Translate

Mostrando postagens com marcador Cuba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cuba. Mostrar todas as postagens

18 setembro 2026

O Ponto de Não Retorno de Cuba. O país está entrando em colapso, mesmo com a sobrevivência do regime

Este artigo de Will Freeman, pesquisador de Estudos Latino-Americanos no Council on Foreign Relations, ilustra bem o percurso de Cuba ao longo de 67 anos da implantação do comunismo na ilha paradisíaca de outrora e as dificuldades para o seu eventual retorno ao regime capitalista.

Para os brasileiros e cidadãos de outros países, o artigo é uma importante lição. E por falar em lição, nunca é tarde se recordar que alguns brasileiros lá estiveram para aprenderem e aqui implantarem, inclusive através de guerrilha, o mesmo regime comunista. Pessoas como Lula, José Dirceu, Ricardo Noblat e outros, lá estiveram com Fidel Castro, conforme ilustram as imagens abaixo. Naquela época fomos salvos na undécima hora.


Vamos ao artigo de Will Freeman. Boa leitura.

*.  *   *

No centro de Havana, uma enorme pilha de escombros cor de areia ocupa um quarteirão inteiro. É tudo o que resta do Instituto Superior de Design Industrial — um edifício imponente que, ao longo de seus 166 anos, abrigou um clube de oficiais espanhóis, forças de ocupação dos EUA após 1898, o Ministério da Saúde de Cuba e, finalmente, a escola de design. Declarado inabitável anos atrás, o prédio sofreu dois desabamentos parciais em 2025. O Estado jamais enviou alguém para repará-lo. Em fevereiro passado, o que restava da estrutura desabou repentinamente, soterrando várias pessoas que ocupavam o local ilegalmente. 

Cuba, em sua trajetória atual, caminha para o mesmo destino da escola de design: o que se avizinha é um colapso acelerado do Estado e da economia. A menos que esse rumo seja revertido em breve, reconstruir a ilha como um lugar estável, próspero e democrático poderá tornar-se praticamente impossível.

Há alguns meses, um lento processo de desintegração não era o que a maioria dos observadores esperava. Devido à ameaça de tarifas — em vigor desde fevereiro contra países que forneciam petróleo a Cuba —, aos alertas do presidente Donald Trump sobre uma possível ação militar e aos relatos de negociações secretas entre Havana e Washington, muitos acreditavam que um acordo de partilha de poder ou uma operação militar nos moldes da realizada na Venezuela eram iminentes.

No final de maio, essa possibilidade parecia menos provável. Nessa altura, segundo o *Miami Herald*, as negociações de bastidores haviam fracassado em meio à oposição de republicanos da Flórida e à rejeição, por parte de Havana, da oferta de Washington: investimentos e petróleo dos EUA em troca da saída do presidente Miguel Díaz-Canel e da privatização da estatal petrolífera cubana. Havana implementou 176 reformas econômicas em junho, ampliando o espaço para o setor privado, mas isso não satisfez Washington. Embora tenha permitido a chegada de quantidades limitadas de combustível e alimentos dos EUA à ilha por meio de distribuidores privados, o governo Trump impôs novas sanções contra empresas estatais e autoridades do regime. Em agosto, o secretário de Estado Marco Rubio disse ao site Axios que o cronograma da política havia mudado, afirmando que seriam necessários "paciência e persistência" e que o regime poderia sobreviver até 2028 ou além.

Há algumas maneiras de interpretar os comentários de Rubio. Uma delas é que o governo está blefando. Ele ameaça manter a atual pressão de sanções extraordinárias, seja para retomar as negociações paralisadas ou para despistar o regime antes de uma operação militar. Outra possibilidade é que, com os Estados Unidos envolvidos com o Irã e ocupados em lidar com a Venezuela, Cuba tenha simplesmente deixado de ser uma prioridade. O governo mantém a ilha em suporte de vida, permitindo que apenas o suficiente de combustível e alimentos dos EUA chegue a empresas privadas para evitar um colapso social, mas, fora isso, não tem nenhum plano novo. A política em relação a Cuba entrou no piloto automático. Uma terceira hipótese é que o governo tenha concluído que esperar a implosão interna do sistema de partido único é o único caminho viável para uma mudança de regime, ainda que seja um processo longo, tortuoso e incerto.

Seja como for, o que não é amplamente compreendido fora de Cuba é como o colapso econômico e estatal — desencadeado pela recusa do regime em realizar reformas e acelerado pelas sanções dos EUA — já está transformando a ilha. O Estado, à exceção de sua capacidade de repressão política, está se enfraquecendo rapidamente. A economia encolhe e se torna mais desigual, deixando uma vasta classe marginalizada, pobre demais para participar de forma significativa do novo setor privado. A coesão social se esgarça e a criminalidade aumenta, enquanto a queda nas taxas de natalidade e a emigração distorcem a demografia cubana.

Todas essas tendências antecedem em anos, se não décadas, a interrupção do fornecimento de petróleo estrangeiro e as sanções mais recentes, mas agora parecem estar se acelerando. O perigo é que, quanto mais tempo durar o impasse, mais elas se consolidarão como as condições básicas para qualquer transição futura, reduzindo as chances de Cuba vir a ser um país bem governado — e aumentando, em contrapartida, a probabilidade de um futuro ainda mais disfuncional e caótico. Se nada mudar em breve, um governo de transição poderá, um dia, encontrar-se na mesma situação impossível dos homens sobre as ruínas do instituto de projetos: tentando construir algo seguro, habitável e duradouro a partir de escombros.

ANARQUIA AUTORITÁRIA

Em Havana, ouve-se uma piada: "Apenas duas coisas funcionam neste país: o aparato de segurança do Estado e os hospitais". A afirmação era generosa demais com os hospitais. Quanto à segurança do Estado, era verdade. A repressão é a única coisa que o Estado cubano ainda faz bem. Isso se deve menos a qualquer abundância aparente de recursos do que à unidade totalmente racional da liderança. A sede da Direção de Instituições Penais, que administra o sistema prisional do país, é tão decadente quanto qualquer edifício no centro de Havana, com papelão tapando janelas quebradas. Mas os generais e chefes de inteligência sabem o quanto perderiam com uma abertura política. Se o governo Trump tentou convencer alguns deles de que existem saídas alternativas, não parece ter tido sucesso. Por isso, eles permanecem unidos, e a capacidade de repressão do Estado permanece intacta.

Embora muitos cubanos estejam surpreendentemente dispostos a criticar o regime nas esquinas ou ao alcance da audição de vizinhos — e quase todos o fazem —, nenhum diz que participaria de um protesto público, um caminho quase certo para a detenção. Para que ninguém se esqueça, viaturas policiais permanecem estacionadas em frente às casas das famílias de líderes de protestos detidos, servindo como lembretes ameaçadores; dada a escassez de combustível, é revelador que o regime ainda consiga encontrar gasolina para deslocá-las.

Em todos os outros aspectos, no entanto, o Estado cubano é mais fraco do que a maioria dos observadores estrangeiros imagina — tanto os de direita, que concebem um Leviatã antiamericano, quanto os de esquerda, que se apegam à ficção de escolas e hospitais funcionais. Uma descrição mais precisa veio de um diplomata europeu em Havana: "anarquia autoritária" — um Estado que ainda consegue sufocar a expressão política, mas que é cada vez menos capaz de prestar serviços públicos ou de impedir a desordem.

Considere a saúde pública, há muito tempo uma das maiores fontes de orgulho do Estado cubano. O acesso às melhores clínicas sempre dependeu de conexões. No entanto, até o início da década de 2010, os indicadores de saúde da população cubana — sustentados por médicos bem treinados e generosos investimentos públicos — figuravam entre os melhores da América Latina. Hoje, a maioria dos hospitais carece de insumos e medicamentos essenciais, obrigando os pacientes a comprar de tudo, desde antibióticos até serras de amputação, no mercado negro. Embora muitos médicos façam o possível dadas as circunstâncias, salários públicos insuficientes para a subsistência tornaram a prática de receber propina cada vez mais comum. Recém-formados em medicina buscam trabalhos em outras áreas no setor privado emergente ou emigram. As consequências são drásticas: a mortalidade infantil, que já foi uma das mais baixas da região, mais do que dobrou desde 2018, e doenças transmitidas por mosquitos, anteriormente controladas pelo Estado, estão de volta. Só a chikungunya infectou até um terço da população em 2025; casos de dengue e Zika também dispararam.

A criminalidade violenta, antes praticamente inexistente na ilha, está em forte ascensão — mais um sinal do recuo desordenado do Estado. Embora a escassez de estatísticas oficiais confiáveis ​​dificulte a confirmação e Cuba ainda registre níveis de violência muito inferiores aos de vários de seus vizinhos, o medo de roubos e agressões alterou a rotina de muitos cubanos. Moradores de Cárdenas, uma pequena cidade a duas horas a leste de Havana, evitam sair às ruas à noite. Grupos de justiceiros estariam por trás de um número crescente de assassinatos de suspeitos de crimes na localidade e na cidade de Guantánamo (não confundir com a base militar americana de mesmo nome, situada nas proximidades).

Em Havana, tornaram-se comuns os relatos de invasões para roubo de painéis solares e caixas-d'água, e há uma percepção generalizada de que a polícia está cada vez mais ausente ou suscetível a subornos. Embora a criminalidade seja, por enquanto, desorganizada — impulsionada pela miséria extrema ou pelo vício no canabinoide sintético barato conhecido como *el químico*, presente em toda a ilha —, ela poderia facilmente evoluir para algo mais estruturado.

Usinas de energia em ruínas, ano letivo reduzido, buracos abertos por moradores de Havana nas vias públicas para desviar a escassa água da rede estatal — seja para revenda ou consumo próprio: o esvaziamento do Estado é visível em toda parte. Os efeitos de longo prazo do embargo são parcialmente responsáveis, assim como a interrupção do fornecimento de petróleo estrangeiro desde fevereiro. Mas ninguém forçou os líderes de Cuba a destinar, até 2024, 37 vezes mais investimentos públicos de capital para o turismo, o setor imobiliário e a hotelaria do que para a saúde e a educação. Essa foi uma aposta visando ao lucro feita por um pequeno grupo de integrantes da elite governante, e ela fracassou. A questão agora é se o Estado conseguirá fazer algo, inclusive manter a ordem pública, após mais alguns anos de colapso.

O CAMINHO MAIS LONGO

A segunda transformação que está remodelando Cuba — e criando dilemas para uma futura transição — é de natureza econômica. A economia está encolhendo: contraiu-se pelo menos 15% desde 2020, à medida que o turismo despencou e investidores estrangeiros fugiram por medo de novas sanções secundárias dos EUA. Em resposta, o regime abriu espaço, ainda que a contragosto, para a iniciativa privada — não porque a maioria das autoridades defenda o livre mercado, mas porque concluíram que alguma atividade de mercado é a única maneira de evitar que a ilha passe fome ou se rebele. Desde a legalização, em 2021, das micro, pequenas e médias empresas (conhecidas em espanhol como MIPYMEs), o número dessas firmas ultrapassou 10.000, respondendo por cerca de 65% de todas as vendas no varejo e 40% do emprego total. As reformas de junho ampliaram formalmente as atividades privadas permitidas, embora as sanções dos EUA, a falta de credibilidade do regime junto a investidores nacionais e estrangeiros e as divisões internas provavelmente limitem sua implementação.

O crescimento do setor privado tem sido positivo e necessário, mantendo pelo menos algumas prateleiras abastecidas em meio à crise e tornando parte da população menos dependente de salários públicos — uma fonte de controle do regime sobre as pessoas. A unificação cambial de 2021 foi outro passo necessário. Apesar de sua implementação desastrosa, que dizimou o poder de compra da maioria dos cubanos, ela pôs fim a um sistema de duas moedas que distorcia preços e mascarava o desempenho insatisfatório das empresas estatais.

No entanto, a maneira específica como os mercados estão se consolidando — com grande parte da população pobre demais para participar de forma significativa, sem Estado de Direito e com o abismo entre vencedores e perdedores aumentando constantemente — é prejudicial para o futuro do país. Vários cubanos dizem sentir como se estivessem vivendo a Rússia dos anos 1990: um período de negócios escusos e concorrência viciada que não levou a uma prosperidade ampla, mas sim ao surgimento de oligarcas e à miséria generalizada. A palavra que mais repetem é *reparto* — uma divisão do país entre poucos. Integrantes do regime estão em posição de obter os maiores ganhos, e os proprietários de MIPYMEs conseguiram colocar um pé na porta. Enquanto isso, jovens, idosos, servidores públicos e muitos afro-cubanos enfrentam dificuldades crescentes apenas para conseguir comer. Muitos cubanos dizem: "Nós percorremos o caminho mais longo e doloroso para o capitalismo latino-americano.”

Cuba está reproduzindo os piores defeitos de certas economias da América Central — diferenças de classe rígidas, clientelismo, dependência de remessas e baixa produtividade —, porém sem o crescimento comparativamente mais robusto que elas apresentam. A desigualdade crescente é evidente: mesmo agora, com apagões que frequentemente duram de dois a três dias, bairros mais abastados exibem novos restaurantes com geradores em pleno funcionamento, luzes acesas, DJs e mesas lotadas. Ao redor, casas permanecem às escuras e o lixo não recolhido se acumula nas ruas. Não precisava ser assim. A população cubana continua altamente qualificada, ainda que os salários oferecidos pelas MIPYMEs (pequenas e médias empresas) estejam atraindo profissionais qualificados para fora de suas áreas de atuação. Uma transição hoje ainda poderia tornar viável uma economia de mercado dinâmica e justa. Daqui a dois ou três anos, talvez isso já não seja possível.

AQUELES QUE FICAM

A última dimensão do colapso de Cuba é a mais difícil de mensurar, mas é também aquela que, segundo muitos cubanos é o que mais os preocupa: o que vários descreveram como “degradação social”. Os efeitos interligados da emigração em massa, do rápido envelhecimento populacional e de um fosso geracional crescente impõem desafios enormes ao futuro de Cuba.

Desde 2020, a população de Cuba caiu entre 13% e 24% (estimativa), impulsionada em grande parte por uma onda de emigração sem precedentes. Como as pessoas que partiram eram, em sua maioria, mulheres em idade reprodutiva, o processo de envelhecimento — que já era rápido — acelerou ainda mais. As autoridades preveem que, até 2050, um em cada três cubanos terá mais de 60 anos, em comparação com um em cada quatro atualmente. Esse seria um desafio significativo mesmo para um país com economia forte e um sistema previdenciário funcional. Para Cuba, pode tornar-se um obstáculo intransponível.

A emigração também esvaziou profissões inteiras, deixando hospitais sem profissionais de saúde, escolas sem professores e até igrejas sem padres e pastores, numa escala jamais vista pelos cubanos. Vários cubanos de meia-idade estabeleceram um contraste com o "Período Especial" da década de 1990, quando a perda da ajuda e do comércio com a União Soviética encolheu a economia em cerca de 35%, mas um número muito menor de médicos e professores deixou o país. A ilha estava quebrada naquela época, mas hospitais e escolas continuavam funcionando. Hoje, a realidade é outra. Também aumentou a disparidade entre os cubanos que têm família no exterior (e acesso a remessas para abrir negócios) e aqueles que não possuem tais conexões — grupo que inclui, de forma desproporcional, os afro-cubanos.

Viver sem alimentos, energia ou medicamentos suficientes também cobra um preço psicológico. Os jovens pagam o preço mais alto, especialmente aqueles cujos pais estão no exterior e que crescem enfrentando mais fome e exclusão do que as gerações anteriores. Mas o custo é generalizado. "Isso não é resiliência", disse um homem em Havana, referindo-se ao clichê de que os cubanos possuem uma capacidade única de suportar adversidades. "As pessoas conseguem se adaptar a qualquer coisa. Nós nos transformamos para conseguir sobreviver a esse processo, mas trata-se de uma degradação." O PREÇO DO ATRASO

Quando os vizinhos de Cuba no Caribe e na América Central iniciaram suas transições para a democracia, entre 40 e 50 anos atrás, poucos esperavam que tivessem sucesso. A maioria era muito mais pobre, economicamente mais disfuncional e mais desigual do que é hoje. E, no entanto, eles provaram que condições iniciais desfavoráveis ​​não são um destino imutável: a maioria democratizou-se e viu suas economias crescerem e se estabilizarem. Cuba também poderia fazer o mesmo.

Mas, quanto mais tempo dura o impasse atual, mais remota se torna essa perspectiva. Manter o nível atual de pressão pode levar o regime a implodir — ou não. O que certamente acontecerá, se a situação persistir por mais um ano ou mais, é que Cuba se tornará cada vez mais ingovernável — para qualquer pessoa.

É possível que o governo Trump não tenha ponderado esse risco ou o tenha considerado um custo aceitável para forçar uma abertura política. Surpreendentemente, alguns cidadãos cubanos comuns fizeram o mesmo cálculo. Muitos cubanos não acreditam que as sanções dos EUA fossem a principal causa da crise atual. Para eles, a manutenção ou a retirada das sanções importava muito menos do que a permanência ou não do regime, visto que, em sua opinião, este último tinha maior responsabilidade pela economia em ruínas. Uma nova pesquisa de abrangência nacional do AmericasBarometer revela algo semelhante: 74% dos entrevistados atribuíram ao governo cubano a culpa pela crise atual, enquanto apenas 16% culparam os Estados Unidos.

Dito isso, os riscos de manter a pressão atual indefinidamente são enormes. Para ambos os países, provavelmente nada seria pior do que uma espiral de violência criminosa e ingovernabilidade caótica na ilha. Uma política prolongada de pressão máxima também eleva o custo de uma eventual recuperação, e uma Cuba pós-transição terá meios limitados para financiar a reconstrução. Apenas a reconstrução da rede elétrica cubana — que se deteriora ainda mais a cada novo apagão — custará cerca de 8 bilhões de dólares. O país poderá levar anos para voltar a ter acesso a financiamento do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de outras instituições multilaterais. Dada a fadiga do público americano em relação a iniciativas de construção de nações no exterior, é pouco provável que o Congresso intervenha para suprir essa lacuna nesse meio-tempo.

O caminho oposto também traz seus próprios custos. Aqueles que defendem a normalização das relações e o fim do embargo sem mudanças políticas significativas precisam ser francos sobre o que isso implica: aceitar que os cubanos continuariam vivendo, contra a própria vontade, sob um regime que se enriquece enquanto mantém os cidadãos pobres o suficiente para garantir o controle. Não se deve alimentar a ilusão de que os líderes cubanos, com menos sanções, seriam capazes de reconstruir as instituições estatais, reduzir a desigualdade ou restaurar a coesão social. O objetivo da liderança é permanecer no poder.

Uma terceira via ainda pode ser possível: uma nova proposta de alívio seletivo de sanções, focada em amenizar a crise humanitária, em troca de reformas políticas e econômicas específicas que poderiam enfraquecer o controle do regime. Mesmo que Havana tenha rejeitado acordos desse tipo no passado, vale a pena tentar. No entanto, qualquer que seja o caminho escolhido por Washington, é preciso levar em conta os custos da demora — que já são elevados e continuam a aumentar.

13 agosto 2026

Cuba celebra o centenário de Fidel Castro

Cuba está promovendo uma festa de uma semana para celebrar o centenário de Fidel Castro — que ocorre nesta quinta-feira — com apresentações de balé, poesia e mais de 300 trabalhos acadêmicos e painéis de discussão sobre o impacto do "Pensamento de Castro" em áreas que vão da educação e ciência até o esporte.

Centenas de representantes de partidos de esquerda e comunistas de todo o mundo vieram celebrar o homem que governou Cuba por quase cinco décadas antes de sua morte, em 2016. Fora dos locais das conferências, no entanto, há poucos motivos para comemoração.

Montanhas de lixo se acumulam nas ruas de Havana; algumas pilhas são incendiadas por moradores que protestam contra suas condições de vida. O fornecimento de eletricidade e água é interrompido por dias a fio. A economia está em ruínas.

"Estão homenageando o homem que matou o país", disse Luis Fonseca, trabalhador braçal e aspirante a barbeiro que descarrega caminhões em um mercado na Havana colonial. Ele e seus amigos não sabiam nada sobre a comemoração. "Ninguém está falando sobre isso."

Boris Gonzalez, escritor e historiador, acordou recentemente sem eletricidade nem água. Sua filha de 20 anos estava doente com dengue. "As pessoas não estão nem aí para o evento", disse ele. "Ninguém fala de Fidel. Já superamos isso."

A ironia é inegável: Cuba celebra o centenário do homem que prometeu um paraíso revolucionário enquanto luta para manter a luz acesa sob sanções crescentes dos EUA.

Esse contraste é exatamente o que o regime quer ocultar. Durante uma semana, Havana tentou resgatar os dias de glória da revolução de Castro, organizando uma celebração internacional em meio à pior crise econômica das últimas décadas. O governo quer passar a impressão de que está tudo bem, afirmou a jornalista independente cubana Yoani Sánchez em seu blog.

"Este evento é um exemplo extraordinário de necrofilia política — uma celebração de ideias mortas, ideias zumbis que não funcionam", disse Moisés Naím, analista do Carnegie Endowment for International Peace. Abrindo as festividades, o presidente Miguel Díaz-Canel exaltou a trajetória de Castro como um exemplo para revolucionários e prometeu resistir à agressão dos EUA. Suas palavras foram recebidas com aplausos pelos 1.500 convidados presentes no Palácio de Convenções de Havana, incluindo delegados de partidos comunistas de países que vão do Chile à China.

"Como Fidel disse mais de uma vez, estamos prontos para resistir ao bloqueio imperialista por quantos anos forem necessários", afirmou Díaz-Canel.

Alguns ex-líderes latino-americanos de esquerda prestaram homenagens a Castro. "Para a minha geração de latino-americanos, Fidel foi um símbolo vivo da luta por justiça social, liberdade e soberania", declarou Dilma Rousseff. Esta vive no mundo da lua ao contrário de escritores que lá viveram.

Enquanto isso, falhas no fornecimento de energia interromperam a transmissão de televisão e rádio e o acesso à internet, deixando poucos cubanos a par das celebrações.

Castro, que tinha o apelido de "El Caballo" (O Cavalo), ainda conta com admiradores, principalmente entre os cubanos mais velhos. Algumas pessoas que aguardam em filas para comprar alimentos dizem sentir falta da liderança de um homem que percorria a ilha com seu característico uniforme militar verde e cuja memória permanece marcante.

"Você ouvirá pessoas dizendo que isso não estaria acontecendo se Fidel estivesse vivo", disse Carlos Alzugaray, embaixador cubano aposentado.

No entanto, Alzugaray ressaltou que a maioria dos cubanos tem outras prioridades. "Eles só querem que a luz volte", afirmou.

Não existem estátuas de Castro em Cuba. Tampouco há ruas, escolas ou prédios governamentais que levem o seu nome — uma proibição imposta por ele logo após suas forças guerrilheiras derrubarem Fulgencio Batista, em 1959.

“Não existe culto à personalidade em torno de nenhum revolucionário vivo”, disse Castro em 2003. “Os líderes deste país são seres humanos, não deuses.”

Ele não seguiu exatamente o seu próprio conselho.

Castro construiu um enorme culto à personalidade. Outdoors por toda a ilha ainda o mostram de uniforme de camuflagem, fuzil na mão, liderando a revolução. O *Granma*, jornal do Partido Comunista, mantém a imagem dele na página inicial de seu site. “Fidel nunca nos deixará”, diz a publicação.

O impacto de Castro estendeu-se muito além de Cuba.

Ele transformou a pequena ilha em uma potência geopolítica. Castro promoveu movimentos guerrilheiros por toda a América Latina e aproveitou sua aliança com a União Soviética para enviar dezenas de milhares de soldados cubanos para a África. Após a queda da União Soviética, ele se tornou uma figura influente na Venezuela, país rico em petróleo. Durante décadas, foi o adversário mais obstinado de Washington.

Mesmo agora, operando no limite de suas forças, Cuba continua sendo um pesadelo para Washington. No mês passado, o Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório notável de 99 páginas que classificava a ilha como uma ameaça singular à segurança nacional, ainda empenhada — sob a influência de Castro — em “conquistar os vizinhos Estados Unidos”.

“Chame de megalomania, genialidade, loucura, audácia, irresponsabilidade, o que quiser”, disse Jorge Castañeda, ex-chanceler do México que chegou a entrar em conflito com Castro. “Mas não há dúvida de que ele transformou Cuba em um ator global — a um custo enorme para os cubanos, que ainda pagam o preço.”

Apesar de todas as suas habilidades geopolíticas, Castro impôs teorias econômicas absurdas internamente. Ele buscou criar um “Homem Novo” altruísta e tentou abolir o dinheiro. Nacionalizou empresas, destruiu a economia de Cuba e deixou a ilha dependente, primeiro da União Soviética e, depois, da Venezuela.

Suas estratégias frequentemente beiravam o absurdo. Castro era obcecado pela ideia de clonar Ubre Blanca, uma vaca leiteira campeã, para acabar com a escassez crônica de leite gerada por suas próprias políticas agrícolas. Quando a vaca morreu, o *Granma* publicou seu obituário na primeira página, e uma estátua de mármore dela foi erguida. Seus restos embalsamados ainda estão em exposição. Castro chegou a cogitar a criação de vacas em miniatura para que as famílias de Havana as mantivessem em casa. As vacas minúsculas nunca se tornaram realidade.

“A história me absolverá”, disse Castro em um discurso famoso no qual se defendia após o ataque fracassado a um quartel militar em 1953.

Isso é cada vez mais questionável.

“A história não o absolverá”, disse Gonzalez, o historiador. “Espero que não repitamos o erro que perdura há quase 70 anos.”


PS.: A filha de Fidel Castro, Alina Fernández Revuelta, pede mudança de regime em Cuba. Ela escapou de Cuba em 1993 aos 37 anos e se estabeleceu em Miami, tornando-se mais tarde uma das críticas mais atentas ao regime comunista de seu pai.Interessante é que a única filha de Stalin também se mudou para os EUA em 1967, onde denunciou o comunismo soviético e o legado de seu pai.Apenas progressistas americanos ignorantes como Bernie Sanders e Hasan Piker ainda defendem o comunismo.



26 janeiro 2025

Crise e socialismo em Cuba: o caminho até o fim

    O socialismo em Cuba não está em crise, mas alcançou o que o socialismo - um sistema maligno - sempre consegue: o seu próprio fim. É o que afirma o artigo de Rafaela Cruz publicado no último dia 22/01/2025, no Diário de Cuba. Alguns parágrafos, para o conhecimento inicial de seu teor estão transcritos abaixo. O artigo completo está disponível logo em seguida.

    "Para o bem ou para o mal, em Cuba o socialismo já superou a sua “fase de miragem”, que é quando distribui o que herdou do sistema capitalista anterior, o que recebeu através de alianças políticas ou o que extraiu através da exploração intensiva da classe trabalhadora que reivindica representar. Durante esse período redistributivo, que exacerba as massas, a sociedade civil é destruída e o sistema se mistura com a própria nação — o totalitarismo —, estendendo as redes de vigilância até mesmo nas salas de atendimento perinatal.

    [ ... ] Em Cuba, o socialismo não está em crise. Em Cuba, como em todos os lugares, o socialismo provocou uma crise porque esse é o seu modus operandi.

    O caminho para a prosperidade, para a dignidade que só a liberdade pode trazer, não está em melhorar o socialismo, mas em matá-lo; E para isso teremos provavelmente de sofrer mais fome, mais apagões, mais de todas essas privações que temos sofrido durante décadas - às vezes mais, às vezes menos - e que só superaremos completamente quando o socialismo desaparecer. Temos que chegar ao nosso momento mais sombrio se quisermos ver a luz."

    Saiba mais. Leia o artigo abaixo.

*  *. *

Crise e socialismo em Cuba: o caminho até o fim

    Se a crise em Cuba não for reconhecida como um resultado deliberado e planejado do planejamento central socialista, então não veremos que só acordaremos desse longo pesadelo mudando não as políticas, mas o próprio sistema.

La Habana 


    Cuba está em crise? Segundo alguns significados do termo, sim, porque crise é sinônimo de escassez ou escassez e de situação ruim ou difícil.

    No entanto, os significados mais historicistas são menos adequados à realidade cubana, já que a RAE também define crise como "uma situação política na qual um ou mais membros do Governo renunciaram ou foram demitidos".

    Essa definição não se aplica a esta Ilha, porque há uma "crise" aqui justamente porque não há mudança política - nem abrupta nem lenta - e aqueles que não deveriam estar no governo permanecem. Há uma crise de escassez porque não há crise de mudança.

    A nossa crise, enquanto “situação má ou difícil”, não é, portanto, o resultado de erros do sistema socialista, mas da sua correta aplicação como meio de concentração do poder político numa elite, mantendo a população civil atomizada e economicamente dependente do Estado. O socialismo não é um sistema fracassado, é um sistema maligno. O país está em crise justamente porque o regime ainda não está em crise e ainda não se sente obrigado a mudar seus fundamentos parasitários.

    Estamos vivendo o resultado de seis décadas de um sistema – socialismo, estatismo – que, onde quer que tenha sido implementado, causou mais estragos do que as hordas de Átila, o Huno. Não há um único exemplo histórico de uma economia socialista bem-sucedida em relação às suas contrapartes capitalistas.

    Se a crise em Cuba não for reconhecida como um resultado deliberado e planejado do planejamento central socialista, então não veremos que só acordaremos desse longo pesadelo mudando não as políticas, mas o próprio sistema. É necessária uma emenda abrangente, sem tentativas de conter as expressões mais degradantes do sofrimento do povo — apagões, fome, educação e saúde precárias — apenas para continuar a torturá-lo com mais socialismo.

    Para o bem ou para o mal, em Cuba o socialismo já superou a sua “fase de miragem”, que é quando distribui o que herdou do sistema capitalista anterior, o que recebeu através de alianças políticas ou o que extraiu através da exploração intensiva da classe trabalhadora que reivindica representar. Durante esse período redistributivo, que exacerba as massas, a sociedade civil é destruída e o sistema se mistura com a própria nação — o totalitarismo —, estendendo as redes de vigilância até mesmo nas salas de atendimento perinatal.

    Uma vez esgotado o dinheiro dos outros, o socialismo avança para a sua fase de “resistência heróica” – em que nos encontramos agora – onde a “unidade” se torna o cerne do discurso e o altar onde é sacrificada, com as facas totalitárias criadas em a fase anterior, qualquer dissidência ou tentativa de mudança que não seja dirigida pelo próprio regime.

    Para não fazer o jogo dessa elite predadora, ao falar da crise em Cuba é preciso esclarecer que ela não é resultado de fracassos na implementação do socialismo, mas sim o resultado esperado do próprio socialismo. A partir daí, entender-se-á que tudo o que “alivie” a crise atual de “escassez ou alto custo” beneficiará mais o regime do que o povo, pois estará se afastando do momento de crise como “mudança brusca no desenvolvimento”. de um processo ou "situação política", que é a única saída quando o socialismo se entrincheira.

    Toda esperança de melhoria real, sustentável e crescente dentro do socialismo deve ser eliminada do povo, demonstrando em termos históricos e econômicos que, como um sistema parasitário, ele sempre tomará mais do que pode dar; Mas também devemos eliminar todo o desejo - devido à ignorância ou ao curto prazo - de melhoria dentro deste sistema, e deixar de ficar felizes quando a situação econômica melhora ligeiramente - por humanidade, dizem eles - quando a única saída desta crise eterna é chegar a uma situação tão ruim que a sobrevivência do próprio parasita seja impossível. E sim, por isso devemos sofrer. Alguma pessoa já alcançou liberdade e prosperidade sem pagar um preço em sofrimento?

    Não vivemos mais o romantismo violento dos séculos passados, é tarde demais para comprar nossa liberdade com sangue. Os heróis que ainda tentam acabam em masmorras, enquanto a sociedade, impassível, manipulada, aprisionada, assustada, ignora o sacrifício de tais titãs. E se não for com sangue, será com fome que nosso futuro será comprado.

    Em Cuba, o socialismo não está em crise. Em Cuba, como em todos os lugares, o socialismo provocou uma crise porque esse é o seu modus operandi.

    O caminho para a prosperidade, para a dignidade que só a liberdade pode trazer, não está em melhorar o socialismo, mas em matá-lo; E para isso teremos provavelmente de sofrer mais fome, mais apagões, mais de todas essas privações que temos sofrido durante décadas - às vezes mais, às vezes menos - e que só superaremos completamente quando o socialismo desaparecer. Temos que chegar ao nosso momento mais sombrio se quisermos ver a luz.

13 janeiro 2025

10 coisas que você precisa saber antes de vestir uma camiseta do Che Guevara




Por Lawrence W. Reed

16/10/2019


    Che Guevara não era herói. Por isso, pense duas vezes antes de colocar uma camiseta do Che Guevara na sua lista de presentes de Natal este ano.


    Digamos que tudo o que você saiba sobre Adolf Hitler é que ele pintava paisagens, cartões-postais e casas em Viena, amava cachorros e batizou seu adorável pastor alemão de “Blondie” e frequentemente expressava solidariedade para com “o povo”. Você podia usar linda camiseta com a imagem dele, se o visse como um camarada tão carismático e também bonito usando sua boina. Mas todo mundo diria que sua educação não foi das melhores.


    Se mais tarde você descobrisse que o cara na sua camiseta foi um genocida, você talvez perguntasse à sua professora por que ela deixou de lado alguns detalhes importantes.


    Esse cenário hipotético se assemelha a um fenômeno real visto hoje em vários campi universitários. Cinquenta e dois anos depois de sua morte na Bolívia – em 9 de outubro de 1967 — o louco socialista Ernesto “Che” Guevara ainda figura nas manchetes e estraga roupas perfeitamente boas.


    No cinema e na cultura pop, Che aparece como um motociclista aventureiro, um homem simples e humilde, um revolucionário igualitário romântico e um intrépido símbolo sexual. Sua assustadora história como um dos criminosos preferidos de Fidel Castro costuma ser maquiada porque, apesar de todos os assassinatos, ele supostamente tinha boas intenções (leia-se: odiava os ricos, adorava o poder, eliminava dissidentes e ajudava os pobres criando ainda mais pobres).


    Em seu incrível livro Exposing the Real Che Guevara and the Useful Idiots Who Idolize Him [Expondo o verdadeiro Che Guevara e os idiotas úteis que o idolatram], de 2007, o aclamado jornalista Humberto Fontova compara a ficção com os fatos da seguinte forma:


    Quem foi “Che” Guevara? 

  • Mito: Homem de todos os povos. Humanitário. Corajoso combatente das liberdades.Amante da literatura e da vida. Defensor dos pobres e oprimidos.

  • Realidade: Assassino frio. Torturador sádico. Materialista sedento de poder. Terrorista que inspirou a destruição e o derramamento de sangue em toda a América Latina.


    Eis algumas informações pouco conhecidas sobre o psicopata que estampa as camisetas, tiradas do livro de Fontova e de outras fontes:

  • Ele elogiou publicamente a invasão soviética da Hungria em 1956 e chamou os manifestantes que lutaram contra os tanques soviéticos em Budapeste de “fascistas”.
  • Depois da vitória da revolução comunista em Cuba, em 1959, Che tomou para si mesmo uma das mansões mais luxuosas de Havana — com um cais para iates, uma monstruosa piscina, sete banheiros, sauna, salão de massagem e cinco aparelhos de televisão.
  • Che exerceu um importante papel na Campanha de Alfabetização cubana em 1961 e, ao mesmo tempo, ajudou a orientar a política brutal de acabar com os dissidentes e a imprensa de oposição ao regime. Como diz Fontova na biografia, Che “promoveu a queima de livros e assinou sentenças de morte para autores que discordavam dele”. Os déspotas comunistas costumam ensinar os outros a ler e escrever, mas se esforçam ainda mais para se certificarem de que você só leia e escreva o que eles querem. A primeira queima de livros de Che destruiu mais de 3.000 livros numa rua de Havana.
  • Até mesmo o hagiógrafo de Che, Jorge Castañeda, admite que Che “exerceu um papel fundamental na criação da máquina de segurança de Cuba” nos primeiros dias do regime castrista. Nessa condição, Che supervisionou a tortura e execução de milhares de cubanos sem julgamento. Ele gostava principalmente dos pelotões de fuzilamento.
  • O poeta e diplomata cubano Armando Valladares, autor de Against All Hope: My 22 Years in Castro’s Gulag [Contra todas as esperanças: meus 22 anos num gulag de Castro], diz que Che “era um homem cheio de ódio” que executava pessoas “que nunca foram julgadas e nunca foram declaradas culpadas” e que dizia que “se você tem dúvida, deve executar”.
  • Che não oprimia todos os grupos igualmente. Ele odiava especialmente os gays, que prendeu em várias prisões. Ele era também reconhecidamente racista.
  • Fidel Castro nomeou Che Guevara como o primeiro “ministro da Economia” de Cuba e presidente do Banco Nacional. Em poucos meses, o peso cubano já não valia praticamente nada. Castro o nomeou ministro da Indústria também. Nessa função, Che se provou igualmente incompetente. Uma vez ele importou uma frota de limpadores de neve da Tchecoslováquia porque achava que eles seriam ótimos para colher cana, mas infelizmente as máquinas simplesmente esmagaram e mataram as plantas.
  • Che era o czar da economia de Castro, apesar de não saber nada de economia além dos slogans marxistas. O ex-vice de Che, Ernesto Betancourt, disse que ele “ignora os princípios mais elementares da economia”. Ainda assim, ele escreveu a lei cubana de reforma agrária, limitando o tamanho de todas as fazendas e criando comunas estatais. A produção despencou e hoje ainda é menor do que era antes da revolução.
  • Os mísseis soviéticos em Cuba que quase provocaram uma guerra mundial em 1962 foram ideia de Che. Quando os soviéticos foram pressionados a retirá-lo pela administração Kennedy, Che declarou publicamente que, se os mísseis estivessem sob controle cubano, eles teriam sido disparados contra os Estados Unidos porque o socialismo valia mais do que “milhões de vítimas de uma guerra nuclear”.
  • Che deixou Cuba em 1965 para fomentar insurreições violentas primeiro na África e depois na América Latina. Ele foi capturado pelo exército boliviano em 8 de outubro de 1967 e executado no dia seguinte.
  • Em resumo: pense duas vezes (na verdade, só uma vez basta) antes de colocar uma camiseta do Che Guevara na sua lista de presentes de Natal este ano.


PS.: Lawrence W. Reed é presidente emérito e embaixador pela liberdade mundial da Foundation for Economic Education.

19 outubro 2024

Apagão em Cuba, sem surpresa

 

Já são semanas de interrupções prolongadas que atingiram todo o país sem dinheiro antes do apagão nacional desta sexta-feira, 18/10/2024

Uma mulher ferve água enquanto outra a acende com um telefone celular
 durante um apagão nacional causado por uma falha na rede elétrica em Matanzas, 
Cuba, em 18 de outubro de 2024. ANTONIO LEVI / AFP


Cuba estava correndo nesta sexta-feira, para restaurar a eletricidade após um apagão em toda a ilha. A capital Havana chegou a uma paralisação com escolas fechadas, transporte público paralisado e semáforos parando de funcionar. 

O chefe de fornecimento de eletricidade do ministério de energia, Lazaro Guerra, disse que o processo de restauração de energia para os 11 milhões de habitantes da Cuba comunista estava em seus estágios iniciais.

"Atualmente, temos algum nível de geração de eletricidade" que será usado para iniciar usinas de energia em várias regiões do país, ele acrescentou.

Guerra disse anteriormente à mídia estatal que o sistema de energia entrou em colapso devido ao desligamento inesperado da usina elétrica Antonio Guiteras, a maior das oito velhas e ultrapassadas usinas elétricas a carvão da ilha. 

O apagão ocorreu após semanas de cortes de energia, durando até 20 horas por dia em algumas províncias, o que levou o primeiro-ministro Manuel Marrero a declarar uma "emergência energética" na quinta-feira. O governo suspendeu na quinta-feira todos os serviços públicos não essenciais para priorizar o fornecimento de eletricidade às residências.

Escolas em todo o país estão fechadas até segunda-feira. Autoridades em Havana disseram que hospitais e outras instalações essenciais, que são alimentadas por geradores, permaneceriam abertas.

O presidente Miguel Diaz-Canel culpou a situação pelas dificuldades de Cuba em adquirir combustível para suas usinas de energia, o que ele atribuiu ao endurecimento de um embargo comercial de seis décadas dos EUA sob o ex-presidente Donald Trump.

Cuba está no meio de sua pior crise econômica desde o colapso da União Soviética, uma aliada importante no início da década de 1990, marcada por uma inflação altíssima e escassez de alimentos, remédios, combustível e até água.

Foi sempre assim, há mais de 60 anos, desde que os comunistas tomaram conta do poder e nunca a má gestão de seus dirigentes.

Sem alívio à vista, muitos cubanos emigraram. Mais de 700.000 entraram nos EUA entre janeiro de 2022 e agosto de 2024, de acordo com autoridades americanas.


Pessoas andam na rua à noite em Havana 
enquanto Cuba é atingida por um apagão em toda a ilha. 
18 de outubro de 2024. REUTERS/Norlys Perez 

Embora as autoridades culpem principalmente o embargo dos EUA, a ilha também está sentindo os efeitos secundários da pandemia de Covid-19 que atinge seu importante setor de turismo e da má gestão econômica.

Para reforçar sua rede, Cuba alugou sete usinas flutuantes de empresas turcas e também adicionou muitos pequenos geradores movidos a diesel. Em julho de 2021, os apagões foram a faísca para uma onda sem precedentes de raiva pública. Milhares de cubanos foram às ruas gritando "Estamos com fome" e "Liberdade!" em um raro desafio ao governo.

Uma pessoa foi morta e dezenas ficaram feridas nos protestos. De acordo com a organização de direitos humanos sediada no México Justicia 11J, 600 pessoas detidas durante a agitação permanecem na prisão. 

16 agosto 2024

Cópia da radicalização - o desejo da esquerda latino-americana

 

        A “Lei contra o Facismo” anunciada por Maduro é uma reprodução da “radicalização” marxista da ditadura de Fidel Castro em Abril de 1961. Com a Lei da Mordaça, Maduro estabelecerá a fase totalitária, uma cópia de Cuba e dos países comunistas extintos.

        Para não perdermos o fio da meada, é conveniente se relembrar que o então ex-presidiário e condenado a mais de 20 anos de prisão Lula já afirmou, em 2021, que é preciso aprovar, de forma urgente, a regulamentação da comunicação no Brasil.  “Nós vamos ter um compromisso público de que vamos fazer um novo marco regulatório dos meios de comunicação e espero que os senadores e os deputados entendam que isso é necessário para a democracia".

Em Cuba 

        As mistificações cubanas circulam apenas na TV estatal, a Cubavisión, e pelos jornais Granma e Juventud Rebelde, do Partido Comunista Cubano, os únicos que circulam em todo o país.

No Brasil

        Aqui, recentemente, temos caminhado na direção desejada por Lula. Estamos sendo patrulhados e proibidos por poderes do Estado de exercer com independência o direito de opinião. Esta tem se tornado uma atividade de risco, exceto para determinados grupos de comunicação, por enquanto.

18 julho 2024

Parceiro de Lula dolariza a economia

Enquanto Lula em suas "regradas viagens" pelo mundo a fora discursa contra o dólar e prega a criação de uma nova moeda entre os países da América Latina e aqueles que compõem os BRICS, seu parceiro na América Central dolarizou a economia interna do País. Perante a profunda crise nacional, Cuba anunciou a dolarização parcial da sua economia.

Depois de 65 anos de revolução que prometia o paraíso da igualdade e da prosperidade, um levantamento do Observatório Cubano de Direitos Humanos indicou que 72% da população do país vive abaixo da linha da pobreza. 



O que disse Lula nas reuniões com líderes da América Latina e dos BRICS

Maio de 2022:

“Vamos voltar a restabelecer nossa relação com a América Latina. E se Deus quiser vamos criar uma moeda na América Latina, porque não tem esse negócio de ficar dependendo do dólar“.

Agosto de 2023:

“Ninguém quer mudar a unidade monetária do país. O que nós queremos é criar uma moeda que permita que a gente faça negócio sem precisar comprar dólar“, disse Lula em coletiva de imprensa após a Cúpula do Brics, que ocorreu na África do Sul.

30 maio 2024

OPERAÇÃO ANADYR - CARGA PRECIOSA APANHADA EM FLAGRANTE

Em post anterior se falou sobre a decisão de Khrushchev, em 1962, de instalar mísseis nucleares em Cuba. Khrushchev confiou a implementação de sua ousada ideia a três comandantes militares de alto escalão – Biryuzov, Rodion Malinovsky (o ministro da Defesa) e Matvei Zakharov (o chefe do Estado-Maior) – e toda a operação foi planejada por um punhado de oficiais generais trabalhando em total sigilo.

Um mapa de Cuba com instruções detalhadas sobre 
como preparar a divisão de mísseis soviética no país

Dentre os principais documentos recentemente divulgados está uma proposta formal para a operação preparada pelos militares e assinada por Malinovsky e Zakharov. Está datada de 24 de maio de 1962 – apenas três dias depois de Khrushchev ter apresentado a sua ideia de colocar mísseis nucleares em Cuba ao Conselho de Defesa, o órgão político-militar supremo que ele presidiu.

De acordo com a proposta, o exército soviético enviaria para Cuba a 51ª Divisão de Mísseis, composta por cinco regimentos: todos os oficiais e soldados do grupo, cerca de 8.000 homens, deixariam a sua base no oeste da Ucrânia e ficariam permanentemente estacionados em Cuba. Eles levariam consigo 60 mísseis balísticos: 36 R-12 de médio alcance e 24 R-14 de alcance intermediário. Os R-14 foram um desafio particular: com 25 metros de comprimento e 86 toneladas, os mísseis exigiam uma série de engenheiros e técnicos de construção, bem como dezenas de esteiras, guindastes, escavadeiras e betoneiras para instalá-los nas plataformas de lançamento a serem construídas em Cuba. Às tropas da divisão de mísseis se juntariam muitos outros soldados e equipamentos: duas divisões antiaéreas, um regimento de bombardeiros Il-28, um esquadrão da Força Aérea de caças MIG, três regimentos com helicópteros e mísseis de cruzeiro, quatro regimentos de infantaria com tanques e tropas de apoio e logística. A lista dessas unidades preenchia cinco páginas da proposta de 24 de maio: 44 mil homens fardados, além de 1,8 mil especialistas em construção e engenharia.

Depreende-se dos documentos que os generais soviéticos nunca antes tinham mobilizado uma divisão completa de mísseis e tantas tropas por mar, e agora tinham de enviá-las para outro hemisfério. Imperturbáveis, os planejadores militares batizaram a operação com o nome de código “Anadyr”, em homenagem ao rio Ártico, através do Mar de Bering, a partir do Alasca – desvio geográfico concebido para confundir a inteligência dos EUA.

No topo da proposta, Khrushchev escreveu a palavra “concordo” e assinou seu nome. A alguma distância abaixo estão as assinaturas de outros 15 líderes seniores. Se a operação falhasse, Khrushchev queria garantir que nenhum outro membro da liderança pudesse distanciar-se dela. Ele conseguiu intimidar seus colegas para que literalmente aderissem ao seu esquema. 

Uma cena surpreendentemente semelhante repetir-se-ia 60 anos depois, quando, dias antes da invasão da Ucrânia, Putin forçou os membros do seu conselho de segurança, um por um, a falar em voz alta e apoiar a sua “operação militar especial” numa reunião televisiva.


À esquerda, A proposta de 24 de maio para enviar mísseis nucleares a Cuba, 
assinada no topo por Khrushchev e abaixo por outros 15 líderes seniores.
À direita: As instruções dos militares soviéticos sobre como
esconder equipamentos em navios destinados a Cuba

OPERAÇÃO ANADYR

Em 29 de maio de 1962, Biryuzov chegou a Cuba com uma delegação soviética e se fez passar por engenheiro agrônomo chamado Petrov. Castro abraçou os mísseis soviéticos como um serviço a todo o campo socialista, uma contribuição cubana à luta contra o imperialismo americano.

Em junho, quando Khrushchev se reuniu novamente com os militares, Aleksei Dementyev, um conselheiro militar soviético em Cuba que foi convocado a Moscou, emergiu como uma voz solitária de cautela. Contudo, a operação já estava decidida; era tarde demais para contestá-la, muito menos na cara de Khrushchev. No final de junho, Castro enviou o seu irmão Raul, então ministro da Defesa, a Moscou para discutir um acordo de defesa mútua que legitimaria os destacamentos militares soviéticos em Cuba. A Raul, Khrushchev prometeu enviar uma flotilha militar a Cuba para demonstrar a determinação soviética no quintal dos Estados Unidos. No entanto, por trás da alarde habitual estava o medo. Khrushchev queria manter a Anadyr em segredo durante o maior tempo possível, para que os EUA não interviessem e derrubassem os seus planos ambiciosos. E assim o acordo militar soviético-cubano nunca foi publicado.

Os principais comandantes soviéticos também queriam esconder o verdadeiro propósito da Operação Anadyr – mesmo da maior parte do resto das forças armadas soviéticas. Os documentos oficiais recentemente desclassificados, referiam-se à operação como um “exercício”. Assim, a maior aposta da história nuclear foi apresentada ao resto dos militares como treino de rotina. 

Num paralelo surpreendente, a desventura de Putin na Ucrânia também foi considerada um “exercício”, com os comandantes das unidades a serem deixados no escuro até ao último momento.

A Operação Anadyr começou para valer em julho. No dia 7, Malinovsky informou a Khrushchev que todos os mísseis e pessoal estavam prontos para partir para Cuba. A expedição foi batizada de Grupo das Forças Soviéticas em Cuba, e seu comandante era Issa Pliev, um general de cavalaria de 59 anos, veterano da Guerra Civil Russa e da Segunda Guerra Mundial. No mesmo dia, Khrushchev reuniu-se com ele, Igor Stasenko, o comandante da divisão de mísseis do exército (43 anos) e 60 outros generais, oficiais superiores e comandantes de unidades enquanto se preparavam para partir. A missão deles era voar para Cuba para reconhecimento e preparar tudo para a chegada da armada com mísseis e tropas nos meses seguintes. No dia 12 de julho, o grupo chegou a Cuba a bordo de um avião de passageiros da Aeroflot. Uma semana depois, mais cem oficiais chegaram em mais dois voos.

O comandante da operação chegou em 12 de julho. De 21 a 25 de julho, ele e outros oficiais soviéticos cruzaram a ilha, vestindo uniformes do exército cubano e acompanhados pelos guarda-costas pessoais de Castro. Inspecionaram os locais selecionados para a implantação de cinco regimentos de mísseis, todos no oeste e centro de Cuba, de acordo com o relatório otimista de Biryuzov. 

Além das dificuldades inesperadas na localização dos mísseis, os soviéticos encontraram outras surpresas em Cuba. Pliev e outros generais planejaram cavar abrigos subterrâneos para as tropas, mas o solo cubano revelou-se demasiado rochoso. Entretanto, o equipamento elétrico soviético era incompatível com o fornecimento de eletricidade cubano, que funcionava no padrão norte-americano de 120 volts e 60 hertz.

Os planejadores soviéticos também se esqueceram de considerar o clima: a temporada de furacões em Cuba vai de Junho a Novembro, precisamente quando os mísseis e as tropas tiveram de ser mobilizados, e as chuvas incessantes impediram o transporte e a construção. A eletrônica e os motores soviéticos, projetados para os climas frios e temperados da Europa, corroeram-se rapidamente com a umidade sufocante. Somente em setembro, bem depois do início da operação, o Estado-Maior enviou instruções para operação e manutenção de armamento em condições tropicais.

“Tudo isto deveria ter sido conhecido antes do início do trabalho de reconhecimento”, disse Statsenko aos seus superiores dois meses após o fim da crise, com o seu memorando repleto de irritação. Ele censurou os planejadores por saberem tão pouco sobre Cuba. “Toda a operação deveria ter sido precedida pelo menos por um mínimo de conhecimento e estudo – por parte daqueles que deveriam executar a tarefa – das capacidades econômicas do Estado, das condições geográficas locais e da situação militar e política do país.” Ele não se atreveu a mencionar o nome de Biryuzov, mas, de qualquer forma, estava claro para todos que o verdadeiro culpado era Khrushchev, que não deixara aos seus militares tempo para se prepararem.

CARGA PRECIOSA

Apesar de todas as dificuldades, Anadyr foi uma conquista logística considerável. A escala das remessas foi enorme, como detalham os documentos recentemente desclassificados. Centenas de comboios transportaram tropas e mísseis para oito portos de partida soviéticos, entre eles Sebastopol na Crimeia, Baltiysk em Kaliningrado e Liepaja na Letónia. Nikolayev – hoje a cidade ucraniana de Mykolayiv – no Mar Negro serviu como principal centro de transporte de mísseis devido às suas gigantescas instalações portuárias e ligações ferroviárias. 

NÚMEROS EXPRESSIVOS

Como os guindastes do porto eram pequenos demais para carregar os foguetes maiores, um guindaste flutuante de 100 toneladas foi trazido para fazer o trabalho. O carregamento acontecia à noite e geralmente demorava dois ou três dias por míssil. Tudo foi feito pela primeira vez e os engenheiros soviéticos tiveram que resolver inúmeros problemas na hora. Eles descobriram como amarrar mísseis dentro de navios que normalmente eram usados para transportar grãos ou cimento e como armazenar combustível líquido de foguete com segurança dentro do porão. Duzentos e cinquenta e seis vagões entregaram 3.810 toneladas métricas de munições. Foram enviados cerca de 8.000 caminhões e carros, 500 reboques e 100 tratores, juntamente com 31.000 toneladas métricas de combustível para carros, aviões, navios e, claro, mísseis. Os militares despacharam 24.500 toneladas de alimentos. Os soviéticos planejavam permanecer em Cuba por muito tempo.

De julho a outubro, a armada de 85 navios transportou homens e suprimentos do Mar Negro, através do Mediterrâneo e através do Oceano Atlântico. As tripulações dos navios puderam perceber que suas embarcações não passavam despercebidas. 

Mas os navios tiveram sorte e chegaram a Cuba sem incidentes. No dia 9 de setembro, os primeiros seis mísseis R-12, guardados no cargueiro Omsk, chegaram ao porto de Casilda, na costa sul de Cuba. Outros chegaram mais tarde a Mariel, a oeste de Havana. Os mísseis foram descarregados secretamente à noite, entre 12h e 5h. Os trabalhadores da construção civil que deveriam construir plataformas para os mísseis R-14 mais pesados ainda não haviam chegado, então os soldados presentes tiveram que fazer todo o trabalho.

Havia então cerca de 44 mil militares soviéticos em solo cubano. Os da divisão de mísseis de Statsenko concentraram-se na construção de plataformas de lançamento para mísseis R-12. Outros tripulavam bombardeiros, mísseis terra-ar, caças e outros armamentos que Moscou enviara para a ilha.

O Estado-Maior soviético queria que as plataformas de lançamento do R-12 fossem concluídas até 1º de novembro. Porém, em meados de outubro, nenhum dos locais de mísseis estava pronto. Aquela que estava mais perto de ser concluída – a instalação do R-12 perto de Calabazar de Sagua, no centro de Cuba – estava afetada por problemas de comunicação, sem qualquer ligação de rádio confiável entre ela e a sede em Havana. Estava quase tudo pronto. E então chegou o dia 14 de outubro.

Naquela manhã, um avião espião americano U-2, voando a 72.500 pés e equipado com uma câmera de grande formato, passou por cima de alguns canteiros de obras. Dois dias depois, as fotografias estavam na mesa de Kennedy.


Mapa soviético detalhando o progresso 
das instalação dos mísseis

Embora Khrushchev tenha delirado e se enfurecido nos primeiros dois dias após Kennedy ter declarado o bloqueio naval, acusando os Estados Unidos de duplicidade e “pirataria total”, em 25 de Outubro, ele mudou de tom. Naquele dia, ele ditou uma carta a Kennedy na qual prometia retirar os mísseis em troca da promessa americana de não intervenção em Cuba. Dois dias depois, ele adicionou à sua lista de desejos a remoção dos mísseis Júpiter dos EUA na Turquia, confundindo Kennedy e prolongando a crise. No final, Kennedy decidiu aceitar a oferta. Ele instruiu seu irmão Robert, o procurador-geral, a se reunir com Anatolii Dobrynin, o embaixador soviético em Washington.

Na noite de 27 de Outubro, Robert Kennedy fez uma promessa informal de retirar os mísseis Júpiter da Turquia, mas insistiu que a concessão deveria permanecer secreta. Os telegramas recentemente disponíveis de Moscou para Dobrynin mostram quão importante era esta garantia para Khrushchev. O embaixador foi especificamente instruído a extrair a palavra “acordo” de Kennedy, presumivelmente para que Khrushchev pudesse vender o acordo como uma capitulação americana ao seu círculo íntimo. Ao criar a impressão de que Kennedy também estava a fazer concessões, a palavra “acordo” ajudaria a redenominar uma rendição como uma vitória, uma troca Cuba-pela-Turquia.

O desenvolvimento mais perturbador de todos, contudo, foi um apelo que Castro enviou na manhã de 27 de Outubro, hora de Havana, no qual pedia a Khrushchev que lançasse um ataque nuclear preventivo contra os Estados Unidos se os americanos ousassem invadir Cuba. Os historiadores há muito que conhecem este apelo, mas graças aos novos documentos, sabe-se agora mais sobre o que Khrushchev pensava dele. “O que é isso: uma loucura temporária ou ausência de cérebro?” ele se irritou em 30 de outubro, de acordo com um ditado desclassificado feito por sua secretária.

APRENDER E ESQUECER

De acordo com os pesquisadores Sergey Radchenko e Vladislav Zubok, desde 1962, historiadores, cientistas políticos e teóricos dos jogos têm repetido incessantemente a crise dos mísseis cubanos. Foram publicados volumes de documentos e realizaram-se inúmeras conferências e jogos de guerra. O clássico relato da crise de Graham Allison, "Essence of Decision", foi publicado em 1971 e atualizado em 1999 com a ajuda de Philip Zelikow. Uma das conclusões do livro original, também incluída na edição revista, resistiu ao teste do tempo: a crise foi “o acontecimento definidor da era nuclear e o momento mais perigoso registado na história”.

Mas os documentos soviéticos desclassificados fazem algumas correções importantes à visão convencional, destacando o calcanhar de aquiles do processo de tomada de decisão do Kremlin, que persiste até hoje: um mecanismo de feedback quebrado. Os líderes militares soviéticos tinham conhecimentos mínimos sobre Cuba, enganaram-se sobre a sua capacidade de esconder a sua operação, ignoraram os perigos do reconhecimento aéreo dos EUA e ignoraram os avisos dos especialistas. Um pequeno círculo de altos funcionários que nada sabiam sobre Cuba, agindo em extremo sigilo, elaborou um plano desleixado para uma operação que estava fadada ao fracasso e nunca permitiu que ninguém questionasse as suas suposições.

Na verdade, foi a falha do mecanismo de feedback que levou à causa imediata da crise, os mísseis mal camuflados. Allison e Zelikow concluíram que este descuido não foi o resultado de incompetência, mas uma consequência do facto de os militares soviéticos seguirem inconscientemente os seus procedimentos operacionais padrão, que tinham sido “concebidos para ambientes em que a camuflagem nunca tinha sido necessária”. Nesta visão, as forças soviéticas não conseguiram camuflar adequadamente os mísseis simplesmente porque nunca o tinham feito antes.

A nova evidência dá uma resposta diferente. Os soviéticos reconheceram plenamente a importância de esconder os mísseis, e toda a estratégia de Khrushchev baseou-se, de fato, na falsa suposição de que seriam capazes de fazer exatamente isso. Os oficiais militares soviéticos em Cuba também estavam conscientes da importância de ocultar os mísseis. Eles reconheceram o perigo do reconhecimento aéreo dos EUA, tentaram enfrentá-lo propondo locais melhores e ainda assim falharam. O cerne do problema era o descuido e a incompetência originais de Biryuzov. A sua conclusão imediata de que os mísseis poderiam estar escondidos sob as palmeiras foi transmitida como uma verdade incontestável. Especialistas militares muito abaixo dele na hierarquia notaram que os mísseis seriam expostos aos sobrevoos do U-2 e relataram devidamente o problema à cadeia de comando. No entanto, os planejadores do Estado-Maior nunca corrigiram a situação, não querendo incomodar os seus superiores ou questionar a ideia de toda a operação. 

A Operação Anadyr falhou não porque as forças de foguetes soviéticas estivessem demasiado apegadas aos seus procedimentos padrão, mas porque a hipercentralização militar impediu que os mecanismos de feedback funcionassem corretamente.