas, esta da jornalista Ruth Aquino foi publicada na revista Época em 2012.


Lá fora diversos muito já se publicou sobre este assunto. Em 2018 ... ganhou muito destaque o livro de Jaron Lanier que é cientista, músico e escritor, mais conhecido pelo trabalho em realidade virtual no qual denuncia o Vale do Silício de um modo geral, e o Facebook, em particular, como uma verdadeira máquina de fazer cabeças. Literalmente Lanier afirma (...) "O que quer que uma pessoa possa ser, se você quer ser uma, delete suas contas nas redes sociais".

Residem aí as razões do pedido de Lanier para que as pessoas excluam suas contas das redes sociais, subsidiado por DEZ ARGUMENTOS PARA VOCÊ DELETAR AGORA SUAS REDES SOCIAIS, frase esta que dá o título ao seu livro e, nele, os argumentos são explicados com detalhes. A seguir os dez argumentos:

Argumento UM  
VOCÊ ESTÁ PERDENDO SEU LIVRE-ARBÍTRIO

Argumento DOIS  
LARGAR AS REDES SOCIAIS É A MANEIRA MAIS CERTEIRA DE RESISTIR À INSANIDADE DOS NOSSOS TEMPOS

Argumento TRÊS  
AS REDES SOCIAIS ESTÃO TORNANDO VOCÊ UM BABACA

Argumento QUATRO 
AS REDES SOCIAIS MINAM A VERDADE

Argumento CINCO
AS REDES SOCIAIS TRANSFORMARAM O QUE VOCÊ DIZ EM ALGO SEM SENTIDO

Argumento SEIS
AS REDES SOCIAIS DESTROEM SUA CAPACIDADE DE EMPATIA

Argumento SETE
AS REDES SOCIAIS DEIXAM VOCÊ INFELIZ

Argumento OITO
 AS REDES SOCIAIS NÃO QUEREM QUE VOCÊ TENHA DIGNIDADE ECONÔMICA

Argumento NOVE
 AS REDES SOCIAIS TORNAM A POLÍTICA IMPOSSÍVEL

Argumento DEZ
 AS REDES SOCIAIS ODEIAM SUA ALMA







28 junho 2025

Cármen Lúcia quer impedir 213 milhões de pequenos tiranos de serem soberanos na internet


    A ministra usou o argumento para ser a favor de responsabilizar big techs pelo conteúdo de posts de usuários; em 2022, ela já havia dito ser possível abrir exceção para bloquear um vídeo antes da publicação e sem ter assistido ao conteúdo.

    Cármen Lúcia afirmou que é preciso “impedir que 213 milhões de pequenos tiranos soberanos dominem os espaços digitais no Brasil”. A declaração se deu durante o julgamento da constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet e a responsabilidade das plataformas por conteúdos publicados por usuários. A ministra usou o argumento para defender a ampliação da responsabilização das big techs por publicações de usuários mesmo sem ordem judicial. Segundo ela, a democracia assegura o direito de crítica e insulto, mas não pode tolerar discursos de ódio ou atos violentos impulsionados por conteúdos na internet.

    A magistrada votou para derrubar a necessidade de ordem judicial para remover um conteúdo relacionado a crime ou ato ilícito –sem que ficasse claro como as plataformas sozinhas poderão definir os critérios de derrubada. Ela acompanhou a corrente majoritária da Corte. Os ministros, Anderson Torres, Fachin e Nunes Marques, que divergiram justificaram os votos como uma defesa da liberdade de expressão ampla. Durante o julgamento, Cármen Lúcia afirmou que o tema da discussão representava um desafio característico de regimes democráticos: dosar o direito de expressão e os seus limites.

“Censura é proibida constitucionalmente, eticamente, moralmente, eu diria até espiritualmente. Mas não podemos permitir uma ágora em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. Soberano é o Brasil, soberano é o Direito brasileiro.”

    A declaração beira o surreal. Tirania exige concentração de poder; poder, em última análise, é a faculdade de impor obediência pela coerção. O cidadão comum — carente de instrumentos coercitivos — jamais poderia ser chamado de tirano. Já os ministros do Supremo, apenas onze, detêm poder concreto e o dever precípuo de resguardar a Constituição, zelando pelas leis e pelos direitos fundamentais. É daí, e não do povo, que emana o risco autoritário.

    Novamente temos que olhar para a Declaração de Independência dos Estados Unidos: vida, liberdade e busca da felicidade. Esses ideais seriam selados nas palavras inaugurais da Constituição americana — We The People, “Nós, o Povo” — inequívoca afirmação de que todo poder emana dos indivíduos e apenas por concessão é confiado ao Estado. Numa ordem verdadeiramente liberal, a autoridade não repousa em reis, presidentes ou juízes, mas nos cidadãos que compõem a nação. É precisamente essa lógica que a ministra Cármen Lúcia intenta subverter.

    Eis, pois, o perigoso retrato do momento: um tribunal constitucional que, em nome de combater tiranos imaginários, segue abertamente modelos autoritários bem reais.


    De mulher para mulher, uma lição para a ministra com letras minúsculas de uma PROFESSORA com letras maiúsculas.




13 junho 2025

O verdadeiro significado de Estado de Exceção

 


    No ano véspera de eleição de 2026, o Supremo decidiu que o artigo 19 do Marco Civil da Internet é inconstitucional. A esquerda já havia tentado censura pelo Congresso, sem êxito. Em Pequim, Lula chegou a pedir a Xi Jinping um enviado para ensinar como o governo brasileiro poderia fazer. E Janja explicou que era porque a direita predomina no espaço digital.

    Como afirmou o advogado Jeffrey Chiquini, o STF criou obrigações às plataformas que não estão previstas em lei e está restringindo direitos da população que a própria lei não restringiu e completa: Isso é o verdadeiro significado de Estado de Exceção, texto ilustrado com os sinais da bandeira chinesa. Obviamente foi para lembrar que na China o primeiro bastião das sociedades livres, - a liberdade de expressão - não mais existe.

    Foi assim também na Itália, durante o Fascismo, desde o momento da sessão de inauguração do Tribunal Especial para a Defesa do Estado, em 1० de fevereiro de 1927, que nela, inclusive, levou a juízo um pedreiro por ter chamado Mussolini de "desgraçado", segundo escreveu o escritor italiano Antonio Scurati.

    Ainda, segundo Scurati, "o Tribunal, sob orientação direta de Mussolini, deveria aplicar o código penal militar como em tempo de guerra: prisão compulsória, executoriedade imediata de sentença, sem recurso. O sigilo da fase de instrução deverá impedir qualquer direito efetivo à defesa: até a véspera do processo, os réus deverão desconhecer as provas e acusação, conhecendo-as apenas quando comparecerem ao Tribunal, quando tudo já está decidido".

    É, observando-se bem as decisões atuais do nosso Supremo Tribunal, não restam dúvidas sobre a verdadeira afirmação de Jeffrey Chiquini. 


07 junho 2025

O "falso possuir" na cultura das mídias digitais



    Vive-se em uma era marcada pela digitalização da vida cotidiana, onde bens culturais, relações e experiências são cada vez mais mediados por telas e redes. Nesse contexto, surge o fenômeno "falso possuir", uma ilusão promovida pelas mídias digitais que faz com que as pessoas sintam que possuem algo, quando na verdade apenas acessam ou interagem superficialmente com ele.

    No passado, possuir um livro, um disco ou um álbum de fotografias implicava em uma relação material e duradoura com esses objetos. Hoje, no entanto, milhões de pessoas sentem que "têm" músicas, filmes, amigos ou memórias apenas por tê-los salvos em plataformas digitais ou compartilhados em redes sociais. No entanto, esse "ter" é muitas vezes efêmero: não se possui o arquivo, mas apenas o acesso temporário e condicionado a serviços e conexões. Quando uma plataforma muda suas políticas, sai do ar ou cobra pelo conteúdo, o que parecia nosso desaparece — revelando a fragilidade do vínculo.

    Além disso, o "falso possuir" atinge o próprio sentido de identidade e pertencimento. Nas redes sociais, muitos acreditam possuir uma imagem bem construída de si mesmos, medida por curtidas, seguidores e stories. No entanto, trata-se frequentemente de uma representação editada, filtrada e performática, que não corresponde à realidade completa. Assim, pessoas se apropriam de estilos de vida, opiniões e causas que circulam nas mídias como forma de identificação momentânea, sem necessariamente compreendê-las ou vivenciá-las de forma profunda.

    Outro aspecto é o consumo de informação. A abundância de conteúdos curtos e rápidos (como vídeos de segundos, manchetes e memes) gera uma falsa sensação de conhecimento. O indivíduo acredita que está bem informado, mas consome apenas fragmentos, muitas vezes descontextualizados. Nesse caso, o "falso possuir" se relaciona com a superficialidade do saber, um fenômeno que enfraquece o pensamento crítico e o diálogo.

    Em síntese, o "falso possuir" na cultura das mídias digitais expõe um paradoxo da modernidade: quanto mais temos acesso a tudo, menos efetivamente possuímos. A cultura digital promove conexões rápidas e amplas, mas frequentemente esvaziadas de profundidade, durabilidade e autonomia. Refletir sobre isso é essencial para que se possa reconquistar formas mais autênticas de relação com o mundo, com os outros e conosco mesmos — não apenas clicando, mas experienciando, compreendendo e cultivando o que realmente importa.

07 março 2025

COMUNICAÇÃO E DEMOCRACIA: UMA NÃO SOBREVIVE SEM A OUTRA

     Atualmente, em que sistema de governo estamos mesmo vivendo? Com certeza, não é o que foi criado em Atenas.

    Parece ser esse o desejo do atual ocupante do Palácio do Planalto, que voltou a afirmar: 

"Nós vamos ter que regulamentar as redes sociais, nós vamos ter que regulamentar a Internet, nós vamos ter que colocar um parâmetro."

    Lula também disse que é necessário tributar as plataformas digitais.

 “Hoje, por exemplo, os donos dos aplicativos no mundo inteiro não pagam nem impostos, estão quase todos em paraísos fiscais. Ganham uma fortuna e não pagam sequer imposto em nenhum Estado. Não é possível. Essa gente tem que ter responsabilidade.”

Código de Hamurabi

    Ora, registro digital de informações é apenas um detalhe técnico no histórico processo de evolução dos meios de comunicação entre os povos, desde os primórdios de sua existência. Por exemplo, o Código de Hamurabi, o primeiro conjunto de leis escritas de que se tem notícia, foi elaborado durante o Império Babilônico, sob o governo do rei Hamurabi. Está registrado num bloco de pedras, com 2,25 metros de altura, que foi encontrado em Susa, no Irã, no início do século XX. Hoje, ele se encontra no Museu do Louvre, em Paris, França.

Relevo representando a democracia 
coroando o povo de Atenas, 337 a.C

    Também não é recente a criação da democracia, em Atenas, na Grécia. O termo é derivado das palavras Demos e Cratos que significam povo e poder, respectivamente.  Portanto, para os gregos, a democracia era traduzida como "o governo do povo". Ser cidadão na Atenas do século VI a.C significava que tinha o direito - e o dever - de participar das decisões políticas do local, ocupando cargos públicos ou expressando suas opiniões, em qualquer meio de comunicação, sobre problemas coletivos.

    Comunicação e democracia, portanto, sempre estiveram juntas ao longo da história, e uma não sobrevive sem a outra.

 

09 janeiro 2025

Moraes vestiu a carapuça e está reagindo ao que disse Mark Zuckerberg

    A matéria citada na imagem, como vemos, foi produzida por Ana Pompeu e publicada pela FSP nesta quarta-feira (08/01/2025) e, em sua maior parte reproduz o que disse o ministro Alexandre de Moraes durante uma roda de conversas feitas no STF, como parte da agenda sobre o 08/01/2023.

    Segundo o referido texto, "O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou que a corte não vai permitir que as big techs sejam instrumentalizadas para discursos de ódio e falou em "bravatas" de líderes das plataformas um dia após declaração do CEO da Meta com crítica indireta ao tribunal.

    O magistrado disse ainda que essas empresas também não poderão atuar em colaboração com grupos extremistas. "No Brasil, só continuarão a operar se respeitarem a legislação brasileira, independentemente de bravatas de dirigentes de Big techs. Pelo resto do mundo nós não podemos falar, mas, pelo Brasil, eu tenho absoluta certeza e convicção que o STF não vai permitir que as redes sociais continuem instrumentalizadas, coloca ou culposamente, ou ainda somente visando lucro, para ampliar discursos de ódio, nazismo, fascismos, misoginia, homofobia e discursos antidemocráticos", afirmou.

    Moraes ainda afirmou que a causa dos eventos como o ocorrido em 08 de janeiro de 2023 é das redes sociais e voltou a defender a regulamentação das plataformas. "Tudo isso surgiu a partir do momento que extremistas de direita se apoderaram das redes sociais para, por elas, ou com elas, instrumentalizarem a democracia. O que fazem é corroer a democracia por dentro, fingindo que acreditam na liberdade, na democracia, querem voltar à lei do mais forte."

    Ora, Moraes vestiu a carapuça e está reagindo ao que disse Mark Zuckerberg. Confira na imagem. Sobre o que mais disse Zuckerber clique aqui.


A reação dos brasileiros que desejam liberdade de expressão, não querem ditadura e cumprem as leis brasileiras

    Que tal, só para variar um pouco, deixar de lado a presente obsessão por discursos de altíssima voltagem ideológica e se concentrar por 30 segundos no único ponto que realmente interessa no assunto? Por exemplo: o empresário Mark Zuckerberg, dono do Facebook-Meta, anunciou o fim dos controles sobre o que é publicado em suas redes sociais, até então feito por equipes de “verificadores de fatos”. Há duas perguntas relevantes a fazer aí, e só duas.

    A primeira é: houve ou não houve, nessa decisão, um impacto fundamental na liberdade de expressão tal como ela se coloca no mundo de hoje? A segunda é: a liberação das plataformas para tudo o que os usuários queiram colocar lá, agora sem os filtros que vetavam a publicação de conteúdos tidos como nocivos pela Meta, ajuda a liberdade de manifestação ou ajuda a mentira, a calúnia e o “fascismo”? A primeira esposta é: sim, houve. A segunda é: a liberdade conseguiu uma vitória de primeira grandeza contra as tiranias.

     Os dois parágrafos acima são do artigo de J.R.Guzzo, também publicado hoje (08/01/2025), no Estadão e reproduzido pela revista Oeste. Seu texto completo pode ser lido aqui

    Sei que todos estão curiosos. Então vamos copiar mais três parágrafos do artigo do Guzzo.

    A reação enfurecida da esquerda mundial e do governo brasileiro à decisão de Zuckerberg é o comprovante definitivo que a liberdade de expressão acaba de ter uma vitória exponencial — ou alguém já viu a esquerda e o regime Lula-STF estarem contra alguma coisa errada e a favor de alguma coisa certa? Até agora, só a revolução comandada por Elon Musk, ao comprar o antigo Twitter, e proclamar o novo X como território livre para a manifestação de todos, tinha mexido de fato com a liberdade de expressão no mundo. Por isso ele se tornou o inimigo número 1 de Lula, de Janja e de Alexandre de Moraes.

    Agora, aos 20 milhões de usuários do X no Brasil se juntam os 150 milhões de brasileiros que utilizam, cumulativamente, o Facebook, o Instagram e o WhatsApp da Meta de Zuckerberg. Fazer o que, daqui por diante? O STF vai dar 48 horas para ele explicar por que decidiu rifar os checadores da sua empresa? Janja vai dizer “F. you também, Mark Z.”? O fato, em relação ao Brasil, é que onde havia só o problema Musk passa a haver agora o problema Musk + Zuckerberg ou X elevado à potência n.

    Nem o X, nem a Meta, são monopólio de coisa nenhuma. Ninguém é proibido de escrever lá — nem Janja, ou Alexandre de Moraes. É isso que deixa todos eles inconformados. No Brasil dos seus sonhos, só teriam direito de escrever nas redes os que fossem autorizados por alguma polícia digital que ainda pretendem criar, com a participação da PGR, da AGU, do comissariado de “políticas digitais” de Lula, da ABI etc. etc. etc. Em quem você confia mais para lhe dizer o que é mentira e o que é verdade? Neles ou em você mesmo?


07 janeiro 2025

Frase do dia!

“Vamos nos livrar da checagem de fatos. Os checadores são muito enviesados politicamente e destruíram mais verdade do que criaram, especialmente nos EUA.”, Mark Zuckerberg.

 


        Todo esse pessoal das agências de "fact-checking" perderá as tetas das grandes empresas de tecnologia, e dependerá completamente das tetas estatais, depois desse anúncio do Zuckerberg.

        Mark Zuckerberg anunciou o fim do programa de checagem de fatos no Facebook e Instagram, encerrando uma política que vinha sendo criticada por muitos como um instrumento de censura e controle ideológico.

        Essa mudança abre caminho para um ambiente digital mais equilibrado e plural, onde a liberdade de expressão ganha destaque, e os cidadãos podem formar suas próprias opiniões sem intervenções excessivas.

        Zuckerberg foi mais longe e sentenciou: 'América Latina tem tribunais secretos de censura'. O dono do Facebook e do Instagram também criticou medidas tomadas por China e União Europeia

        Nesse histórico anúncio de meia-volta — com mea culpa — do Zuckerberg sobre moderação de conteúdo, ele admitiu também que havia censura de propósito, além de erros de algoritmo. Admitiu que a censura ocorria também por conta e ordem dos governos.

Reações no Brasil

        Diversos brasileiros já se manifestaram sobre o  fato. Obviamente, os defensores da liberdade de expressão no Brasil aplaudiram e cumprimentaram a decisão de Zuckerberg.

        No sentido inverso, o governo Lula chama fim da checagem na Meta de 'convite à extrema direita'. Foi o que disse o secretário da Secom do governo Lula (PT), criticando a decisão da Meta.


        Ao governo se juntou sua empresa de comunicação oficial e o porta voz do Partido Comunista do Brasil, entre outros.






04 janeiro 2025

O feto e os likes: como as redes sociais estão destruindo nossa saúde mental

É hora de repensarmos nosso uso exagerado das redes sociais.

Hoje, 4 de janeiro, o influenciador Thiago Nigro, conhecido como Primo Rico, gerou uma onda de indignação ao publicar nas redes sociais uma foto do feto expelido por sua esposa, Maíra Cardi, após um aborto espontâneo. O público, que já estava chocado com o vídeo postado anteriormente, no qual Maíra registrava o momento em que soube do aborto, ficou ainda mais perplexo com o quanto o casal está disposto a se expor por likes. O caso rapidamente se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, dominando as primeiras posições dos trending topics no X (antigo Twitter).


Longe de querer julgar o casal, que passa por um momento extremamente doloroso — cada um lida com o luto de forma diferente —, proponho aqui uma reflexão sobre o uso das redes sociais. Não apenas sobre o vício e os limites da exposição pessoal online, mas também sobre o que consumimos e incentivamos com nossos cliques e compartilhamentos.

As redes sociais, por si só, não são intrinsecamente ruins. Elas conectam pessoas, democratizam o acesso à informação e criam oportunidades econômicas. No entanto, elas representam um fenômeno novo demais, e ainda não sabemos como lidar com seus impactos. Na história da humanidade, tivemos diversas revoluções tecnológicas que alteraram drasticamente as relações sociais: o telégrafo, o rádio, a televisão. Cada uma trouxe mudanças profundas, mas as transformações atuais ocorrem numa velocidade sem precedentes. Estamos no epicentro de uma revolução social que aconteceu rápida e silenciosamente, e tivemos pouco tempo para nos adaptar ou ajustar nossa conduta.

O problema maior é que, estando dentro desse momento, não conseguimos perceber o impacto total. Podemos sentir que há algo errado, mas enxergar o quadro completo é difícil. Estamos tão imersos no presente que ignoramos os danos que podem surgir no futuro.

Já parou para pensar quanto tempo perdemos nas redes sociais? Gastamos horas debatendo com estranhos na internet, muitas vezes em discussões fúteis, como defender político A ou B, ou rolando feeds intermináveis de conteúdos irrelevantes. Esse comportamento alimenta um ciclo de recompensas instantâneas, com a liberação de dopamina no cérebro. É prazeroso, mas custa caro. Estamos nos transformando em zumbis digitais, sempre em busca da próxima notificação, curtida ou comentário.

A destruição silenciosa da saúde mental

Estudos recentes associam o uso excessivo de redes sociais a sintomas de ansiedade, insônia, depressão e baixa autoestima. Passamos tanto tempo tentando nos conectar virtualmente que nos desconectamos de nós mesmos e das pessoas ao nosso redor. Nossa saúde mental está em declínio, e o pior é que muitos sequer percebem que estão adoecendo.

O brasileiro é o vice-campeão mundial no tempo gasto em redes sociais. Passamos, em média, mais de nove horas por dia conectados. Agora, pare e reflita: o que você poderia fazer diariamente com esse tempo? Dá para cursar uma faculdade, malhar na academia, passar mais tempo com a família, desenvolver novos hobbies ou até mesmo ter um segundo emprego. Mas estamos presos nesse vício, e a maioria de nós não percebe.

Se para os adultos os efeitos já são devastadores, imagine para crianças e adolescentes. Enquanto gerações anteriores cresceram brincando nas ruas, socializando com amigos e explorando o mundo real, as crianças de hoje estão confinadas dentro de casa, em parte devido à violência urbana e à falta de segurança. Para muitos pais, deixar os filhos imersos na internet parece uma solução prática, mas essa falsa sensação de segurança esconde um problema ainda maior.

As crianças estão perdendo a capacidade de brincar e interagir socialmente. Em festas, é comum vê-las presas a telas, cada uma isolada em seu próprio mundo digital. Estão sendo educadas por algoritmos e crescendo sem saber o que é a vida fora do ambiente virtual. Isso é perigoso, pois os efeitos colaterais desse comportamento ainda não são completamente conhecidos. No curto prazo, já observamos aumento nos índices de ansiedade, déficit de atenção, dificuldades de socialização e comportamentos compulsivos. Crianças doentes tornam-se adultos igualmente doentes. E esses futuros adultos precisarão lidar com os mesmos problemas, ou até piores, ao criar seus próprios filhos.

Monetização da hiperexposição

Outro problema é a hiperexposição. Queremos compartilhar tudo nas redes sociais: desde momentos triviais do dia a dia até questões profundamente pessoais. Hoje, muitos querem ser influenciadores digitais, o que implica em assumir o papel de “blogueirinho” e publicar dezenas de stories diários como parte de uma rotina incessante de exposição. Porém, essa prática traz riscos consideráveis. Além de comprometer nossa privacidade e abrir brechas para golpes e crimes, vivemos uma cultura onde a validação externa, medida em likes e seguidores, se torna uma obsessão.

Crianças, cujas vidas muitas vezes são compartilhadas sem critério pelos próprios pais, tornam-se alvos fáceis para pedófilos. Idosos, cada vez mais conectados, também se tornam vulneráveis a golpes financeiros e fraudes, devido à falta de familiaridade com os mecanismos de segurança digital. Nossa exposição contínua cria oportunidades para invasões de privacidade, chantagens e outros crimes.

No caso de Thiago Nigro e Maíra Cardi, temos um exemplo extremo de monetização da hiperexposição. Eles transformaram sua vida pessoal em um produto de consumo para milhões de seguidores. Embora o casal ganhe muito dinheiro com essa prática, é necessário questionar: a que preço? Alguns momentos exigem privacidade e cuidado com as próprias feridas. O público pode ser implacável, e os comentários maldosos que o casal recebeu após as publicações são um reflexo disso. A falta de limites entre o público e o privado pode transformar um momento de luto em espetáculo, expondo a dor a um julgamento coletivo.

O bizarro como forma de monetização

Outro fenômeno alarmante nas redes sociais é como o conteúdo bizarro se torna viral. Casos chocantes, como o do feto expelido por Maíra Cardi, chamam atenção e acabam alimentando a monetização por meio da indignação coletiva. Não estou dizendo que Thiago Nigro e Maíra Cardi fizeram isso intencionalmente, mas esse padrão é recorrente. O choque vende, e a viralização se dá muitas vezes pela combinação de curiosidade mórbida e compartilhamentos indignados.

Isso lembra muito os antigos circos dos horrores, também chamados de shows de aberrações, onde pessoas consideradas bizarras ou deficientes eram exploradas como atrações. Hoje, algo semelhante acontece nas redes sociais, mas de forma digital. Influenciadores como Thais Carla, conhecida como a “obesa profissional”, têm suas imagens exploradas justamente pelo caráter peculiar de sua condição. O conteúdo dela atrai tanto pessoas que consomem para rir quanto aquelas que o fazem para se sentir moralmente superiores ou validar suas próprias posições.

Casos como o de Thais Carla não são isolados. Lembro, por exemplo, da youtuber Alexandra Gurgel do canal "Alexandrismos" (calma PF, não tem relação com o Alexandre de Moraes), que também era conhecida por explorar sua obesidade como conteúdo. Quando resolveu emagrecer e cuidar da saúde, foi cancelada por parte da militância, acusada de traição e hipocrisia. A cantora Adele e a atriz Rebel Wilson enfrentaram reações semelhantes ao emagrecerem.

Existem ainda outros exemplos, como o da transsexual e deficiente Leandrinha Du Art e do influenciador gordo Zé Bertoldo. Não estou dizendo que eles devem se esconder ou evitar aparecer nas redes sociais. O ponto é que o conteúdo que produzem muitas vezes se baseia na autodepreciação e na exploração de condições de saúde, algo que acaba se tornando uma espécie de “mercadoria” no circo dos horrores digital. E nós, como público, compramos esse produto.

Andressa Urach é um caso ainda mais emblemático. Ela constantemente retorna aos holofotes por se envolver em situações cada vez mais chocantes. Sua trajetória inclui desde declarações controversas até casos extremos, como ser filmada pelo próprio filho enquanto transava com anões ou gravar conteúdos pornográficos com a namorada do filho. Enquanto continuarmos dando atenção a isso — seja por curiosidade, repúdio ou indignação —, ela e outros que seguem essa lógica continuarão a monetizar suas ações. Está ganhando dinheiro? Sim, muito. Mas a que preço?

O público, ao interagir e compartilhar, muitas vezes não percebe que alimenta esse ciclo. O bizarro se tornou uma forma eficiente de chamar atenção e gerar renda, mas isso acontece à custa da dignidade e da saúde emocional de quem o produz. Precisamos questionar não apenas quem cria esse conteúdo, mas também nosso papel como consumidores e o impacto que isso tem na cultura digital como um todo.

Clickbait e sensacionalismo

A imprensa e os portais de notícias também são parte desse problema. A busca incessante por cliques transforma manchetes em armadilhas de clickbait, apelando para o sensacionalismo. Isso não apenas contribui para a ansiedade coletiva, mas também reforça o ciclo de consumo de informações superficiais. Não, você não precisa saber que um trem descarrilhou em Bangladesh matando 15 pessoas — a menos que more em Bangladesh ou conheça alguém envolvido. A enxurrada de notícias irrelevantes e alarmistas não apenas distrai, mas desgasta mentalmente.

Nós do A Investigação buscamos romper com esse ciclo. Em vez de reportagens e publicações sensacionalistas, optamos por análises ponderadas e detalhadas, focadas em reflexões mais longas. Nossa missão é informar com profundidade e responsabilidade, sem explorar as emoções e as esperanças da população de maneira leviana. Ainda que essa abordagem resulte em menos retorno financeiro, sabemos que estamos contribuindo para um jornalismo mais ético e que podemos dormir tranquilos à noite, conscientes de que buscamos a verdade acima do lucro fácil.

Alcançando o equilíbrio

Pode parecer paradoxal você estar lendo este texto, produzido por alguém que trabalha com a internet e depende das redes sociais para divulgar seu trabalho. Mas as redes sociais não precisam ser vilãs. O problema não está na ferramenta em si, mas em como a utilizamos. O primeiro passo é reconhecermos que temos um problema. Só então poderemos começar a tratá-lo.

Não estamos pedindo censura ou regulação estatal das redes sociais. Pelo contrário, acreditamos que cabe à população aprender a lidar com essas ferramentas de maneira mais saudável e consciente. A solução não virá de uma intervenção externa, mas de uma mudança cultural que comece com cada indivíduo.

Podemos, por exemplo, reduzir o número de plataformas que usamos diariamente, impor limites de tempo e investir em atividades offline que nos conectem de verdade com o mundo ao nosso redor. Isso inclui substituir parte do tempo gasto nas redes sociais por momentos dedicados a hobbies, estudos, exercícios físicos ou interações presenciais.

Aqui vão mais algumas ações práticas que podem ajudar:

  • Desative notificações desnecessárias. Isso reduz a ansiedade de verificar o celular constantemente;

  • Estabeleça horários específicos para usar as redes sociais. Por exemplo, apenas 30 minutos à noite;

  • Use ferramentas de monitoramento de tempo. Aplicativos como Digital Wellbeing podem ajudar a controlar o uso excessivo;

  • Defina espaços livres de tecnologia. Como o quarto ou a mesa de jantar, para garantir interações mais significativas;

  • Participe de atividades offline regularmente. Pode ser um esporte, voluntariado ou até mesmo um grupo de leitura.

Mais importante ainda, precisamos refletir sobre o que consumimos e sobre o tipo de atenção que damos a conteúdos que, no fundo, só alimentam um ciclo nocivo para todos. Cada curtida, compartilhamento ou comentário em conteúdos sensacionalistas ou autodepreciativos fortalece esse sistema, transformando nossa indignação em combustível para a perpetuação do problema.

O caminho para um uso saudável das redes sociais pode ser desafiador, mas é necessário. Equilíbrio e consciência são as chaves para retomarmos o controle de nossas vidas e, principalmente, para preservarmos nossa saúde mental e nossos valores enquanto sociedade. 

Enfim, que tal sair da internet e ir curtir o mundo real?


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        Esse texto de David Agape nos obriga a divulgar novamente o que já foi escrito sobre o mesmo tema por Jaron Lanier, cientista, músico e escritor, mais conhecido pelo trabalho em realidade virtual e sua defesa do humanismo e da economia sustentável no contexto digital. Autor de diversos livros de crítica sobre a Era Digital, lançou em 2018 seu quarto livro, no qual denuncia o Vale do Silício de um modo geral, e o Facebook, em particular, como uma verdadeira máquina de fazer cabeças.

        Um breve resumo do livro pode ser lido neste link. Aqui se reproduz apenas os argumentos apresentados  por Lanier para que as pessoas excluam suas contas das redes sociais.

DEZ ARGUMENTOS PARA VOCÊ DELETAR AGORA SUAS REDES SOCIAIS, frase esta que dá o título ao seu livro e, nele, os argumentos são explicados com detalhes. Vale a pena a sua leitura. A seguir os dez argumentos.

Argumento UM  
VOCÊ ESTÁ PERDENDO SEU LIVRE-ARBÍTRIO

Argumento DOIS  
LARGAR AS REDES SOCIAIS É A MANEIRA MAIS CERTEIRA DE RESISTIR À INSANIDADE DOS NOSSOS TEMPOS

Argumento TRÊS  
AS REDES SOCIAIS ESTÃO TORNANDO VOCÊ UM BABACA

Argumento QUATRO 
AS REDES SOCIAIS MINAM A VERDADE

Argumento CINCO
AS REDES SOCIAIS TRANSFORMARAM O QUE VOCÊ DIZ EM ALGO SEM SENTIDO

Argumento SEIS
AS REDES SOCIAIS DESTROEM SUA CAPACIDADE DE EMPATIA

Argumento SETE
AS REDES SOCIAIS DEIXAM VOCÊ INFELIZ

Argumento OITO
 AS REDES SOCIAIS NÃO QUEREM QUE VOCÊ TENHA DIGNIDADE ECONÔMICA

Argumento NOVE
 AS REDES SOCIAIS TORNAM A POLÍTICA IMPOSSÍVEL

Argumento DEZ
 AS REDES SOCIAIS ODEIAM SUA ALMA

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