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18 janeiro 2026

Por que o mundo da tecnologia acha que o sonho americano está morrendo?

 


O Vale do Silício está repleto de sonhos de todos os tipos. Mas uma dessas ideias mirabolantes, debatida há tempos em casas de hackers, está se tornando um pesadelo real: será que o boom da IA ​​será a última chance de enriquecer antes que a inteligência artificial torne o dinheiro essencialmente sem valor? 

O argumento é que as empresas de tecnologia (e seus líderes) se tornarão uma classe à parte, com riqueza infinita. Ninguém mais terá os meios para gerar dinheiro para si, porque a IA terá tomado seus empregos e oportunidades.

Em outras palavras, a ponte está prestes a ser erguida para aqueles que perseguem o sonho americano. E todos estão preocupados em ficar do lado errado.

É o tipo de FOMO (Fear of Missing Out - medo de ficar de fora) que, à primeira vista, parece exigir uma enorme suspensão da descrença. Mas a mera existência da ideia ajuda a explicar algumas das crescentes preocupações de classe na Califórnia, onde um movimento crescente para taxar bilionários está agitando o Partido Democrata, a habitação acessível é uma preocupação real e a ideia de classe média parece inatingível.

Sim, cheira a ficção científica. Mas em São Francisco, a realidade é palpável. E torna-se ainda mais crível pelas façanhas de Elon Musk, a ascensão de Sam Altman na OpenAI e os alertas de Dario Amodei, da Anthropic, sobre o deslocamento de trabalhadores em níveis comparáveis ​​aos da Grande Depressão.

"A transição será turbulenta", disse Musk este mês em um podcast. "Teremos mudanças radicais, agitação social e imensa prosperidade." E esse é o melhor cenário possível para Musk.

A história está repleta de booms tecnológicos que criam novos vencedores e perdedores. Os otimistas em relação à IA gostam de ressaltar que a maré alta tende a elevar todos os barcos.

O que se discute agora — a perda massiva de empregos devido à automação e a necessidade de redes de proteção social, na forma de uma renda básica universal — pinta um futuro dramaticamente diferente. Ainda não está claro se há interesse na chamada RBU (Renda Básica Universal), que contraria os ideais fundamentais de realização pessoal de muitos americanos.

“Eu costumava ficar muito entusiasmado com a Renda Básica Universal… mas acho que as pessoas realmente precisam de autonomia; elas precisam sentir que têm voz na governança do futuro e nas decisões sobre o rumo das coisas”, disse Altman, CEO da OpenAI, no ano passado, quando questionado por um podcaster sobre como as pessoas criarão riqueza na era da IA. “Se você simplesmente disser: ‘OK, a IA vai fazer tudo e aí todo mundo recebe… um dividendo disso’, não vai ser uma sensação boa, e eu não acho que isso seria bom para as pessoas.”

Se o dinheiro estiver escasso, bens raros, como a arte, podem se tornar essenciais. Musk já afirmou isso. Sua visão para o futuro envolve robôs que realizam tarefas físicas enquanto a humanidade luta para acompanhar o raciocínio da IA, levando ao que ele chama de "renda alta universal" e uma era de abundância.

"Se não houver escassez de recursos, não fica claro qual o propósito do dinheiro", disse ele em uma conferência no ano passado. Mais recentemente, Musk sugeriu que as pessoas nem deveriam se preocupar em poupar para a aposentadoria, prevendo que a IA fornecerá saúde e entretenimento. "Não fará diferença", disse ele sobre as economias para a aposentadoria.

Declarações ousadas de um cara que insistiu em um pacote de remuneração de US$ 1 trilhão da Tesla, onde é CEO — que, segundo ele, não era sobre dinheiro, mas sobre manter o controle da empresa de investidores ativistas equivocados.

Ainda assim, pode parecer que os ricos estão tentando ficar mais ricos. Então, talvez não seja surpreendente que a comunidade tecnológica de São Francisco esteja impregnada por uma atmosfera de "enriquecer agora ou morrer tentando".

Sheridan Clayborne, um jovem que trabalha no cenário de startups de IA, parecia personificar o espírito da época quando foi citado no San Francisco Standard no último outono. "Esta é a última chance de construir riqueza para as próximas gerações", disse ele, segundo o site de notícias online. "Você precisa ganhar dinheiro agora, antes de se tornar parte da classe baixa permanente."

Era um sentimento que teria se encaixado perfeitamente alguns anos antes, durante a febre das ações de memes e a abordagem de investimento "YOLO" (You Only Live Once - Você Só Vive Uma Vez).

Semanas depois, publicações em redes sociais como Facebook, X e LinkedIn começaram a afirmar que Jensen Huang, da Nvidia, havia dito algo semelhante. O CEO, segundo essas publicações entusiasmadas, estava alertando que "o período de 2025 a 2030 pode ser a última grande chance para pessoas comuns construírem riqueza real por meio da tecnologia".

Assustador, exceto pelo fato de que Huang não disse isso. Em vez disso, suas inúmeras aparições públicas nos últimos meses foram repletas de discursos sobre o potencial da IA ​​como uma força equalizadora por meio da tecnologia.

"Teremos uma abundância de recursos, coisas que consideramos valiosas hoje, mas que no futuro não serão tão valiosas... porque tudo será automatizado", disse Huang a Joe Rogan no mês passado.

Pode ser difícil distinguir fato de ficção em uma era tecnológica que parece saída diretamente de um romance de Iain Banks. E os investidores em empresas de IA têm bilhões, senão trilhões, de razões para esperar que suas apostas não sejam apenas ganhos únicos em uma geração, mas sim ganhos únicos na história da humanidade.

Contribuindo ainda mais para o medo de perder uma oportunidade (FOMO) em São Francisco, está a expectativa de que empresas locais de IA, como a OpenAI e a Anthropic, abram seu capital em breve, criando muitos outros milionários.

Depois que o New York Times publicou uma manchete na semana passada sobre a onda de "mega" IPOs esperados para este ano, o corretor de imóveis local Rohin Dhar postou no X: "Permita-me humildemente sugerir que você compre sua casa em São Francisco antes disso."

O empreendedor de tecnologia, que já fez parte da Y Combinator anos atrás, me disse que se sentiu atraído pelo mercado imobiliário em parte por acreditar que a nova riqueza gerada pela IA impulsionará um boom imobiliário. Ou, como ele previu no ano passado, "o maior boom tecnológico de todos os tempos está chegando".

Aproveite enquanto pode.

Tim Higgins

Jan. 18, 2026 at 5:30 am ET

31 dezembro 2025

Quando o talento é o produto, você paga o que for preciso para mantê-lo

    De acordo com dados financeiros que apresentou a investidores, a OpenAI paga a seus funcionários mais do que qualquer outra grande startup de tecnologia na história recente. A remuneração baseada em ações da empresa em 2025 atingiu uma média de US$ 1,5 milhão por funcionário, em média, considerando sua força de trabalho de aproximadamente 4.000 pessoas.

    Isso é mais de sete vezes maior do que a remuneração baseada em ações divulgada pelo Google em 2003, antes de seu IPO em 2004. Os US$ 1,5 milhão representam cerca de 34 vezes a remuneração média de funcionários de outras 18 grandes empresas de tecnologia no ano anterior à abertura de capital, segundo uma análise do Wall Street Journal com base em dados compilados pela Equilar. A análise examinou os principais IPOs de empresas de tecnologia dos últimos 25 anos.

    Remuneração baseada em ações antes do IPO, em dólares ajustados pela inflação de 2025, entre as principais empresas de tecnologia que abriram capital desde 2000. 👇

    Para manter sua liderança na corrida da IA, a OpenAI está distribuindo pacotes de remuneração em ações para seus principais pesquisadores e engenheiros, tornando-os alguns dos funcionários mais ricos do Vale do Silício. As bonificações em ações estão aumentando os grandes prejuízos operacionais da empresa e diluindo rapidamente a participação dos acionistas existentes.

    Com a intensificação da corrida armamentista da IA ​​neste verão, laboratórios de ponta como a OpenAI sofreram pressão para aumentar a remuneração de seus funcionários depois que o CEO da Meta Platforms, Mark Zuckerberg, começou a oferecer pacotes de remuneração no valor de centenas de milhões de dólares — e, em alguns casos raros, US$ 1 bilhão — para executivos e pesquisadores de alto escalão em empresas concorrentes.

    A campanha de recrutamento de Zuckerberg atraiu mais de 20 funcionários da OpenAI, incluindo o co-criador do ChatGPT, Shengjia Zhao. Em agosto, a OpenAI concedeu um bônus único a alguns de seus funcionários de pesquisa e engenharia, com alguns recebendo milhões de dólares, conforme relatado anteriormente pelo The Wall Street Journal.

        Os dados financeiros, compartilhados com investidores durante o verão, mostram que a remuneração baseada em ações da OpenAI deverá aumentar em cerca de US$ 3 bilhões anualmente até 2030.

    A empresa informou recentemente aos funcionários que descontinuará uma política que exigia que os colaboradores trabalhassem na OpenAI por pelo menos seis meses antes de receberem suas ações. Essa mudança pode levar a novos aumentos na remuneração.

    Em média, a remuneração baseada em ações representou cerca de 6% da receita das empresas de tecnologia analisadas pelo Wall Street Journal no ano anterior ao seu IPO, de acordo com os dados da Equilar.

09 novembro 2025

Gigantes da tecnologia estão tentando criar bebês geneticamente modificados

     A imprensa americana divulgou que durante meses, uma pequena empresa em São Francisco tem se dedicado a um projeto secreto: o nascimento de um bebê geneticamente modificado.

    Apoiada pelo co-fundador e CEO da OpenAI (ChatGPT), Sam Altman, e seu MARIDO, juntamente com o cofundador e CEO da Coinbase, Brian Armstrong, a startup — chamada Preventive — tem se preparado discretamente para o que seria um feito inédito na biologia. Eles estão trabalhando para criar uma criança a partir de um embrião editado para prevenir uma doença hereditária. Nos últimos meses, executivos da empresa disseram em particular que um casal com uma doença genética havia sido identificado e estava interessado em participar, de acordo com pessoas familiarizadas com as conversas.

    As tecnologias de edição genética atualmente usadas para tratamento após o nascimento permitem que os cientistas cortem, editem e insiram DNA, mas usar o processo em espermatozoides, óvulos ou embriões é muito mais controverso e levou cientistas a pedirem uma moratória global até que as questões éticas e científicas sejam resolvidas. A edição de genes em embriões com a intenção de criar bebês a partir deles é proibida nos EUA e em muitos países.

    A Preventive tem buscado locais para realizar experimentos onde a edição de embriões seja permitida, incluindo os Emirados Árabes Unidos, segundo o conteúdo da matéria que divulgou essas informações.

    Ainda segundo a reportagem, muitos especialistas temem que a ciência seja imprevisível demais para ser segura e possa inaugurar uma nova era de experimentação humana por empresas privadas sem a participação ou debate público ou governamental. Alguns também levantam o espectro da eugenia.

    A Preventive está na vanguarda de um número crescente de startups, financiadas por algumas das pessoas mais poderosas do Vale do Silício, que estão expandindo os limites da fertilidade e trabalhando para comercializar tecnologias genéticas reprodutivas. Alguns estão trabalhando na edição de embriões, enquanto outros já vendem ferramentas de triagem genética que buscam contabilizar a influência de dezenas ou centenas de genes em uma característica.


PS.: A extensa matéria poderá ser acessada, de forma não gratuita, aqui.

19 julho 2025

Hollywood está perdendo terreno para o YouTube

    Uma geração que cresceu assistindo YouTubers em tablets e celulares migrou para as TVs, e Hollywood está perdendo terreno.

    A sede da principal fonte mundial de entretenimento em vídeo não tem nenhum dos atrativos de um estúdio de Hollywood. Não há pôsteres de programas populares, nem roteiristas apresentando ideias, nem estúdios de gravação, nem turistas.

    Mas, depois de ser pioneiro no vídeo que assistimos em nossos laptops e celulares, o YouTube agora é o rei do território de Hollywood: a TV.

    O YouTube se tornou o provedor de vídeos mais assistido em televisores nos EUA no início deste ano, e sua liderança só cresceu, de acordo com dados da Nielsen. As pessoas agora assistem ao YouTube em televisores mais do que em seus celulares ou qualquer outro dispositivo — uma média de mais de um bilhão de horas por dia. Isso é mais visualizações do que a Disney obtém de sua rede de transmissão, mais de uma dúzia de canais a cabo e três serviços de streaming combinados.


    Em resposta, os influenciadores, produtores e artistas do YouTube — conhecidos coletivamente como criadores — estão produzindo vídeos mais longos e de alta qualidade que atraem famílias e grupos de amigos que assistem em suas salas de estar. O YouTube também está aprimorando rapidamente seu aplicativo de TV, adicionando novos recursos para tentar manter as pessoas assistindo aos seus vídeos gratuitos por mais tempo. (Separadamente, o YouTube também vende o YouTube TV, um pacote de canais de US$ 83 por mês, semelhante à TV a cabo.)

    No verdadeiro estilo do Vale do Silício, a empresa de propriedade do Google não busca apenas ampliar sua liderança em TVs, mas dominar o futuro do entretenimento.

“Nosso objetivo é que o aplicativo do YouTube seja a porta de entrada das pessoas para o máximo possível do universo de conteúdo em vídeo que existe na internet”, disse Christian Oestlien, vice-presidente de gerenciamento de produtos para TVs conectadas do YouTube. Uma maneira pela qual a empresa está considerando manter as pessoas grudadas no YouTube em suas TVs por mais tempo, disse ele, é por meio de feeds de conteúdo personalizados, como os melhores momentos de um time de futebol americano.

    Durante a maior parte dos últimos 20 anos, desde sua fundação, o YouTube foi uma alternativa à televisão, um lar para itens baratos e de baixa qualidade, como vídeos tutoriais e manobras de skate, que Hollywood temia que estivessem distraindo as pessoas do entretenimento real.

    O YouTube começou há quase 20 anos com os dois amigos trabalhando sozinhos na Carolina do Norte cresceu e se tornou um canal que já conta com 19,3 milhões de inscritos.

09 janeiro 2025

Zuckerberg está certo sobre as ordens secretas de censura de Moraes





Glenn Greenwald

Jornalista, advogado constitucionalista e fundador do The Intercept


Folha de São Paulo - 8 de janeiro de 2025


    Há muitas razões para encarar com ceticismo - e como oportunismo político— o anúncio de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, nesta terça-feira (7). O próprio Zuckerberg frequentemente defendeu e até impôs o tipo exato de censura politica online que condenou.

    A primeira vez que relatei a censura das big techs foi ao documentar em 2016 a estreita relação do Facebook com o governo israelense. A plataforma aprovava mais de 95% dos pedidos de censura contra jornalistas e ativistas palestinos. Pouco antes da eleição de 2020 nos EUA, o Facebook suprimiu reportagens que desfavoreciam Joe Biden.

    Em 2021, o Facebook baniu o então presidente Donald Trump de sua plataforma por dois anos. Durante a pandemia, a empresa removeu uma ampla gama de opiniões divergentes das ortodoxias sobre a Covid-19, a pedido do governo Biden -incluindo visões que o próprio Zuckerberg mais tarde admitiu serem "debatíveis" ou "até verdadeiras".

    Independentemente das motivações, há um ponto em que Zuckerberg está inegavelmente correto. Em uma declaração amplamente entendida como direcionada ao Brasil e ao STF, o fundador do Facebook afirmou que "países latino-americanos têm tribunais secretos que po- dem ordenar que empresas removam conteúdos de maneira silenciosa".

    O motivo pelo qual esse comentário foi associado ao Brasil é simples: isso acontece no Brasil. Ironicamente, os mesmos grandes veículos de mídia e autoridades governamentais que protestaram contra a nova política da Meta, alertando sobre os perigos da "desinformação" —e insistindo que só eles podem definir a verdade— espalharam desinformação em resposta.

    Eles acusaram Zuckerberg de fazer tal afirmação sobre o Brasil "sem evidências". A verdade é exatamente o oposto: as evidências são claras e abundantes.

    Em abril passado, este jornal publicou um editorial com o título: "Censura promovida por Moraes tem de acabar". O texto alertava sobre exatamente o que Zuckerberg apontou ontem: "Ordens secretas de Alexandre de Moraes proíbem cidadãos de se expressarem em redes sociais". E acrescentava: "O secretismo dessas decisões impede a sociedade de escrutinar a leitura muito particular do texto constitucional que as embasa".

    Em janeiro de 2023, obtive e publiquei uma dessas muitas ordens secretas de censura emitidas por Moraes. Para entender a veracidade das alegações de Zuckerberg sobre o Brasil, basta ler a ordem de Moraes. Datada de 1 de janeiro de 2023, foi endereçada a seis plataformas de mídia social, incluindo Facebook e Instagram, da Meta. O ministro do STF ordenava que as plataformas banissem imediatamente as contas de uma longa lista de políticos, jornalistas, comentaristas, incluindo deputados e senadores eleitos.

    Como parte da ordem, Moraes exigiu que as plataformas mantivessem a censura em sigilo: "Diante do caráter sigiloso destes autos, deverão ser adotadas as providências necessárias para a sua manutenção", escreveu ele.


    Antes de publicar essas ordens, entrevistei várias pessoas cujas contas foram banidas por determinação de Moraes. Nenhuma delas foi informada da existência das ordens ou recebeu explicações sobre o banimento, muito menos teve a oportunidade de contestar sua validade. Isso é, por definição, uma ordem secreta de censura. Desde então, outras ordens similares de Moraes foram reveladas, incluindo jornalistas que trabalharam nos chamados Twitter Files.

    Pode-se, se quiser, justificar o esquema de censura secreta de Moraes, como muitos já fizeram, junto com tudo o mais que ele realiza. Mas não se pode negar —pelo menos não de forma honesta— a existência desse processo judicial secreto de censura.

08 janeiro 2025

Anúncio de Zuckerberg revela tanto o histórico do FB como os que a ele deram ordens para implementação da censura

        Um resultado da vitória de Donald Trump é que os CEOs empresariais estão repensando sua obediência à esquerda democrata. O exemplo mais recente é a decisão bem-vinda da Meta esta semana de abandonar seu regime de censura.


        Em um mea culpa histórico,  Mark Zuckerberg afirmou: "Chegamos a um ponto em que há muitos erros e muita censura. As eleições recentes impuseram um ponto de inflexão cultural para priorizar novamente o conteúdo dos usuários e suas liberdades de expressão."

        Priorizar novamente revela tanto o histórico do FB como os que a ele deram as ordens para implementação da censura. Vejamos. Em seus primeiros anos, o Facebook adotou uma abordagem não intervencionista para moderar o conteúdo. Mas após a eleição americana de 2016, os democratas, com viés de esquerda - os progressistas - criticaram a plataforma por não fazer mais para remover a desinformação russa, que eles alegaram ter ajudado Trump a vencer.

        O Facebook então estabeleceu um sistema opaco no qual checadores certificados, como veículos de comunicação e organizações sem fins lucrativos, verificavam os conteúdos das postagens. Aqueles classificados como enganosos ou falsos foram rebaixados nos feeds de usuários ou simplesmente recusados.

        Em 2019, Zuckerberg tentou acalmar as fúrias se comprometendo com a liberdade de expressão. "Cada vez mais, em todo o espectro, parece que há mais pessoas que priorizam obter os resultados políticos que desejam em vez de garantir que todos possam ser ouvidos", disse ele na Universidade de Georgetown. "Acredito que devemos continuar a defender a liberdade de expressão."

        Mas, à medida que os ventos em Washington sopravam para a esquerda, o mesmo acontecia com o discurso da plataforma. Após a revolta no Capitólio em 6 de janeiro de 2021, a plataforma baniu o  Trump. Em seguida, suprimiu visões contrárias relacionadas à Covid que os democratas consideraram desinformação, muitas vezes sem explicação.

        Contudo, uma descoberta legal revelou como os executivos da Meta se curvaram às demandas de autoridades de Biden para censurar "desinformação". A Suprema Corte decidiu no ano passado que os demandantes não provaram que foram censurados em resposta direta à pressão do governo, mas o caso expôs o conluio entre a Administração Biden e a Big Tech.

         A censura progressiva estimulou Elon Musk a comprar o antigo Twitter para fornecer um fórum de liberdade de expressão. Musk eliminou os controles de discurso político da plataforma e implementou o sistema Community Notes no qual os usuários podem sinalizar postagens para fornecer mais contexto. Em outras palavras, combata o discurso ruim com mais discurso. Zuckerberg disse nesta terça-feira que encerrará sua verificação de conteúdos através de terceiros certificados  e adotará o sistema do X (antigo Twitter).

         Tais mudanças podem ser em parte motivadas pelo desejo de Zuckerberg se acertar com os republicanos que em breve controlarão Washington e evitarão a regulamentação. Mas Zuckerberg, sem dúvida, também está respondendo à mensagem que os eleitores enviaram ao eleger Trump: "Parem o imperialismo progressista".

Repercussão no Brasil 

         repercussão no Brasil foi imediata. A esquerda não resistiu e vestiu a carapuça imediatamente ao se manifestar que reagiria ao anúncio. Não quer aceitar a decisão do Zuckerberg, cuja metodologia até então vigente na Meta vinha sendo elogiada. As manifestações vieram do Palácio do Planalto, de parlamentares e da velha imprensa, conforme se pode ver através das imagens a seguir.

Manuela d'Ávila
















 

  
 










11 dezembro 2024

Centro de engenharia do Google no Brasil ficará em edifício histórico de SP

 

O  novo centro de engenharia do Google no Brasil, está sendo instalado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), nas imediações da Universidade de São Paulo (USP).

O local vai abrigar equipes focadas principalmente em segurança. Também terá um hub para proteção e privacidade, o Google Safety Engineering Center (GSEC), que será o quarto do mundo e o primeiro fora da Europa. O espaço também contará com um centro de teste e desenvolvimento de tecnologias assistivas, o Accessibility Discovery Centre (ADC). 

O projeto é uma parceria com o governo paulista, com duração de 10 anos. Em contrapartida, a big tech teve que revitalizar espaços do IPT para abrigar bibliotecas, acervos e outras instalações que foram deslocadas do prédio para abrir espaço às operações da gigante de tecnologia. As obras de readequação no IPT começaram no ano passado e parte delas ainda será entregue, como as da biblioteca e acervo.

Esse é o segundo centro de engenharia localizado no Brasil - o primeiro opera em Belo Horizonte desde 2006. Os profissionais vão trabalhar para desenvolvimento e criação de soluções para o Brasil e para a operação internacional do Google, em ferramentas como Gmail e de Busca. O foco será em segurança, proteção e privacidade, com aplicação de recursos de inteligência artificial.

No prédio histórico da década de 1940, o Edifício Adriano Marchini, a big tech terá uma operação com capacidade para 400 pessoas, em 7 mil metros quadrados. 

Segundo Alexandre Freire, diretor do Centro de Engenharia do Google em São Paulo, serão “centenas” de vagas abertas até janeiro de 2026, quando o local vai começar a operar. O objetivo é “criar tecnologias aqui e exportá-las para o restante do mundo”, afirmou.

Freire deu dois exemplos de soluções que já foram criadas no Brasil e “exportadas” - o recurso de segurança no Android chamado de “modo ladrão”, que bloqueia a tela do celular em furtos e também um recurso de segurança para o YouTube que autentifica a identidade do usuário por meio de uma selfie. Com a expansão da operação no país, o Google espera aumentar a participação “no tecido da sociedade brasileira”, afirmou o presidente da empresa no Brasil, Fábio Coelho. Ele destacou que há um “mercado fértil” local para o desenvolvimento de áreas emergentes na indústria de tecnologia, como privacidade, segurança e IA, e que essa é uma oportunidade para que ”problemas dos brasileiros sejam resolvidos por brasileiros”.

Centro de engenharia do Google no Brasil ficará em edifício histórico de SP e terá laboratório de cibersegurança

 


O Google vai dar início na próxima semana às obras do novo centro de engenharia no Brasil, que será instalado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), nas imediações da Universidade de São Paulo (USP). O anúncio foi feito nesta segunda-feira, em evento na capital paulista.

O local vai abrigar equipes focadas principalmente em segurança. Também terá um hub para proteção e privacidade, o Google Safety Engineering Center (GSEC), que será o quarto do mundo e o primeiro fora da Europa. O espaço também contará com um centro de teste e desenvolvimento de tecnologias assistivas, o Accessibility Discovery Centre (ADC). 

O projeto é uma parceria com o governo paulista, com duração de 10 anos. Em contrapartida, a big tech teve que revitalizar espaços do IPT para abrigar bibliotecas, acervos e outras instalações que foram deslocadas do prédio para abrir espaço às operações da gigante de tecnologia. As obras de readequação no IPT começaram no ano passado e parte delas ainda será entregue, como da biblioteca e acervo.

Esse será o segundo centro de engenharia localizado no Brasil - o primeiro opera em Belo Horizonte desde 2006. Os profissionais vão trabalhar para desenvolvimento e criação de soluções para o Brasil e para a operação internacional do Google, em ferramentas como Gmail e a Busca. O foco será em segurança, proteção e privacidade, com aplicação de recursos de inteligência artificial.

Em um prédio histórico da década de 1940, o Edifício Adriano Marchini, a big tech terá uma operação com capacidade para 400 pessoas, em 7 mil metros quadrados. As contratações de engenheiros, cientistas de dados, designs e pesquisadores já começou. Enquanto o novo centro não é inaugurado, os profissionais vão trabalhar em outras instalações do Google. 

A empresa não revelou o número de engenheiros que serão contratados. Segundo Alexandre Freire, diretor do Centro de Engenharia do Google em São Paulo, serão “centenas” de vagas abertas até janeiro de 2026, quando o local vai começar a operar. O objetivo é “criar tecnologias aqui e exportá-las para o restante do mundo”, afirmou.

Freire deu dois exemplos de soluções que já foram criadas no Brasil e “exportadas” - o recurso de segurança no Android chamado de “modo ladrão”, que bloqueia a tela do celular em furtos e também um recurso de segurança para o YouTube que autentifica a identidade do usuário por meio de uma selfie. Com a expansão da operação no país, o Google espera aumentar a participação “no tecido da sociedade brasileira”, afirmou o presidente da empresa no Brasil, Fábio Coelho. Ele destacou que há um “mercado fértil” local para o desenvolvimento de áreas emergentes na indústria de tecnologia, como privacidade, segurança e IA, e que essa é uma oportunidade para que ”problemas dos brasileiros sejam resolvidos por brasileiros”.

25 novembro 2024

Comunicação e democracia: como salvar a democracia e a tecnologia?

À medida que mais e mais pessoas obtêm suas notícias das mídias sociais, a influência política das empresas de tecnologia tem sido cada vez mais examinada. Muitos observadores notaram, por exemplo, o uso pelo empresário Elon Musk da plataforma que ele possui, X (anteriormente conhecida como Twitter), como uma ferramenta em seu apoio ao presidente eleito Donald Trump. Mas identificar problemas com a influência das grandes empresas de tecnologia pode ser mais fácil do que encontrar soluções viáveis. Em alguns casos, o governo dos EUA agiu para combater o poder de monopólio dessas empresas — apenas esta semana, por exemplo, o Departamento de Justiça propôs uma divisão do Google como parte de um grande caso antitruste contra a empresa. Os obstáculos legais que os reguladores encontraram, no entanto, demonstram a dificuldade de promover qualquer tipo de mudança.

Em um ensaio de 2021, o cientista político Francis Fukuyama, o jurista Barak Richman e o especialista em algoritmos Ashish Goel alertaram sobre as consequências políticas do domínio das Big Techs. Essas corporações deveriam levantar bandeiras vermelhas "não apenas porque detêm tanto poder econômico, mas também porque exercem tanto controle sobre a comunicação política" [...] "Esses gigantes agora dominam a disseminação de informações e a coordenação da mobilização política. Isso representa ameaças únicas a uma democracia que funciona bem", escreveram.

Muitos cidadãos exigiram que essas plataformas, e seus proprietários, assumissem mais responsabilidade pelo conteúdo que promovem. Mas esperar que grandes empresas de tecnologia policiem seu próprio comportamento "não é uma solução de longo prazo", [ ... ] "Nenhuma democracia liberal se contenta em confiar poder político concentrado a indivíduos com base em suposições sobre suas boas intenções. [ ... ]  "Se não for abordado, esse poder é como uma arma carregada em cima de uma mesa. No momento, as pessoas sentadas do outro lado da mesa provavelmente não pegarão a arma e puxarão o gatilho", escreveram Fukuyama, Richman e Goel.

Jaron Lanier, um dos participantes do documentário "O dilema das redes", produzido para a Netflix, lançou, em 2018, seu quarto livro no qual denuncia o Vale do Silício de um modo geral, e o Facebook, em particular, como uma verdadeira máquina de FAZER E CONTROLAR cabeças.

Tal percepção sobre o uso dessa "máquina" chegou também ao mundo político, especialmente às ditaduras, incluindo as de toga como está ocorrendo no Brasil. O País é a bola da vez e o esboço de seu ministério da verdade não é mais segredo para ninguém. Diariamente, suas lideranças, principalmente as do executivo e do judiciário, têm tomado decisões persecutórias, revanchistas e expressado discursos assustadores e ameaças à sociedade e às próprias big techs.

Como então salvar a democracia e a tecnologia? É um assunto complexo que tem sido abordado por estudiosos, inclusive em diversos livros já publicados e também pelos Parlamentos das principais nações do mundo. No Brasil o tema já esteve e está no Congresso, local apropriado para essa discussão mas, infelizmente, o STF irá se intrometer, mais uma vez, em assuntos que não são parte de suas atribuições. No próximo dia 27 de novembro nele (STF) se iniciará o julgamento de três ações que discutem a responsabilização das plataformas digitais por conteúdos publicados por terceiros. Lei da Censura em pauta é a tradução que se ler nas redes sociais e é tudo o que não se deve adotar para salvar a democracia e a tecnologia. 

19 outubro 2024

Elon Musk: Se for necessário, nós faremos um telefone


Cara, espero que não tenhamos que fazer um telefone.  Isso dá muito trabalho.


A ideia de fazer um telefone me dá vontade de morrer,


Mas se tivermos que fazer um telefone, nós ofaremos.


Mas aspiraremos a não fazer um telefone.


Eu acho que as várias empresas e a Apple e Google Android e o que você não sabe que eles precisam ter certeza de que não têm uma mão pesada como a loja de aplicativos e o que não ou eles vão criar uma função de força para que haja um concorrente.


Mas cara, eu deveria a ideia de eu eu temo a ideia de fazer um telefone hum, mas se se isso for necessário, faremos isso, mas espero que não seja é necessário.



Elon Musk no Town hall em Philadelphia, 

Pennsylvania, 18 de outubro de 2024.


21 setembro 2024

A transformação do STF em um tribunal de exceção

 O Estadão publica mais um editorial com críticas pesadas à atuação do STF, desta vez apontando a condução dos inquéritos pelo ministro Alexandre de Moraes como kafkiana.

O editorial denuncia o que considera um abuso de poder por parte do ministro, que, ao investigar e penalizar brasileiros por usarem a plataforma X após a suspensão no Brasil, estaria agindo de maneira arbitrária. O texto acusa Moraes de criar “leis” próprias, ignorando princípios constitucionais como a legalidade e a separação de poderes, além de aplicar sanções desproporcionais e genéricas que podem afetar qualquer cidadão. A crítica central é a transformação do STF em um tribunal de exceção, onde os brasileiros, comparados a personagens de Kafka, podem ser punidos sem sequer saberem por qual razão.

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Editorial do Estadão de 21 de setembro de 2024

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UMA SUPREMA CORTE KAFKIANA

Brasileiros tornaram-se parte nos inquéritos secretos de Moraes e podem ser punidos por ‘leis’ tiradas de sua cabeça. Ainda há Constituição no Brasil. Haverá um tribunal constitucional?

A pedido da Procuradoria-Geral da República, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou à Polícia Federal que investigue perfis que utilizaram a plataforma X após a sua suspensão no Brasil, através de VPN – um dispositivo que oculta a origem do usuário –, a fim de penalizar os que fizeram “uso extremado”.

Ainda que, tomada isoladamente, a decisão de bloquear o X após reiterados descumprimentos de ordens judiciais possa ser justificada, ela é um dos frutos das árvores envenenadas que são os inquéritos intermináveis, inacessíveis e indefiníveis conduzidos por Moraes. Movido pela tara punitivista e revanchista do ministro, o bloqueio foi acompanhado de diversas providências eivadas de irregularidades, incoerências e amadorismo, a começar pela citação feita pelo perfil do STF no próprio X. Bloqueios de bens e multas vêm sendo aplicados à Starlink, uma empresa distinta, com acionistas distintos. Na petição que determinou o bloqueio, Moraes ainda ordenou a plataformas que inviabilizassem a disponibilidade de VPNs. No mesmo dia, numa confissão tácita de sua ignorância a respeito de um dispositivo perfeitamente legal usado no mundo inteiro para fins os mais diversos, Moraes revogou a própria decisão. Mas a mais teratológica e francamente sinistra das decisões foi a previsão de uma multa de R$ 50 mil a quem acessasse a rede. Todas essas medidas foram referendadas pela 1.ª Turma da Corte.

Mesmo a Ordem dos Advogados do Brasil, que no geral tem sido complacente com o festival de abusos perpetrados nos inquéritos do STF, se viu obrigada a sair de seu torpor e entrar com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental contra as multas. A peça denuncia não uma, mas várias violações a preceitos fundamentais: princípio da legalidade, da reserva legal, da separação dos Poderes, do devido processo legal, do contraditório e da proporcionalidade das sanções.

Nulla poena sine lege é um princípio básico do direito consagrado pela Constituição: “Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal” (art. 5.º, XXXIX). Mas ao determinar, no âmbito de um inquérito (!), uma punição genérica e abstrata que pode alcançar todos os brasileiros, Moraes, não contente em concentrar as funções de investigador, acusador e juiz, usurpou o papel de legislador. Sanções processuais só podem ser aplicadas às partes diretamente envolvidas no processo. Mas, aberto o precedente, deve-se assumir que juízes podem exarar sanções genéricas em seus processos e aplicá-las a quaisquer terceiros não intimados a tomar parte neles.

Para piorar, o valor da multa é completamente desproporcional. Para piorar ainda mais, a conduta passível de punição é fluida: que diabos é um “uso extremado”? Trata-se de mais um tipo penal fabricado sob medida por Moraes (como “desinformação” ou “discursos de ódio”) para punir quem ele bem entender.

Em seu voluntarismo, o STF ensejou a surreal situação em que não só os 20 milhões de usuários do X, mas qualquer um dos mais de 210 milhões de brasileiros pode ser draconianamente punido no âmbito de inquéritos secretos do qual não fazem parte por condutas indetermináveis, e a constrangedora perspectiva de a Corte (através de seu colegiado) declarar inconstitucional uma decisão da própria Corte (através da 1.ª Turma), ou, o que é pior, não declarar, instaurando de vez um tribunal de exceção.

Seria tentador parafrasear, a propósito de todo cidadão brasileiro agora passível de ser alvejado pelos delírios persecutórios de Moraes, a célebre abertura de O Processo de Franz Kafka: “Alguém deve ter dito mentiras sobre Joseph K., pois sem ter feito nada errado recebeu uma multa de R$ 50 mil numa bela manhã”. Mas há outro trecho que, no caso, se aplica ipsis litteris a Moraes e outros colegas e autoridades – incluindo o procurador-geral da República – intoxicados pela fumaça do mau direito: “Eles estão falando de coisas sobre as quais não têm a menor noção. É só por causa da sua estupidez que podem ser tão seguros de si mesmos”.

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Sobre o mesmo tema é a coluna de Fernando Schüler,  "Servidão voluntária" publicada na Veja.

04 setembro 2024

Mensagens mostram ordem de Moraes para endurecer contra o X e início de atrito com Musk

Artigo publicado pela Folha de São Paulo, 03/09/204, às 23:00 horas, tendo como autores Fabio Serapião e Glenn Greenwald

Após plataforma informar regras sobre moderação, ministro mandou preparar relatórios e indicou que aplicaria sanções sob pena de multa

Conversas entre auxiliares de Alexandre de Moraes no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostram como o ministro ordenou o endurecimento contra o X (antigo Twitter) após o bilionário Elon Musk assumir a empresa e se negar a fazer a moderação de conteúdo nos termos defendidos pelo magistrado.

As mensagens são de março de 2023, cinco meses após a eleição no Brasil, e tratam de publicações sem relação direta com assuntos da alçada do TSE. Elas mostram o início do atrito entre a plataforma e Moraes, que dura até hoje e resultou na ordem de suspensão do X no país.



Em 2022, o TSE firmou parcerias com as redes sociais para, por meio de alertas, recomendar exclusão de publicações que, segundo avaliações internas da corte, espalhavam mentiras ou discursos de ódio.

As mensagens revelam que, passada a eleição e já sob comando de Musk, o X (à época ainda Twitter) passou a não concordar com os pedidos de Moraes.

Os diálogos aos quais a Folha teve acesso são de um grupo no WhatsApp formado pelo juiz auxiliar de Moraes no TSE, Marco Antônio Vargas, e por integrantes da AEED (Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação), também do tribunal eleitoral.

Depois de reuniões e de ser informado sobre a discordância da empresa em relação às suas solicitações, o ministro, que à época era presidente do TSE, decidiu que a postura deveria mudar.

"Então vamos endurecer com eles. Prepare relatórios em relação a esses casos e mande para o inq [inquérito] das fake [news]. Vou mandar tirar sob pena de multa", dizia a mensagem de Moraes, reencaminhada no grupo por Vargas, que logo acrescentou: "Vamos caprichar".

Desde então, Moraes tem aplicado multas e ordenado a retirada de conteúdos publicados no X por meio de decisões no STF (Supremo Tribunal Federal).

Procurados, Moraes e o STF não se manifestaram.

Como a Folha revelou em uma série de reportagens, Moraes passou a usar a AEED como um braço investigativo para abastecer o inquérito das fake news, do qual é relator no Supremo.

A conversa sobre a mudança de postura com a plataforma ocorreu em 17 de março de 2023. Logo pela manhã, às 6h58, o juiz auxiliar Marco Antônio Vargas mandou no grupo uma publicação de uma mulher sobre soltura de presos pelos ataques golpistas do 8 de janeiro.

"Foi o 'Tribunal Internacional’. O Mula, Xandão e esse governo usurpador estão sendo acusados de crimes contra a humanidade (prisões, ilegais, tortura, campos de concentração, mortes, etc.)", dizia trecho da postagem.

"Bom dia, preciso do contato do Twitter", pediu o juiz auxiliar no grupo. Após uma servidora da AEED mandar o telefone de um pessoa de nome Hugo [Rodríguez, então representante da empresa para a América Latina], outro integrante do órgão de combate à desinformação, chamado Frederico Alvim, entrou na conversa e se colocou à disposição para falar com a plataforma.

"Vc pode ver com ele para que façam uma análise de postagens dessa natureza?", disse o juiz.

Alvim respondeu: "Sim. A ideia seria aumentar um pouquinho o escopo da parceria, pra que questões como essa possam ser enviadas pelo sistema de alertas, obtendo tratamento?".

Em seguida, o servidor explicou ao juiz como funcionava a atuação da plataforma na moderação de conteúdo e qual seria o caminho para conseguir que o X passasse a excluir o tipo de publicação citada por ele.

"Acho que reivindicar uma alteração formal da política seria muito demorado e dificultoso, porque dependeria da boa vontade do time global, agora subordinado ao Musk. Creio que a saída mais fácil seria pedir uma calibração da interpretação da política já existente", afirmou Alvim.

Segundo ele, a política de integridade da plataforma se aplicava em três circunstâncias: eleições, Censo e grandes referendos e outras votações dentro dos países.

Como não estavam em período eleitoral, disse Alvim, o caminho seria "defender que, embora as eleições tenham terminado e o novo presidente empossado, esses ataques mantêm acesa a possibilidade de novas altercações".

Às 9h45, o servidor informou ao juiz auxiliar ter agendado uma reunião com o representante da plataforma para as 12h daquele dia.

"Vou tentar, o seguinte, nesta ordem de preferência: 1) que removam o conteúdo e se comprometam a remover outros semelhantes, sempre que acionarmos pelo sistema de alertas; ou 2) que ao menos removam esse, imediatamente, enquanto discutimos ajustes nas políticas (numa reunião com o senhor)", disse Alvim. "Perfeito", respondeu o juiz.

Após expor a tática, Alvim fez questão de adiantar as dificuldades que enfrentavam com Musk no comando da empresa.

"Vou ver o que consigo. Mas ele já adiantou que, com a entrada do Musk, a equipe dele deixou de tomar decisões de moderação. Essas decisões estão sendo tomadas por um colegiado, do qual eles não participam", afirmou.

Às 12h35, logo após terminar a reunião com Hugo Rodríguez e uma pessoa de nome Adela, Alvim mandou algumas mensagens no grupo para informar o juiz auxiliar de Moraes sobre o resultado da conversa.

O representante da plataforma, disse Alvim, deixou claro que fora do período eleitoral as regras a serem seguidas seriam as gerais, sem tratamento específico para o TSE ou para publicações como a enviada pelo juiz auxiliar.

"Com a entrada do Elon Musk, a moderação caminha cada vez mais para ter como base a proteção da segurança, mais do que a proteção da verdade", escreveu.

"Trocando em miúdos, uma mentira desassociada de um risco concreto tende a não receber uma moderação. A moderação só ocorre quando houver discurso violento, discurso de ódio e cogitação de alguma espécie mais palpável de dano (incitação de um ato de depredação ou coisa do tipo). Com o detalhe de que o 'risco à democracia', por não ser tangível, não entra nesse conceito", disse Alvim.

Ainda segundo o relato dele, para derrubar ou bloquear as publicações com ofensas ao ministro, seria necessária "atuação judicial".

"Tentei convencê-los a procederem à retirada, apontando que as regras deles preveem como irregulares os casos de assédio, incluindo insulto. Mas, na visão do Twitter, o insulto em si (sem risco de violência) não enseja moderação, porque eles não estão tutelando a honra, mas, de novo, a segurança."

A explicação dada pelo representante da plataforma era a de que o combate à desinformação seria feito com ferramentas como as "notas de comunidade" —quando o post com desinformação é classificado dessa forma a partir de denúncias de usuários

"Segundo os estudos que fizeram, ao longo de 2 anos, os tuítes marcados com notas de comunidade têm uma redução de 20% a 40% do potencial de enganar pessoas", disse Alvim.

Depois de avisar que iria repassar as informações ao ministro, às 12h58 o juiz Marco Antônio Vargas reencaminhou uma mensagem recebida de Moraes com a posição a ser seguida a partir dali.

"Ministro Alexandre de Moraes: Então vamos endurecer com eles. Prepare relatórios em relação a esses casos e mande para o inq das fake. Vou mandar tirar sob pena de multa."

"Resolvido. Vamos caprichar no relatório para esse fim", mandou então no grupo Marco Antônio Vargas.